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Um Natal, cinco famílias e um inimigo que mata “sem se ouvir um tiro”

24-12-2021 - Idálio Revez, Camilo Soldado e Pedro Manuel Magalhães

Várias famílias de diversos pontos do país contam ao PÚBLICO como será o seu segundo Natal em tempos de pandemia.

O Natal já não é o mesmo desde que, em 2020, o vírus SARS-CoV-2, chegou a Portugal. Depois de um pós-festas terrível no início deste ano, altura em que se bateram recordes ao atingir as 16.432 novas infecções (reportadas a 28 de Janeiro) e as 303 mortes (três dias depois), é hora de as famílias prepararem as celebrações de 2021, mesmo com o número de casos novos a aumentar e uma nova variante (Ómicron) a ensombrar os festejos. O que aprenderam com o exemplo do ano passado e o que vai mudar nas reuniões familiares, é disso que nos falam cinco famílias nas reportagens que se seguem feitas em vários pontos do país: Funchal, Sesimbra, Loulé, Barcelos e Coimbra. Ainda não há natais como antigamente.

A tradição possível na casa dos Santos Silva

Maria, 13 anos, negoceia com o pai uma ida ao parque de diversões. “Não vai acontecer”, responde João Santos Silva. A miúda protesta. Todos os anos vão a um parque de diversões pelo Natal. Está vacinada. Praticamente estão todos vacinados na Madeira. Então porquê? “Quando tiver menos gente, logo vemos”, concede o pai, abanando a cabeça. Maria encolhe os ombros e vai sentar-se junto ao pinheiro de Natal, para a fotografia de família.

Já lá está João, 43 anos, director comercial de uma empresa de distribuição. Catarina, de 40, assistente de direcção. E Constança com nove, a mais nova da casa. Falta o cão, um ‘rafeiro’ resgatado das ruas, que se mantém à distância, desconfiado das visitas.

Este ano, também na Madeira, o Natal vai ser diferente. O possível. Mesmo com uma taxa de vacinação completa superior a 85%. Mesmo com uma política de testagem maciça semanal. Máscaras obrigatórias na rua. Mesmo com bares e restaurantes abertos, o circo na cidade e um parque de diversões a derramar música e luz na marginal do Funchal. Mesmo com o acesso a todos estes espaços públicos limitado a quem tem a vacinação completa ou teste antigénio à covid-19 negativo feito há menos de uma semana. Mesmo com tudo isto, o Natal vai ser diferente.

“Tínhamos por hábito alternar a passagem do Natal na Madeira e no Porto, mas já não vamos lá há três anos”, conta João. O “lá” é ao Porto. Terra onde nasceu e cresceu e onde ele e Catarina se conheceram e viveram até 2005.

Com a família de João no Porto e a de Catarina na Madeira, foi natural os Santos Silva passarem o Natal um ano em cada região. “No ano passado não fomos, como é lógico. E este ano, também não vamos”, diz João, justificando com os aeroportos “lotados” e toda a logística necessária para viajar por estes dias.

“Vamos ficar cá. O que fazíamos era juntar a família mais alargada na casa da minha irmã no dia 24 [de Dezembro]. Os meus pais, a minha irmã, claro, e os meus tios. Depois, no dia de Natal, almoçávamos na casa dos meus pais”, explica Catarina. Este ano, os tios ficam de fora. “Vamos ser só nós, e todos testados. Ficamos mais descansados”, acrescenta. “E vai haver jogos, não é?”, pergunta Constança. Claro que sim.

“As pessoas estão cansadas disto, não é? Perderam um pouco o medo e querem viver como antes.” Quem fala é novamente João, que depois de no ano passado ter cortado com todas as tradições, quer agora recuperá-las, mesmo de forma condicionada.

A Noite do Mercado, por exemplo, é uma tradição forte no Funchal, que tem vindo a ser replicada por outras cidades e vilas da ilha. Acontece a 23 de Dezembro e leva milhares de pessoas à baixa da cidade, enchendo as ruas à volta do Mercado dos Lavradores. Há música, sandes de carne de vinho e alhos, um prato típico da época, chocolate quente. Há também álcool: cerveja, vinho e muita poncha. A festa, com música e barracas de comida, foi cancelada este ano, mas os Santos Silva querem ir na mesma ao mercado, durante a tarde, fugindo a “qualquer confusão”, para comer uma sandes e beber um chocolate quente. Mas não, Maria. Este ano, não vai haver passagem pelo parque de diversões. Márcio Berenguer

Todos testados e com mais respeito pela situação

Na família de Constança Quinteiro, as regras mínimas são consensuais e serão aplicadas neste Natal. De outra maneira não podia ser, diz a artista musical, depois do que ficou do Natal do ano passado. “Este ano vamos ter mais cuidados porque no ano passado uma grande parte da família teve covid no mês de Janeiro”, conta Constança, 30 anos.

Não foi grave. Os pais não foram infectados. Mas uma cunhada esteve hospitalizada e a família quase toda do lado do namorado, Miguel, teve a infecção, bem como Constança.

“No ano passado, passámos a consoada com a família do meu namorado e o dia de Natal com a minha família. E já não regressámos para a família dele”. Para não se multiplicarem contactos. Também reduziram o número de pessoas no mesmo evento e na mesma mesa. “Pensávamos que estávamos a ser cuidadosos.” E, no entanto, aconteceu — como em tantas outras famílias.

Constança e Miguel vão estar com cada um dos lados da família mas em separado, como há um ano. Já todos combinaram fazer o teste antes de se reunirem. “A mensagem é clara: não nos devemos deixar levar por notícias de que a Ómicron pode ter menos gravidade, porque, mesmo com menor gravidade, como é mais transmissível, isso chega para ser um problema”, diz Constança, que se prepara para lançar um disco no novo ano.

Miguel, companheiro de Constança e pai da filha, nascida em Maio, chega na próxima semana; virá com o teste feito de Londres, onde o casal em tempos viveu; e fará um segundo teste mesmo antes da consoada.

Em parte, a pandemia trouxe-os de volta a Portugal. Num ano, muita coisa mudou: além do regresso, traçaram metas, iniciaram novos projectos, e foram pais pela primeira vez.

Na família de Constança, os oito do ano passado passaram a nove – os pais, o irmão de Constança, a cunhada e os dois sobrinhos aos quais se junta o casal agora com a filha, Pilar.

Na família de Miguel, há mais irmãos, muitos primos e crianças. Juntos, são uns 20. “Seríamos quase 30 se nos juntássemos todos.” Ainda não será em 2021, o primeiro Natal da filha. “Estamos mais conscientes. Estamos todos vacinados, e temos mais respeito pela situação.” Será também por isso diferente do Natal do ano passado.

“Para a minha família, o Natal já não é a mesma coisa.” E Constança não o diz sobre o desgaste da pandemia mas sobre o que mudou desde que era ela a criança. “Houve algumas perdas e nunca voltou a ser o mesmo”, sem os avós.

Num cenário em que o número de casos de infecção cresce todas as semanas, com a disseminação de uma variante que ainda não é totalmente conhecida dos cientistas, embora previsivelmente menos letal e menos severa, mas muito mais transmissível, Constança não exclui a hipótese de virem aí novas regras ou recomendações da Direcção-Geral da Saúde.

Para já, confiam no teste de despistagem para lhes dar protecção e segurança. Poderá estar um dia frio, com vento e chuva. Abrir janelas para ventilar o espaço não foi falado nem pensado. Mas se alguém estiver com sintomas de constipação não virá à Consoada ou ao almoço de dia 25.

E suspender eventos uns dias antes? “Honestamente não estou a pensar assim. Já tive um jantar de Natal, em que todos fizemos o teste, vou ter um outro. Ainda não falámos da questão de fazermos desta semana uma semana de contenção.” Ana Dias Cordeiro

Um Natal coxo, sem pisca-pisca

Mais abaixo, na casa de uma família algarvia não haverá a tradicional árvore de Natal, com luzinhas a fazer pisca-pisca. O que se espera é que o “menino Jesus” coloque no “sapatinho” os meios para que o SNS responda à pandemia, — mas, também, para que possa acudir a doentes que correm o risco de ficar em cadeira de rodas, por falta de resposta da neurocirurgia do Hospital de Faro. Um desejo mais concreto do que o habitual mas que tem a ver com o facto de José Francisco Graça ser uma das vítimas colaterais da pandemia.

O ex-comando, reformado, acaba de chegar a casa, vindo de mais uma consulta no Centro de Saúde de Loulé. “Apanhei um frio desgraçado — obrigaram-me a esperar pelo médico, na rua, durante hora e meia. Aquilo não é coisa que se faça às pessoas!”, exclama. A razão para o sucedido, explicaram, tem a ver com a falta de condições que garantam a segurança sanitária dos utentes no interior das instalações. As consultas externas funcionam — provisoriamente, há vários anos —, em contentores.

Aproximam-se os festejos natalícios e o casal José e Susana prepara-se para cumprir a tradição. A noite de Consoada, conta a mulher — empregada numa peixaria do Continente — vai ser passada de forma não muito diferente do ano passado. “Não somos gente de grandes festas”, justifica, acrescentando que a evolução epidemiológica, por outro lado, não permite, como desejaria, juntar toda a família. “A minha filha, que vive em França, há dois anos que não passa o Natal connosco”. José Francisco acrescenta: “Ela tem responsabilidades acrescidas. É educadora de infância e a nova variante da covid [Ómicron] anda por aí”.

O antigo militar habituou-se desde jovem a enfrentar vários perigos. “Aos 19 anos, puseram-me uma espingarda na mão. ‘Mata ou és morto’, disseram-me quando cheguei a Angola, integrando numa companhia dos comandos”. Sempre que se aproximava a quadra natalícia, recorda, a RTP transmitia as mensagens de boas festas, previamente gravadas. “Nunca alinhei nisso, porque a minha mãe, quando me fosse ver, já eu podia estar morto”. Durante o serviço militar, habituou-se a estar entre a vida e morte, sem pensar no amanhã. Porém, nos últimos dois anos, vive um desassossego silencioso. “Tenho receio deste inimigo [covid-19], que continua a matar sem se ouvir um tiro”. A noite de 24 de Dezembro vai ser passada em casa, com a mulher, filho e nora.

“Não montei árvore de Natal”, diz Susana, desvalorizando o sentido religioso da época. O ritual é cumprido com um jantar “melhorado”, tendo polvo e bacalhau como pratos principais. “Estamos todos vacinados”, sublinha, acrescentando que a mesa extensível de abas rebatíveis irá ajudar a manter, dentro do possível, a distância de segurança sanitária.

José Francisco foi desportista, praticante de corrida e natação. “Fui obrigado a abandonar há cerca de 18 meses”, revela. O médico de família recomendou, como solução para os males de que padece, uma cirurgia vascular. “Ando cem metros, não aguento mais. Descanso uns instantes, volto a caminhar, mas com muita dificuldade”, queixa-se. Após várias deslocações às urgências, conseguiu ser observado por uma médica da especialidade. “Afinal, o problema é na coluna, disse a doutora. Agora, estou desde Maio à espera de um exame na especialidade de neurocirurgia”. Como se esta doença não bastasse, há outra ainda por diagnosticar.” Durante a noite, dou comigo a sonhar com camaradas que morreram. De repente, acordo todo suado, seja Verão ou Inverno”, confidencia. Os cenários de rebentamento de minas e corpos despedaçados não lhe saem da cabeça : “Só quem passou por uma emboscada é que pode perceber o que isto é” comenta.

No início do ano, Susana foi infectada com covid. “Não sofri muito, só perdi o paladar”, revela. Depois foi vacinada no Verão, aguarda a segunda dose no próximo mês de Janeiro. O marido, de 70 anos, já tomou três doses da vacina contra a covid-19, mais a da gripe. “Mesmo os que estão vacinados continuam a tombar”, diz, lembrando que ainda não é tempo para abandonar as máscaras. Idálio Revez

O bacalhau e o Zoom à mesa

Este ano, o Natal da família Miranda, em Barcelos, vai ter um significado especial. Além de voltar a reunir parte da família, a noite de 24 de Dezembro é “um novo começo” depois de um ano “em que aconteceu tudo”, como diz Maria Gorete, 64 anos.

O início de 2020 ficou marcado pelo aparecimento da covid-19, mas para a família Miranda o ano ainda tinha reservadas mais surpresas desagradáveis. “Depois da covid, houve um incêndio na nossa empresa no dia 10 de Novembro”, lembra a anfitriã, antes de mostrar fotografias com a empresa totalmente destruída pelas chamas. “Foi um ano terrível”, lamenta Fernando, marido de Maria Gorete. Passado exactamente um ano, a empresa reergueu-se e a previsão é que esteja em “funcionamento normal” a partir do início de 2022. Até lá, há um Natal para celebrar. “Este ano tem de ser em grande”, diz Fernando.

A casa da família Miranda, situada na União de Freguesias de Campo e Tamel (São Pedro Fins), na estrada que liga Barcelos a Ponte de Lima, vai receber 17 pessoas, um número superior ao do ano passado e que inclui dois idosos: Manuel Miranda, 91 anos, e Maria Rosa Faria, 83, pais de Maria Gorete.

“O ano passado estiveram apenas os meus filhos porque estávamos muito mais apreensivos”, refere, recordando que até deixou as “compras à porta de casa” dos seus pais no dia de Natal. Este ano, com a “vacinação” e um “maior conhecimento do vírus”, tanto ela como os seus pais, pessoas “saudáveis e autónomas”, estão “muito mais seguros” na hora de reunir. Até porque, lembra Fernando, a “família está sempre junta”.

“Não vamos a cafés nem saímos regularmente de casa”, acrescenta, salvaguardando, porém, que no tempo actual tudo pode acontecer. “Não sei se estamos a fazer bem ou mal”.

Aos idosos Manuel e Maria vão também juntar-se os agregados familiares dos filhos de Maria Gorete: Nicolau, 40 anos, e Magali, 36. No total, haverá sete crianças, as únicas por vacinar entre todos os que estarão presentes na mesa comprida da sala de estar dos Miranda. “Estamos todos vacinados e tanto eu como os meus pais fizemos testes há pouco tempo”, assegura.

Os testes foram feitos antes de uma viagem a França, país onde parte da família Miranda esteve estabelecida e do qual regressou há mais de 30 anos. Por lá, ainda permanecem quatro dos cinco irmãos de Maria. Com o ressurgimento da covid-19 em França, a presença dos irmãos no Natal em Portugal ainda não será desta. A solução é estabelecer contacto por computador, através da plataforma Zoom.

“Vai ter de ser: é o bacalhau e o Zoom à mesa”, graceja Maria. Na ementa dos Miranda, estarão também pratos franceses, como o tradicional “ foie gras”, mas também “marisco e salmão”. Através do sabor, e à distância, vão tentar reduzir a saudade. “Temos de manter a família junta”, diz Maria Gorete. Pedro Manuel Magalhães

A sombra da pandemia

O enfeite natalício pendurado na aldraba da porta de Carlos Eduardo e de Maria Albertina indicia que ali dentro já se pensa no Natal. A decoração festiva acompanha por estes dias o pequeno painel cerâmico com a Rainha Santa Isabel a libertar flores do regaço, afixado à direita da porta grená, e meia dúzia de vasos dão um toque verde às escadas de acesso à entrada.

Na noite de Consoada, o casal Santos recebe, como em tantos outros anos, filhos e netos. Este ano, pela segunda vez, nesta casa de rés-do-chão e primeiro andar da urbanização da Relvinha, nos arredores de Coimbra, o Natal tem a sombra da pandemia.

Em termos logísticos, a diferença em relação a 2020 não será muita. Isto embora a vacinação tenha acrescentado outra margem de sossego, diz Carlos, de 68 anos, que recebe o PÚBLICO na sala de casa, onde as fotografias de família dividem as paredes com uma réplica da última ceia e vários motivos alusivos ao Sporting. “Evidente que nos deixa mais tranquilos”, atira. Na família, está tudo vacinado. Tanto ele como Maria, que tem 66 anos, foram levar a dose de reforço no início do mês.

De resto, a família não é uma multidão. São sete, contando com dois filhos (há um terceiro que não pode estar presente), uma nora e dois netos, sendo que os cuidados são os normais, diz, com as mãos sobre o tampo da mesa de jantar que ocupa o centro da sala: “E, além desta, às vezes metemos mais uma mesita”.

A casa de Carlos e Maria é a última de uma das quatro filas de habitações que compõem a primeira fase do Barro da Relvinha, uma urbanização erguida a seguir à revolução de 1974, no âmbito do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), pelos braços de quem ali antes vivia em barracas de madeira.

“Íamos fazendo os prédios e a pessoa que estava na barraca ia para a casa e assim sucessivamente até concluirmos o bairro”, conta. Foi este espírito comunitário que a pandemia veio interromper. “Antes andávamos mais à vontade. Conversávamos, fazíamos uma farrazita com as pessoas do bairro e, no fim de ano, fazíamos uma festa ali no centro [comunitário]. Agora não se pode fazer nada”, lamenta. Camilo Soldado

Fonte: Publico.pt

 

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