| Preparar as cidades para o pior cenário: os desafios urgentes das mudanças climáticas
18-03-2022 - Francisco Laranjeiro
O mais recente Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC) fez uma avaliação alarmante sobre os impactos do aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, assim como as emissões globais de gases de efeito estufa associados. “Já vi muitos relatórios científicos mas nada parecido com isto”, precisou António Guterres, secretário-geral da ONU. É uma “acusação condenatória de liderança climática fracassada”, explicou.
Nas cidades (ou ‘ilhas de calor urbanas’), os impactos da subida das temperaturas faz-se sentir num fenómeno cada vez mais comum e com um perigo previsível, tanto na saúde como nas próprias infra-estruturas das cidades. Em 2021, as ondas de calor aceleraram: em Agosto, em Espanha, foi estabelecido um novo recorde de calor provisório de 47,2°C, com os moradores de Algar, no sul do país vizinho, uma cidade com 1.400 habitantes, a terem de aproveitar as noites fora de suas casas. Também nos Estados Unidos, Portland e Seattle experimentaram temperaturas acima dos 40°C. Como a maioria das cidades europeias, especialmente Atenas, a onda de calor teve impacto na temporada turística – aliás, a capital da Grécia tornou-se a primeira cidade a nomear um director de ondas de calor, depois de Miami, a primeira cidade a nível mundial a ter uma pessoa a ocupar o cargo, em Maio último.
Entre as soluções possíveis, a arborização urbana é frequentemente explicada como uma hipótese para enfrentar as ondas de calor ou inundações através de espaços urbanos verdes e naturais. O uso de materiais sustentáveis na construção de espaços ou construção de corpos d’água em ambientes fechados pode ajudar – a maioria dos projectos arquitectónicos mudou os exteriores ao utilizar elementos orgânicos como jardins verticais verdejantes, grandes janelas e edifícios ventilados.
Segundo a US Green Building Council, com sede em Washington, nos Estados Unidos, os edifícios representam cerca de 41% do uso global de energia. Mas há alternativas: o concreto pode ser substituído com o uso de materiais de construção alternativos – o concreto de cânhamo, uma mistura de hurds de cânhamo e cal, um material isolante leve e ideal para a maioria dos climas pois combina isolamento e massa térmica. Aço reciclado, ideal para construção ecológica, pode ser usado em vigas e outros componentes estruturais, o que reduz o impacto energético em 75%.
As telhas solares ajudam a gerar energia para os habitantes do edifício e protegem a cobertura do sol. O isolamento à base de papel, até mesmo jornais reciclados e papelão, são uma alternativa superior às espumas químicas pois são resistentes a insectos. O bambu pode também ser usado em elementos invisíveis atrás das paredes para maior tenacidade.
Pode igualmente optar-se pelo reaproveitamento adaptativo de portas e madeira reciclada para eliminar os resíduos tóxicos da construção, a captação da água da chuva e as fossas de percolação ajudam na regulação do consumo de água de uma estrutura. Paredes respiráveis tornaram-se imperativas à medida que as soluções tecnológicas como revestimento de dióxido de titânio, cimento biodinâmico, argila bentonítica ajudam as filtrar os poluentes do ar no microclima. Painéis de concreto biodinâmicos usam a luz solar para catalisar reacções químicas e converter óxido de nitrogénio e dióxido de enxofre em sais inertes – esses materiais não são proibitivamente caros e adicionam entre 4 e 5% aos custos de construção.
O aquecimento global, assim como as ondas de calor, são fenómenos com os quais passaremos a conviver numa base regular, segundo definiu o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, pelo que as cidades têm de dar o exemplo de reconversão rumo a um futuro mais sustentável e verde.
Fonte: Multinews
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