| “PAI” NABEIRO
31-03-2023 - N.A.
Não obstante esta edição d´O Notícias de Almeirim ocorrer quase cerca de quinze dias após o óbito de Rui Nabeiro, este jornal não podia deixar de lhe render uma pequenamas sentida homenagem.
Humilde no “berço” e no “caixão”, tal como ao logo dos seus 91 anos de vida, Rui Nabeiro foi, e será, um exemplo de Homem com “H”; assim as gerações presentes e vindouras o lembrem, conheçam a sua “obra” fundada no “sonho”, no assumir de riscos, empreendedorismo, inovação, criação de um império comercial e industrial que à data da sua “partida para o Além” muito ultrapassava (e ultrapassa) as fronteiras de Portugal e da própria Europa comunitária, mas sempre arreigado ao seu “torrão” natal alentejano de Campo Maior (onde manteve a sede do dito “império” e a quase totalidade das suas unidades fabris), e, sobretudo, o seu génio empresarial, embora tendo apenas a então “4ª Classe” (hoje 4º ano da escolaridade básica). Nunca se deslumbrou com a riqueza que pelo seu intenso trabalho, juntamente com o dos seus colaboradores/trabalhadores foi sendo produzida e aumentada ao longo de décadas, com eles e seus conterrâneos (mas não só) objecto de partilha, daí ser chamado, muito carinhosa e justamente, de “Pai” pelo povo da sua Terra.
Não cabe aqui avaliar ou especular sobre quantas centenas ou milhares de milhões de Euros vale o “Império Delta”, porém, contrariamente a outros que, quando comparados com Rui Nabeiro, têm “tostões”/”cêntimos”, mas que os esbanja mal alardeadamente nas capas de fúteis revistas “cor-de-rosa”, excentricidades exibicionistas de iates (navios de recreio), aviões a jacto privados e festas mirabolantes, aquele sempre primou pela discrição, refugiando-se na “sombra” do interior raiano do norte do Alentejo, na Família, no trabalho e na amizade, convívio, benemerência e solidariedade para com os seus patrícios ou outros, fossem pobres, remediados ou ricos, mas a ele semelhantes no comportamento social.
Aquando da independência de Timor Leste, num gesto solidário para com o Povo Maubere, comprou por um, dois ou mais anos a totalidade da respectiva produção de café, aliás um dos melhores do Mundo, permitindo assim o reinicio da sua cultura em qualidade e quantidade.
Ainda em termos de solidariedade social, no final dos anos 70 e início dos 80 do Séc. XX promoveu um bairro social em Campo Maior para os seus empregados e famílias, mas não só, sendo que o seu “espírito solidário” não se traduzia em dar esmolas, mas, ainda que não precisasse, dava trabalho e um salário a quem necessitasse de ajuda, nem que fosse “pôr-lhe uma vassoura na mão” para varrer as entradas das suas empresas, proporcionando auto-estima e dignidade às pessoas.
De notar que Rui Nabeiro deu início ao crescimento do seu minúsculo negócio de café durante a Guerra Civil de Espanha ocorrida de 1936 a 1939, e posteriormente durante a II Guerra Mundial, sendo que em 2023 o mesmo, embora centrado no café, se estendeu para a fabricação de máquinas industriais em Campo Maior, pois antes dessas de marca Delta serem produzidas em Portugal, as mesmas eram esmagadoramente importadas, sobretudo de Itália.
Depois recusou vender por “números” astronómicos os seus negócios ao colosso multinacional suíço Nestlé, ripostando com a compra de uma empresa cafeeira helvéticade referência.
Nunca perdendo o âmago do seu negócio ligado directa e indirectamente ao café, nos últimos anos diversificou o mesmo para a vitivinicultura em terras campomaiorenses, criando a marca de excelência Adega Mayor na Herdade das Argamassas sita no Concelho campomaiorense, cuja adega propriamente dita foi projectada pelo grande arquitecto português de renome mundial Siza Vieira, a qual é uma obra de arte. Aliás, em termos de arte, porque a mesma é cultura, fundou em Campo Maior o Museu do Café, algo enriquecedor do património cultural em termos agro-industriais, actividade esta que elevou e levou o nome dessa pequena e recôndita Vila alentejana em termos nacionais e por várias partes do Mundo.
À medida que o “negócio”cresceu, e pela lei natural da Vida o “horizonte” temporal da sua se foi aproximando, preparou a respectiva descendência para a sucessão e continuação da grande e notável “obra” por si iniciada e construída, sendo que ainda numa das suas últimas entrevistas concedida a uma estação televisiva portuguesa afirmou que não tencionava reformar-se, antes manter-se activo e a trabalhar enquanto pudesse –e foi o que fez!
Como nota final da sua rica biografia empresarial e cívica, a qual não cabe nem se pretende seja exaustiva nestas breves linhas, Rui Nabeiro foi alguém tão consensual e excepcional que, em termos políticos, “conseguiu” ser Presidente da Câmara Municipal de Campo Maior antes e depois de 25 de Abril de 1974, e, tanto quanto se sabe, sem qualquer tipo de contestação popular no ante e no post.
Assim, muito bem e justamente, Rui Nabeiro mereceu dos campomaiorenses o “título” de Pai.
Que no Céu Deus premeie Nabeiro pelo bem que fez na Terra!
O Notícias de Almeirim
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