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E se a Rússia fechar a torneira do gás à Europa?

18-03-2022 - André Veríssimo

São 1.224 quilómetros de gasodutos, a maior parte debaixo das águas do Báltico, que ligam Vyborg, a noroeste de São Petersburgo, a Lubmin, no nordeste da Alemanha. O Nord Stream 1 é detido em 51% pela russa Gazprom, com o restante capital distribuído pelas alemãs Wintershall Dea e E.On, a francesa Engie e uma empresa holandesa, testemunho de um espírito de parceria agora posto em causa. Na última semana, o primeiro-ministro da Rússia, Alexander Novak, ameaçou fechar totalmente a torneira, em retaliação contra as sanções da União Europeia.

Pela notável obra de engenharia, com um custo estimado de 14,8 mil milhões de euros, passaram o ano passado 59,2 mil milhões de metros cúbicos de gás natural. Mas não é sequer a mais relevante das várias que têm origem na Rússia. Pelo gasoduto que atravessa a Ucrânia vieram 125 mil milhões de metros cúbicos em 2021. O Yamal, que liga o Ártico à Alemanha, passando pela Bielorrússia e a Polónia, trouxe 33 mil milhões de metros cúbicos. Há ainda o Blue Stream, que abastece a Turquia, e o Turkstream, que vai até ao sudeste da Europa. Juntas, estas infra-estruturas são vitais para a segurança energética do Velho Continente.

Nos meses antes da invasão da Ucrânia, a Rússia diminuiu o fornecimento, deixando alguns países europeus com reservas reduzidas, de forma a alavancar o poder da sua arma energética. Mas o gás natural nunca deixou de correr para Ocidente. O que tem gerado críticas do lado de cá da barricada.

Com a compra de gás natural, petróleo ou carvão russos, os aliados estão na prática a financiar o regime de Putin e a sua guerra, entregando-lhe divisas. Joe Biden já baniu as importações de todos os bens energéticos, o Reino Unido e a Austrália anunciaram o mesmo em relação ao petróleo. O antigo Presidente francês, François Hollande, defendeu num artigo de opinião no Le Monde, que a França "não pode moralmente e politicamente" continuar a comprar gás à Rússia.

A questão é que a dependência daqueles países das matérias-primas russas não é comparável à da União Europeia. A bazuca de sanções já aprovadas pelos 27 deixou de fora as importações de energia. Mesmo as restrições impostas ao sistema financeiro, incluindo o bloqueio do SWIFT para alguns bancos, tiveram o cuidado de manter funcionais as instituições relevantes para as transacções envolvendo a venda de energia à Europa. A única iniciativa nesta área foi a proibição de exportação de peças e equipamento industrial para a Rússia, algo que não tem impacto no curto a médio prazo.

Isto acontece porque a maioria dos países do Leste, como a Hungria ou a república Checa, e grandes economias, como a Alemanha e a Itália, não podem prescindir dos combustíveis fósseis russos, nomeadamente do gás natural. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a União Europeia comprou 155 mil milhões de metros cúbicos de gás à Rússia em 2021, o equivalente a 45% das importações e perto de 40% do consumo. O país de Vladimir Putin fornece ainda cerca de 27% do petróleo, 14% do gasóleo e perto de metade do carvão.

No gás, a tarefa de encontrar fornecedores alternativos é ainda mais difícil, sobretudo nos países onde a matéria-prima chega primordialmente através de gasodutos com origem na Rússia e não na forma de gás natural liquefeito (GNL), como é o caso da Alemanha.

Dados da Independent Commodity Intelligence Services, citados pela Reuters, indicam que a Rússia foi o maior fornecedor de gás natural dos germânicos (32%) no ano passado, seguida da Noruega (20%) e da Holanda (12%). Em Portugal, o gás russo representou 10,2% das importações de GNL, atrás dos EUA (33,3%) e da Nigéria (49,5%).

O gás foi usado para produzir apenas 15,3% da eletricidade em 2021 (em Portugal foi 29%), mas é utilizado no aquecimento de metade dos 41,5 milhões de agregados familiares do país. Cerca de 34% do petróleo e 53% do carvão consumido na Alemanha vem da Rússia, segundo dados do gabinete de estatísticas BAFA e da VDKi.

Neste momento, não há outra forma de assegurar o fornecimento de energia à Europa para o aquecimento, a mobilidade, a eletricidade e a indústria.

Olaf Sholz

Chanceler alemão

Números que levaram o chanceler Olaf Sholz a recusar seguir as pisadas de Joe Biden. "A Europa isentou deliberadamente o fornecimento de energia das sanções à Rússia. Neste momento, não há outra forma de assegurar o fornecimento de energia à Europa para o aquecimento, a mobilidade, a eletricidade e a indústria", justificou em comunicado. "É essencial para os serviços em geral e para o dia-a-dia dos nossos cidadãos".

E se Vladimir Putin cortar o gás?

Ter ou não o gás russo é uma opção da União Europeia, mas também o é de Moscovo, que por mais de uma vez já ameaçou fechar a torneira. Paradoxalmente, as sanções já impostas reduzem a possibilidade de isso acontecer. Com os ativos do banco central russo no exterior congelados, o regime de Vladimir Putin ficou ainda mais dependente das divisas que entram com a venda de bens energéticos. O que não quer dizer que não possa vir a acontecer.

Por iniciativa da própria UE, ou de Putin, o fim do gás natural russo iria aumentar ainda mais a inflação, provocar racionamentos, sobretudo para a indústria, e travar o crescimento económico. Mesmo sem isso, a palavra estagflação saltou para as manchetes, com o fortíssimo aumento na cotação das matérias-primas a ameaçar o PIB. Na quinta-feira, o BCE baixou para 3,7% a estimativa de crescimento da Zona Euro este ano. O Goldman Sachs é mais pessimista, apontando para 2,5%, com a economia a encolher durante o segundo trimestre.

Uma hipotética redução de 10% no consumo de gás na Europa reduziria provavelmente o PIB da União Europeia em menos de 1%.

David Oxley

Economista da Capital Economics

Um corte no fornecimento de gás agravaria o cenário, mas David Oxley, da Capital Economics, considera que o impacto não seria dramático. "No passado, os episódios de racionamento de energia não foram tão penalizadores como seria de esperar e uma hipotética redução de 10% no consumo de gás na Europa reduziria provavelmente o PIB da União Europeia em menos de 1%", escreveu numa nota divulgada este mês. O gás russo representa 10% do consumo primário de energia do bloco.

Um estudo de nove economistas de várias universidades e institutos, com o título "What if? The Economic Effects for Germany of a Stop of Energy Imports from Russia", conclui que os "impactos seriam provavelmente substanciais, mas geríveis". A quebra no PIB oscilaria entre 0,5% e 3%, (com a pandemia, em 2020, foi de 4,5%), dependendo do grau de substituição do gás russo por outras alternativas.

Acabar com a dependência russa antes de... 2030

Essa busca começou meses antes do dia 24 de fevereiro, quando as tropas russas iniciaram a invasão da Ucrânia. Mas só na passada terça-feira a Comissão Europeia apresentou as linhas gerais de um plano (REPowerEU) para "tornar a Europa independente dos combustíveis fósseis russos muito antes de 2030". O prazo evidencia a dificuldade da tarefa. A prioridade vai para o gás natural, tentando aproveitar os meses de menor consumo que se avizinham, com várias medidas:

· Reduzir em dois terços a importação de gás russo no espaço de um ano;

· Impor o reforço das reservas de gás natural dos atuais 30% para, pelo menos 90%, até 1 de outubro de cada ano, começando já no próximo outono;

· Diversificar os fornecedores, aumentando as importações de gás natural liquefeito e através de gasodutos provenientes de outros países;

· Avaliar opções para limitar o efeito de contágio das cotações do gás na eletricidade, como limites temporários nos preços.

· Acelerar o aumento da capacidade de produção de gases renováveis, como o hidrogénio ou o biometano.

Bruxelas quer também reduzir de forma mais rápida o uso de combustíveis fósseis, aumentando a eficiência energética (o que inclui baixar os termóstatos), reforçando o peso das renováveis e resolvendo os constrangimentos nas infraestruturas, nomeadamente na interligação das redes de energia.

O plano da Comissão Europeia mereceu o apoio dos líderes europeus, que se reuniram quinta e sexta-feira em Versailles. A declaração final dá instruções à equipa presidida por Ursula von der Leyen para entregar os planos finais do REPowerEU até ao final de maio.

Vai continuar a haver o desejo de reduzir a exposição à Rússia, que mostrou não ser um fornecedor confiável.

Caroline Bain

Economista da Capital Economics especializada em matérias-primas

O desafio não se coloca apenas à UE, mas também à Rússia. Se os barris de petróleo podem ser embarcados para outras paragens, os gasodutos não podem mudar de sítio. Mesmo que a guerra viesse a terminar nas próximas semanas ou meses, o conflito provocou uma mudança estrutural e duradoura no mercado. "Vai continuar a haver o desejo de reduzir a exposição à Rússia, que mostrou não ser um fornecedor confiável", afirma Caroline Bain, economista da Capital Economics, especializada em matérias-primas.

As palavras da presidente da Comissão Europeia vão nesse sentido: "Temos de nos tornar independentes do petróleo, carvão e gás russos. Não podemos depender de um fornecedor que explicitamente nos ameaça".

Fonte: ECO

 

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