| Mais de 4400 cancros terão ficado por diagnosticar durante a pandemia
05-11-2021 - Alexandra Campos e Ana Maia
Segundo o retrato do Movimento Saúde em Dia, não foram feitas quase 14 milhões de consultas médicas presenciais nos centros de saúde. Ministério da Saúde destaca melhorias nos nove primeiros meses deste ano.
Mais de 4400 cancros terão ficado por diagnosticar, não foram feitas quase 14 milhões de consultas médicas presenciais nos centros de saúde e não foram realizados 1,6 milhões de episódios de urgência triados como emergentes ou urgentes durante a pandemia, calcula o Movimento Saúde em Dia, que junta a Ordem dos Médicos (OM), a Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) e a Roche. É um retrato preocupante aquele que é traçado numa nova análise feita por este movimento - que comparou os dados oficiais de Janeiro a Setembro deste ano com os de 2020 e 2019, complementando-os com uma estimativa do valor dos três meses de 2021 em falta.
O que os números revelam é que, apesar de o acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) ter melhorado nos primeiros nove meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2020, esta evolução “está a ser insuficiente para recuperar o que ficou por fazer durante a pandemia”, concluem, elencando as reduções observadas em vários indicadores. Uma análise que contrasta com a que foi adiantada ao PÚBLICO pelo Ministério da Saúde, que usou as mesmas fontes de informação e, nalguns casos, até os mesmos dados, mas olhou para períodos diferentes, além de incluir outros indicadores.
São, assim, cenários distintos os que são traçados pela OM e a APAH e pelo Ministério da Saúde (MS). Um exemplo: enquanto os primeiros defendem que “muitos cancros continuam por identificar”, tendo em conta a redução de rastreios de base populacional (cancros da mama, do colo do útero, e do cólon e recto) durante a pandemia, o ministério liderado por Marta Temido destaca a “significativa” recuperação dos rastreios oncológicos nos primeiros nove meses deste ano.
Pelas contas da consultora que fez a análise para o Movimento Saúde em Dia, durante a pandemia realizaram-se menos 18% mamografias, menos 13% rastreios ao cancro do colo do útero e menos 5% de rastreios ao cancro do cólon e recto, nos últimos dois anos (incluindo a projecção dos três últimos meses deste ano). Uma redução que se terá reflectido nos diagnósticos, como se depreende da diminuição da incidência (novos casos) observada. Pelas estimativas feitas para os três cancros para os quais há rastreios de base populacional, terão ficado por identificar 4422 cancros desde o início da pandemia (2155 do cólon e recto, 1868, da mama, e 399, do colo do útero), estimam.
“Já sabíamos que tinha havido esta redução das mamografias realizadas e também dos exames de rastreio dos cancros do colo do útero e do cólon e recto, mas ficamos esmagados pela redução da incidência. Essa redução não decorre da melhoria dos estilos de vida, decorre da nossa incapacidade para diagnosticar. Estamos a falar de milhares de pessoas que, porventura, hoje estão a desenvolver um destes tipos de cancro e não estão ainda diagnosticadas. Isto vai ter efeitos a curto e médio prazo terríveis para estas pessoas”, afirma o presidente da APAH, Alexandre Lourenço.

O bastonário da Ordem dos Médicos acredita igualmente que “este é um retrato preocupante”. “Embora a quebra em 2021 não seja tão grande como em 2020, os rastreios ainda não estão normalizados. Houve um impacto grande no diagnóstico precoce e ficamos com a ideia que há muitas pessoas, que não sabemos quem são, que podem chegar aos serviços de saúde com um cancro numa fase mais avançada que pode já não ter um tratamento curativo”, alerta Miguel Guimarães.
Já o Ministério da Saúde apresenta uma perspectiva diferente. Começa por lembrar que o alargamento do protocolo entre a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e o Núcleo Regional do Sul da Liga Portuguesa contra o Cancro aos distritos de Lisboa e Setúbal permitiu aumentar a cobertura geográfica do rastreio do cancro da mama. “Se se considerar a população elegível para o período (ajustando a população anual elegível para os primeiros 9 meses de cada ano em análise)”, alcançou-se uma taxa de cobertura de perto de metade (49,5% face a 48,5% em 2019), frisa.
Relativamente ao rastreio do cancro do colo do útero, apesar de admitir que se verificou um ligeiro decréscimo no número de rastreados, nota que a cobertura populacional também aumentou (de 37,8% em 2019 para 39% este ano), enquanto no rastreio do cancro do cólon e recto a cobertura populacional quase duplicou face a 2019, sendo porém ainda muito baixa – 14,9%, indica o ministério.
Quase um milhão sem médico de família
Voltando à análise do Saúde em Dia (que usou os dados do Portal da Transparência do SNS e do Bilhete de Identidade dos Cuidados de Saúde Primários), há outra conclusão que impressiona: só este ano as consultas presenciais nos centros de saúde decresceram 30% em 2021 em comparação com 2019 (menos 6,1 milhões), quando em 2020 tinham já diminuído mais de 7,8 milhões. Quase 14 milhões, portanto.
Quanto às pessoas sem médico de família, se a estimativa para os três últimos meses deste ano se confirmar, 2021 vai terminar com o pior resultado dos últimos anos (mais de 988 mil utentes sem clínico assistente nos centros de saúde).
Em contrapartida, subiram em flecha as consultas médicas não presenciais (mais 11 milhões nos centros de saúde) e os contactos presenciais de enfermagem cresceram 40%. Mas isto “deve-se maioritariamente ao esforço inerente à vacinação contra a covid-19, e não às actividades regulares” realizadas nos cuidados de saúde primários, sustenta o Saúde em Dia.
“A nível dos cuidados de saúde primários, a normalização ainda não aconteceu. Não faço um diagnóstico de uma doença oncológica com um contacto à distância”, diz o bastonário, referindo que o número de consultas presenciais em 2021 “ainda está muito longe” dos valores de 2019. “Ficaram por realizar cerca de 14 milhões de consultas presenciais, o que é muito. Algumas podem ter sido substituídas com êxito por contactos à distância, mas a verdade é que muitas não. Por isso, há uns meses, escrevi uma carta à ministra da Saúde com um único pedido por causa da retoma da actividade assistencial, que era libertar os médicos de família das tarefas covid. Não atendeu a isto”, lamenta.
Nos hospitais o panorama também não é animador: houve menos 2,8 milhões de contactos (incluindo consultas presenciais, cirurgias programadas e episódios de urgência graves), considerando 2020 e 2021 comparativamente com 2019. A boa notícia é que nas cirurgias é visível uma recuperação para valores de 2019, em particular nas programadas – que cresceram 2%.
“Creio que os hospitais conseguiram recuperar, não no sentido do que ficou para trás, mas no de voltar aos mesmos níveis de actividade anteriores”, afirma Alexandre Lourenço, referindo que as unidades têm actualmente mais profissionais de saúde do que tinham antes da pandemia e, por isso, “estão obrigadas a ter mais actividade do que tiveram”. Mas isso não se traduz necessariamente em efectividade. “Os cuidados de saúde primários não estão a fazer detecção precoce. Os hospitais podiam estar a fazer cirurgias [nas áreas] com maior impacto na saúde das pessoas, mas estão a fazer de forma indiscriminada porque não têm doentes a serem sinalizados pelos cuidados de saúde primários. Não estão a ter a efectividade que deveriam, porque os casos mais graves não estão a ser resolvidos”, argumenta.
Para o bastonário, “recuperação propriamente dita não existe”. “Apesar da normalização, estes valores são insuficientes. Para recuperar actividade, era preciso fazer muito mais e o tempo escasseia. Ou temos um plano de recuperação, envolvendo todos para se ser rápido e eficaz, ou não vale a pena”, afirma, defendendo que “não é possível ter um SNS a funcionar como há 42 anos”.

Outro indicador que preocupa é o da estimativa de episódios de urgência considerados urgentes (doentes triados com pulseiras vermelha, laranja e amarela) não realizados em 2020 e 2021 em comparação com 2021 - quase 1,6 milhões, mais ainda do que os não urgentes (pulseiras verde, azul e branca) que terão ficado por fazer (920 mil). Para Alexandre Lourenço, “este dado lança o alerta, mas não permite tirar grandes conclusões”.
Melhoria substancial face a 2020
Olhando para os dados adiantados ao PÚBLICO pelo Ministério da Saúde, observa-se, porém, nos primeiros nove meses deste ano uma melhoria substancial face a 2020, como seria de esperar, e, em alguns indicadores, é patente um progresso, ainda que ligeiro, em comparação com o mesmo período de 2019. Os dados do movimento assistencial de Janeiro a Setembro deste ano demonstram que o SNS “revelou capacidade de adaptação e resposta, tendo aumentado o volume de cuidados “para as grandes linhas de actividade”, quer nos centros de saúde, quer nos hospitais, enfatiza o MS. E dá exemplos de instituições que até conseguiram” superar a actividade realizada em 2019 (melhor ano de sempre em volume de cuidados) de forma assinalável”, como o IPO de Coimbra (mais 24,7%) e também vários hospitais que têm sido notícia nas últimas semanas por falta de recursos humanos ou outro tipo de carências - o hospital de Vila Franca de Xira (mais 18,6%), o Centro Hospitalar de Leiria (mais 15%), o Hospital de Braga (mais 12%) e o IPO de Lisboa (mais 11%), além do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (mais 6,4%).
Os dados até Setembro apontam ainda para um crescimento de 1% da actividade de consulta externa e das cirurgias totais em 1,5% (nas cirurgias programadas o aumento foi de 2,7%) face ao período homólogo de 2019. Nas primeiras consultas, o ministério realça o crescimento dos três IPO face a 2019, além de destacar o desempenho de outras unidades que conseguiram acréscimos “significativos (acima dos 10%) face a 2019”, nomeadamente os centros hospitalares de São João, da Póvoa do Varzim/Vila do Conde, de Vila Nova de Gaia/Espinho, da Cova da Beira e de Leiria.
Nas cirurgias salienta igualmente a evolução positiva face a 2019 nos hospitais de Braga e Vila Franca de Xira, além dos centros hospitalares de Entre-Douro-e-Vouga, de Vila Nova de Gaia/Espinho e de Leiria.
Admitindo que houve menos 6,5% de consultas (inscritas no programa consulta a tempo e horas) face a 2019 e menos 11,3% consultas realizadas, o MS acentua que a percentagem de consultas realizadas dentro dos tempos máximos garantidos aumentou para 79,1% (mais 7,5 pontos percentuais do que em 2019). De igual forma, nas cirurgias (SIGIC) as entradas em lista de espera baixaram ligeiramente, enquanto o número de inscritos reduziu substancialmente (menos 17,2%) e o total de operados subiu ligeiramente (0,8%).
Fonte: Publico.pt
Voltar |