| Covid-19. Vacinação das crianças entre os 5 e os 11 anos evitará 13 mil casos e 50 internamentos
10-12-2021 - Sofia Neves e Ana Maia
DGS deu esta terça-feira luz verde à vacinação universal das crianças entre os 5 e os 11 anos, processo que deverá iniciar-se nas próximas semanas, com prioridade para aquelas que tenham doenças consideradas de risco para covid-19 grave. Manuel Carmo Gomes diz que, dentro da Comissão Técnica de Vacinação, foi consensual que os benefícios de vacinar esta faixa etária superaram “largamente” os riscos.
A vacinação das crianças entre os cinco e os 11 anos, que teve esta terça-feira luz verde da Direcção-Geral da Saúde (DGS), pode evitar, nos próximos quatro meses, mais de 13.500 casos de covid-19, 50 internamentos em enfermaria e cinco hospitalizações em unidades de cuidados intensivos de pessoas desta faixa etária.
As contas são do epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que faz parte da Comissão Técnica de Vacinação contra a covid-19 (CTVC), cuja decisão serviu de base para a recomendação dada pela DGS nesta terça-feira. Carmo Gomes refere que foram desenhados “cenários e previsões para o futuro próximo”, até Março. “É claro que os benefícios se prolongam no tempo porque depois disso as crianças estarão vacinadas. Quisemos fazer previsões a curto prazo porque quanto mais longe é o horizonte no futuro, mais difícil é fazer previsões”, refere. Para estas contas não entram as mortes por covid-19 de crianças entre os cinco e os 11 anos, uma vez que “são episódios raros” — em Portugal morreram cinco crianças desde o início da pandemia, uma com quatro meses, outra com sete, outra com dois anos e duas adolescentes com 19.
O especialista diz que, no interior da comissão que aconselha a DGS nestas matérias, foi consensual que os benefícios de vacinar esta faixa etária superaram “largamente” os riscos.
A vacina a utilizar será a Comirnaty (a da Pfizer-BioNTech), que tem, à data, parecer positivo da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) para a formulação pediátrica, avançou a DGS. Segundo a EMA, a vacina tem uma fórmula pediátrica, adaptada a estas idades, e é administrada por duas vezes, com um intervalo de três semanas. Tem uma dosagem diferente da usada para os maiores de 12 anos: são apenas dez microgramas de substância activa, o ARN mensageiro, em vez de 30.
O risco das miocardites
“Para mim é muito claro que o benefício supera o risco. O risco quantificável são as miocardites associadas à vacinação e, daquilo que sabemos com a dose para adultos, estimamos que nos próximos quatro meses poderíamos vir a ter sete casos destes. Mas isto é feito com base na dose dos adultos e é uma visão pessimista, é o pior cenário possível”, refere Carmo Gomes. “Não é possível dizer quantas miocardites esperamos com a dosagem pediátrica porque não temos dados, pelo menos aqui na Europa, depois de as vacinas serem administradas em grande escala. Esses casos só são detectados quando começamos a vacinar em massa, mas tudo indica que serão menos casos do que com a dosagem de adultos”.
Segundo o comunicado da DGS em que foi anunciada a recomendação de vacinação, será dada “ prioridade às crianças com doenças consideradas de risco para covid-19 grave”. O epidemiologista afirma que deste grupo fazem parte crianças em situação de transplantação e imunossupressão ou com doenças raras, mas a lista completa deverá ser divulgada na conferência de imprensa da DGS que ficou marcada para esta sexta-feira e que servirá para prestar “esclarecimentos técnicos adicionais” e informações sobre o calendário de vacinação e respectiva logística.
Manuel Carmo Gomes revela ainda que Portugal teve, até à data, e segundo dados da DGS, aproximadamente 68 mil infecções nesta faixa etária e cerca de 220 crianças entre os cinco e os 11 anos precisaram de internamento. Destas 220, aproximadamente 10% necessitaram de cuidados intensivos.
“Sabemos quantas crianças foram infectadas em Portugal, sabemos qual é o risco de uma criança infectada ser hospitalizada, sabemos qual o risco de, uma vez hospitalizada, necessitar de cuidados intensivos, sabemos qual o risco de miocardite e pericardite associadas à infecção pela covid-19 e sabemos, por outro lado, qual o risco de miocardite associada à vacinação, mas para a dose de adultos da vacina. Tudo isto serviu para fazer o balanço entre benefícios e riscos e isto é apenas o que é quantificável”, refere o especialista.
Carmo Gomes explica ainda que, segundo o que foi transmitido por pediatras e pelas estimativas da Agência Europeia do Medicamento (EMA), o número de crianças "saudáveis” que acabam por desenvolver doença grave por covid-19 é muito superior ao número de crianças com comorbilidade que têm o mesmo destino. “São crianças que têm o azar de ter doença grave quando nada o fazia esperar. É evidente que para as crianças que têm factores de risco o benefício ainda será maior, mas isso não nos faz tirar a atenção de todas as outras crianças que, sem terem factor de risco, podem ter essa desgraça”.
“Para mim é muito claro que o benefício supera o risco
Manuel Carmo Gomes, epidemiologista
"Poucas crianças e jovens internados por doença grave"
Ao final do dia, a Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos da Sociedade Portuguesa de Pediatria emitiu um comunicado com o número de crianças entre os cinco e os 11 anos que estiveram internadas em unidades de cuidados intensivos pediátricos (UCIP) por doença relacionada com a infecção provocada pelo SARS-CoV-2. Foram 30.
“Desde Março de 2020 até à data estiveram internados em todas as UCIP nacionais quatro crianças com covid-19 nesta faixa etária. Destas, três pertenciam a grupos de risco para covid-19 grave”, refere a nota. A juntar aos casos agudos da infecção, registaram-se também “26 crianças com Síndrome Inflamatória Multissistémica associada ao SARS-CoV-2 (MIS-C/PIMS)” que estiveram internadas em UCI”. “Não se registou nenhum óbito”, adianta o comunicado.
Até aos 18 anos, o EPICENTRE.pt (Registo Nacional de Casos Pediátricos de Covid-19 com Internamento em Intensivos) registou, desde o início da pandemia até dia 30 de Novembro, 81 crianças e jovens internados em UCIP por doença relacionada com a infecção provocada pelo SARS-COV-2. Destes, 21 por doença aguda (a maioria eram doentes com comorbilidades) e 60 por MIS-C (a maioria eram crianças previamente saudáveis).
Cristina Camilo, presidente da Sociedade Cuidados Intensivos Pediátricos, explica que estes números não contabilizam crianças e jovens cujo principal motivo de internamento foi outra doença, embora tenham tido um PCR positivo. Enquanto presidente da Sociedade Cuidados Intensivos Pediátricos, Cristina Camilo diz que não vai fazer comentários sobre a vacinação universal das crianças entre os cinco e os 11 anos.
“O que posso dizer é o que os dados mostram. Houve poucas crianças e jovens internados por doença grave”, refere. Quanto à sua opinião pessoal: “Com os dados que temos, com uma patologia grave pouco expressiva, não penso que faça sentido vacinar crianças saudáveis. O que vamos evitar nas crianças?”, pergunta, lembrando também que os estudos mostram que “a vacina não elimina a transmissão, embora a reduza, mas vai perdendo eficácia”.
Questionada sobre o eventual efeito da vacinação relativamente à MIS-C, Cristina Camilo diz não conseguir avaliá-lo. “A MIS-C aparece, por norma, uma a dois meses após a infecção. Não temos dados sobre crianças vacinadas que se infectaram para perceber se houve casos de MIS-C ou não.”
O PÚBLICO pediu um comentário Jorge Amil Dias, presidente do colégio de pediatria da Ordem dos Médicos, à decisão da DGS agora anunciada. “A decisão está tomada e a direcção do colégio não tem comentários a fazer. Reconhecemos a autoridade da DGS”, disse.
Quase 640 mil crianças chamadas à vacinação
Na última conferência de imprensa depois do Conselho de Ministros, quando foram anunciadas as novas medidas para o mês de Dezembro e início de Janeiro, o primeiro-ministro, António Costa, referiu que são elegíveis para a vacinação dos cinco aos 11 anos 637.907 crianças.
Antes mesmo de a decisão da autoridade nacional da saúde ser conhecida, Costa adiantou que Portugal estava preparado para avançar com a vacinação desta faixa etária, uma vez que o Governo já contratou o fornecimento de mais de 600 mil vacinas pediátricas. As primeiras 300 mil vacinas da Pfizer chegam a Portugal a 13 de Dezembro, anunciou esta segunda-feira o secretário de Estado Adjunto e da Saúde. Depois, durante o mês de Janeiro, chegarão mais 400 mil vacinas.
António Lacerda Sales tinha referido, no domingo, que será preciso que os pais adiram ao processo. “Espero, também, que haja uma adesão grande por parte dos pais das crianças porque estamos a falar de crianças ainda sem autonomia para poderem decidir”, assinalou, frisando que a vacinação “é feita com segurança e tem eficácia, isso é que é importante”.
Fonte: Publico.pt
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