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Subsecretária de Estado dos EUA admite que Ucrânia tem laboratórios que podem fazer armas biológicas

18-03-2022 - Glenn Greenwald

Confissão da neoconservadora Victoria Nuland lança luz sobre o papel dos EUA na Ucrânia e levanta questões vitais sobre instalações que poderiam produzir as armas de destruição em massa que os EUA mentiram existir no Iraque.

As agências de vrificação de notícias da imprensa corporativa norte-americana passaram duas semanas zombando da desinformação  de uma falsa teoria de conspiração  alegando que a Ucrânia, sozinha ou com o apoio dos EUA, teria laboratórios de armas biológicas. Eles nunca apresentaram nenhuma evidência de fake news. Como eles poderiam saber? E como poderiam provar a farsa? Mesmo assim, invocaram seu tom sempre autoritário e de autoconfiança acima de tudo para decretar “A verdade”, rotulando definitivamente tais alegações como falsas.

As denúncias de que a Ucrânia mantém atualmente laboratórios de armas biológicas perigosas vieram da Rússia e da China. O Ministério das Relações Exteriores da China publicou este mês: “Os EUA têm 336 laboratórios em 30 países sob seu controle, incluindo 26 somente na Ucrânia “. Já o Ministério das Relações Exteriores russo afirmou que  “a Rússia obteve documentos provando que laboratórios biológicos ucranianos localizados perto das fronteiras russas trabalhavam no desenvolvimento de componentes de armas biológicas”. Tais afirmações merecem o mesmo nível de ceticismo que as negações dos EUA: a saber, nenhuma delas deve ser considerada como prova verdadeira ou falsa. No entanto, as agências de checagem dos EUA tomaram o lado do Governo dos EUA para declarar tais afirmações como “desinformação” e para ridicularizá-las como teorias de conspiração de QAnon.

Incrivelmente, no meio deste barulho propagandístico disfarçado de neutralidade jornalística e de checagem de fatos, a executiva há muito encarregada da política dos EUA na Ucrânia testemunhou na terca-feira no Comitê de Relações Exteriores do Senado e admitiu que tais reivindicações são, pelo menos em parte, verdadeiras. Nesse dia, a subsecretária de Estado, a neoconservadora Victoria Nuland, respondeu com clareza a pergunta do Senador Marco Rubio (Republicano da Flórida – R-L), que esperava desmascarar as crescentes alegações de que existem laboratórios de armas químicas na Ucrânia: “A Ucrânia tem armas químicas ou biológicas?

Rubio, sem dúvida, esperava uma negação chata por parte de Nuland, fornecendo assim mais uma “prova” de que tal especulação é uma fake news, emanada do Kremlin, do Partido Comunista Chinês e do QAnon. Ao invés disso, Nuland fez algo completamente fora do padrão para ela, para os neoconservadores e para os altos funcionários da política externa dos EUA: por alguma razão, ela disse a verdade. Sua resposta surpreendeu visivelmente Rubio. Assim que ele percebeu os danos que a resposta poderia causar à campanha dos EUA, Rubio a interrompeu e exigiu que ela, ao invés disso, afirmasse que se um ataque biológico ocorresse, todos deveriam estar “100% certos” de que foi a Rússia quem o fez. Agradecida pela jangada salva-vidas, Nuland disse a Rubio que ele estava certo.

Mas a ação de Rubio chegou tarde demais. Quando questionada se a Ucrânia possui “armas químicas ou biológicas”, Nuland não negou de forma alguma. Ao contrário, ela – com um desconforto palpável da caneta girando nos dedos e em um discurso lento, num contraste gritante com seu estilo normalmente arrogante de falar no dialeto oficialês do Departamento de Estado, reconheceu:

“Uh, a Ucrânia tem, uh, instalações de pesquisa biológica”. Qualquer esperança de descrever tais “instalações” como benignas ou banais foi imediatamente destruída pelo que ela disse em seguida: “estamos agora de fato bastante preocupados que as tropas russas, as forças russas, podem estar procurando, uh, tomar o controle [desses laboratórios]. Então estamos trabalhando com os ucranianos sobre como eles podem evitar que qualquer um desses materiais de pesquisa caia nas mãos das forças russas caso eles se aproximem”

A bizarra admissão de Nuland de que “a Ucrânia tem instalações de pesquisa biológica” suficientemente perigosas para justificar a preocupação de que poderiam cair em mãos russas constituiu, ironicamente, uma evidência mais forte da existência de tais programas na Ucrânia, do que o que foi oferecido em 2002 e 2003 para corroborar as alegações dos EUA sobre os programas químicos e biológicos de Saddam no Iraque. Uma confissão real de um alto funcionário americano sob juramento é claramente mais significativa do que tudo o que Colin Powell falou no Conselho de Segurança da ONU segurando um tubo de ensaio com uma substância desconhecida no interior e apontando para imagens granuladas de satélite que ninguém conseguia decifrar.

É evidente que a existência de um programa de “pesquisa” biológica ucraniana não justifica uma invasão da Rússia. Muito menos um ataque tão abrangente e devastador como o que se desenrola: não mais do que a existência de um programa biológico semelhante sob Saddam teria justificado a invasão dos Estados Unidos no Iraque em 2003. Mas a confissão de Nuland lança luz crítica sobre várias questões importantes e levanta questões vitais que merecem respostas.

Qualquer tentativa de afirmar que as instalações biológicas da Ucrânia são apenas laboratórios médicos benignos é negada pela preocupação explícita de Nuland de que “as forças russas podem estar procurando tomar o controle” dessas instalações e que o governo dos EUA está, neste momento, “trabalhando com os ucranianos sobre como eles podem evitar que qualquer um desses materiais de pesquisa caia nas mãos das forças russas”.

A Rússia tem seus próprios laboratórios médicos avançados. Afinal de contas, foi um dos primeiros países a desenvolver uma vacina COVID, que a Lancet, em 1º de fevereiro de 2021, pronunciou ser “segura e eficaz” (embora as autoridades americanas tenham pressionado vários países, incluindo o Brasil, a não aceitar qualquer vacina russa, e aliados americanos como a Austrália se recusaram por um ano inteiro a reconhecer a vacina russa para a COVID para seu programa de imunização.

A única razão para estar “bastante preocupado” com estas “instalações de pesquisa biológica” caindo em mãos russas é se elas contiverem materiais sofisticados que os cientistas russos ainda não desenvolveram por conta própria e que poderiam ser usados para fins nefastos – ou seja, armas biológicas avançadas ou “pesquisa” de dupla utilização que tenha potencial para fabricar armas.

O que há nesses laboratórios biológicos ucranianos que os tornam tão preocupantes e perigosos? A Ucrânia, que não é conhecida por ser uma grande potência com pesquisa biológica avançada, teve a assistência de qualquer outro país no desenvolvimento dessas substâncias perigosas? A assistência americana está confinada ao que Nuland descreveu na audiência – “trabalhando com os ucranianos sobre como eles podem evitar que qualquer desses materiais de pesquisa caia nas mãos das forças russas” – ou a assistência americana se estendeu à construção e operação das próprias “instalações de pesquisa biológica”?

Fonte: Jornalistas Livres

 

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