| A Gronelândia está a derreter mais depressa do que nunca
24-12-2021 - Diogo Soares
Só últimos dez anos derreteram, em média, 357 mil milhões de toneladas de gelo por ano. Os cientistas alertam que o aquecimento global provocou um degelo extremo do gelo da ilha, que se tornou mais frequente e intenso nos últimos anos.
Na última década, derreteram 3,5 biliões de toneladas de gelo do manto da Gronelândia, o que elevou um centímetro o nível global do mar e está a aumentar os riscos de inundação a nível mundial. São as conclusões de um trabalho publicado na revista Nature Communications, liderado pela Universidade de Leeds (Inglaterra). Os dados da investigação mostram ainda que a quantidade de água proveniente do degelo da superfície da Gronelândia aumentou 21% nas últimas quatro décadas.
Os resultados das alterações climáticas estão à vista e falam por si ano após ano. Depois da Conferência do Clima (COP26) em Glasgow (Escócia) ter chegado a tímidos acordos para evitar a subida da temperatura acima de 1,5 graus Celsius até ao final do século face aos níveis pré-industriais, é da Gronelândia que chegam mais sinais de alerta para o aquecimento do planeta e da urgência de atingir esta meta o quanto antes.
O manto de gelo no topo da Gronelândia contém água congelada suficiente para elevar os oceanos cerca de seis metros a nível mundial e, segundo o estudo agora publicado, os fenómenos de degelo extremo têm vindo a aumentar em frequência há pelo menos 40 anos.
Os 3,5 biliões de toneladas de gelo que derretam na Gronelândia na última década dariam para cobrir todo o Reino Unido com 15 metros de água ou toda a cidade de Nova Iorque com 4500 metros de água, refere um comunicado da Agência Espacial Europeia (ESA), que financiou esta investigação como parte do seu projecto Polar+ Surface Mass Balance Feasibility, tendo sido utilizados dados do satélite CryoSat-2 .
“À medida que o nosso clima aquece, é razoável esperar que os casos de degelo extremo na Gronelândia aconteçam com mais frequência. Observações como estas são um passo importante para ajudar a melhorar os modelos climáticos e a prever melhor o que irá acontecer neste século”, explica Thomas Slater, o autor principal do estudo, num comunicado da Universidade de Leeds.
A Gronelândia é um local privilegiado pelos cientistas há décadas para o estudo dos efeitos das alterações climáticas. Desde os anos 90 que o recurso a dados de satélite foi um passo importante para detectar o que está a acontecer a nível do degelo nos círculos polares. Já outros estudos tinham utilizado esta tecnologia, mas este traz uma novidade.
“O nosso método fornece um registo das mudanças na elevação sazonal da camada de gelo da Gronelândia”, lê-se no artigo científico, que adianta que esta é a primeira estimativa observacional por satélite do escoamento da camada de gelo para toda a Gronelândia. É o primeiro estudo que usa dados de satélite para detectar o escoamento do manto de gelo a partir do espaço, sublinha ainda o comunicado da ESA.
As medições da altura da camada de gelo pelo satélite CryoSat-2, combinadas com dados de temperatura, permitiram aos investigadores chegar aos resultados.
A investigação mostra agora que a Gronelândia está a perder gelo rapidamente desde 2011, onde “a camada de gelo perdeu em média 357.000 milhões de toneladas por ano, com perdas recorde de 527.000 milhões de toneladas em 2012 e 496.000 milhões em 2019”, lê-se no artigo científico. É um terço do total de gelo derretido na década estudada, que resultou de apenas dois Verões quentes (2012 e 2019), quando ondas de calor extremo levaram a níveis recorde de degelo na Gronelândia.
Estas alterações no degelo do manto estão relacionadas com estes eventos meteorológicos extremos. O vasto manto de gelo da Gronelândia funciona como um espelho, reflectindo a luz solar e controlando a temperatura global do planeta. À medida que o aquecimento global aumenta, este gelo derrete e o “espelho” perde a sua eficácia, o que por sua vez ainda aumenta mais a temperatura. Estas ondas de calor serão resultado disto, sendo mais frequentes nos últimos anos e é agora considerada uma das principais causas da perda de gelo da Gronelândia.
“Como já vimos noutras partes do mundo, a Gronelândia é também vulnerável a um aumento de fenómenos climáticos extremos”, acrescenta Thomas Slater, que é investigador do Centro de Observação e Modelação Polar da Universidade de Leeds
Consequências do degelo
Algumas das consequências do degelo extremo já são visíveis no mundo. Com o aumento do nível do mar, o risco de inundações para as comunidades costeiras aumenta significativamente todos os anos. Também as correntes oceânicas e atmosféricas estão a mudar em resultado do degelo, como estudos anteriores indicam. A alteração destes padrões circulatórios afecta as condições meteorológicas em todo o planeta, o que origina fenómenos climáticos mais extremos ano após ano, como incêndios e tornados.
Prever o quanto o degelo da Gronelândia contribuirá para a subida do nível do mar no futuro é complexo para os cientistas, uma vez que também têm de ter em conta o degelo de outros glaciares e regiões terrestres.
Estas observações da Gronelândia a partir do espaço mostram que os satélites são capazes de fornecer estimativas instantâneas do degelo num ano e podem ajudar os cientistas a verificar como os modelos climáticos simulam a perda da camada de gelo, o que, por sua vez, permitirá melhores previsões.
“Estas novas estimativas de escoamento a partir do espaço irão ajudar-nos a compreender melhor estes processos complexos de fusão do gelo, melhorar a nossa capacidade de os modelar e assim permitir-nos refinar as estimativas da futura subida do nível do mar”, explica a co-autora do estudo, Amber Leeson, professora de ciência de dados ambientais na Universidade de Lancaster. “As estimativas dos modelos sugerem que a camada de gelo da Gronelândia contribuirá entre cerca de três a 23 centímetros para a subida do nível global do mar até 2100”, acrescenta a investigadora citada no comunicado da Universidade de Leeds.
No entanto, apesar das conclusões do estudo e do cenário simulado com os novos dados agora obtidos, para Thomas Slater há razões para se estar optimista. “Sabemos que o estabelecimento e o cumprimento de metas relevantes para cortar as emissões de CO2 poderia reduzir as perdas de gelo da Gronelândia por um factor de três, e ainda há tempo para o conseguir”, conclui o investigador.
Texto editado por Teresa Firmino
Fonte: Publico.pt
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