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O Caso da Tenista Peng Shuai vai ser fatal para a Imagem da China no Mundo?

10-12-2021 - Rui Tavares Guedes

Poucos dias depois de ter consolidado o seu poder, a nível interno, como líder supremo do país que, em breve, será a maior potência mundial, Xi Jinping arrisca-se a ficar com a sua imagem definitivamente manchada a nível internacional, por causa do estranho e súbito desaparecimento da tenista Peng Shuai – logo a seguir a esta ter publicado nas redes sociais, uma denúncia sobre o assédio sexual que disse ter sido vítima por parte do antigo vice-primeiro-ministro da República Popular da China, Zhang Gaoli.

De forma surpreendente e inesperada para Pequim, o caso ganhou, em pouco tempo, maior repercussão mundial do que aquela que tem sido dada, por exemplo, às denúncias acerca das repetidas violações de direitos humanos aos muçulmanos uighurs, na região de Xinjiang, ou a repressão à liberdade de expressão em Hong Kong. As grandes figuras do ténis, desde Serena Williams a Naomi Osaka, passando por Novak Djokovic, fizeram questão de juntar a sua voz à campanha “onde está Peng Shuai” , depois da tenista chinesa deixar de ser vista e ter, inclusivamente, o seu nome censurado em toda a internet chinesa. Alguns jornais desportivos, como o francês L’Equipe e o espanhol Marca , levaram mesmo o assunto às primeiras páginas das suas edições, dando visibilidade ao caso que, pelas suas características, vai muito para além do tradicional jogo político ou das controvérsias geopolíticas. Isto porque Peng Shuai não é uma dissidente ou sequer uma crítica do regime – ela é, isso sim, uma mulher que teve apenas a coragem de denunciar um caso de assédio sexual, por parte de um antigo alto dirigente de Pequim. 

“Em si, o caso de Peng não tem nada a ver com geopolítica”, escreveu o New York Times, em editorial. “É sobre o desaparecimento de uma atleta por fazer uma acusação credível de #MeToo contra um homem que detinha um poder significativo e, segundo ela, explorava esse poder para exigir favores sexuais.” 

Clamor surpreendente

A indignação mundial atingiu, desta vez, uma dimensão nunca vista, já que, noutros casos, grandes empresas ou organismos internacionais têm optado quase sempre pelo silêncio, para não prejudicarem os seus negócios no imenso mercado chinês. Neste caso, tudo fugiu depressa ao controlo de Pequim e da sua máquina de propaganda, em especial a partir do momento em que os dirigentes Associação de Ténis Feminino (WTA) anunciaram estar dispostos a retirar os torneios da China, caso não existissem explicações sobre a situação de Peng Shuai.

A verdade é que, desta vez, não funcionou a tática habitual de Pequim que, segundo o New York Times , segue sempre o mesmo guião quando é confrontada com as críticas do exterior: "Negar, mentir, fazer o papel de bobo, torcer para que a indignação desapareça e, quando já não existir outra alternativa, avançar para o contra-ataque feroz”. 

Péssimos em comunicação

Num artigo para o canal russo RTNews , o analista britânico Tom Fowdy vai mais longe e afirma que a forma “pouco convincente” com que Pequim tentou explicar o desaparecimento do tenista só demonstra como “a China é pobre” na guerra da comunicação. “Essa falha explica por que o Ocidente é capaz de criar, constantemente, uma narrativa prejudicial sobre Pequim” , considera. 
Prudente, Fowdy avisa que Peng Shui acabará por aparecer mais cedo ou mais tarde, mas que o mal já está feito para a imagem da China perante o resto do mundo. “A China é péssima em relações públicas e comunicação”, sublinha. “É claramente mais competente do que muitos países do Ocidente numa série de áreas, como seja a organização de uma burocracia estatal ou a administração, de forma competente, do sistema económicos. Mas fracassa em toda a linha na batalha pela conquista dos corações e mentes”. 
“Apesar da China ser um estado altamente organizado com muito mais recursos e população, os métodos que emprega para lutar contra os EUA são de muito baixa qualidade, e isso foi claramente exposto através da saga de uma jogadora de ténis e a tentativa pouco convincente de encobrir a sua ausência pública”, sublinha. 

Técnica habitual

A verdade é que o desaparecimento temporário de Peng Shuai não é um caso isolado na realidade chinesa – basta lembrar, por exemplo, os 81 dias que Ai Weiwei passou fora dos olhares do mundo, em 2011 (ainda antes do início da era Xi Jinping).

Segundo o The Guardian, o governo chinês lançou, nos últimos meses, uma “repressão intensa contra as celebridades que, na sua perspetiva, levam os jovens a desviar-se dos ideais do Partido Comunista.” Um dos casos mais flagrantes é o da “estrela de cinema e cantora pop Zhao Wei que desapareceu da vida pública em agosto, com sua presença online apagada. Os seus filmes e programas de TV também foram removidos das plataformas de streaming”.

Outra personalidade que recebeu um tratamento semelhante foi Jack Ma , fundador do gigante do comércio eletrónico, que desapareceu da vida pública após ter criticado publicamente as autoridades reguladoras do país, por serem demasiado conservadoras, num discurso em outubro de 2020.

“Dias depois, o governo ordenou que o Ma's Ant Group, um serviço financeiro ligado ao negócio de pagamentos online do Alibaba, suspendesse a sua entrada no mercado de ações em Hong Kong e em Xangai”, recorda a AP.

Depois, Jack Ma deixou de ser visto durante três meses, segundo o The Guardian. “Ele acabou por reaparecer através de uma mensagem de vídeo, em que afirmou que após ter ‘estudado e pensado” se mostrava mais determinado em se ‘dedicar à educação e ao bem-estar público".

Onde está Zhang Gaoli?

Agora, Peng Shuai ainda só “reapareceu” através de vídeos colocados nas redes sociais por jornalistas do Global Times, jornal ligado ao oficial Diário do Povo. 

Depois, numa conversa online com o alemão Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional, ela terá afirmado que se encontrava bem, mas a precisar de se isolar e manter a sua privacidade. 
Com os Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim, a iniciarem-se em menos de três meses, a pressão vai manter-se para se saber onde e como está mesmo Peng Shuai. No entanto, a imagem exterior da China só melhorará se se souber, de facto, se as suas acusações eram ou não verdadeiras. 

Ou seja: vai ser preciso saber o que acontecerá a Zhang Gaoli – o homem que ela denunciou e que fez parte, entre 2012 e 2017, do seleto comité permanente do politburo do Partido Comunista Chinês.  Onde está Zhang Gaoli?

Fonte: Courrier Internacional

 

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