| Militares dos EUA entre os mortos em Cabul. Talibăs condenam ataques
27-08-2021 - DN/Lusa
Dois atentados fazem pelo menos 13 mortos em Cabul. A primeira explosão foi numa das entradas do aeroporto e a segunda junto ao hotel Baron, próximo desse mesmo local. Ataques estão a ser atribuídos ao Estado Islâmico da região, que ainda não emitiu qualquer reivindicação.
Uma explosão junto a uma das entradas do aeroporto de Cabul, no Afeganistão, terá causado pelo menos 13 mortos, entre os quais crianças, segundo indicou uma fonte dos talibãs à agência Reuters. Haverá ainda várias dezenas de feridos. Uma segunda explosão foi registada junto ao hotel Baron, próximo do aeroporto, segundo o Pentágono.
"Podemos confirmar que a explosão na Abbey Gate foi o resultado de um ataque complexo que resultou num número de baixas norte-americanas e civis", escreveu o assessor de imprensa do Pentágono, John Kirby, no Twitter, sem especificar se essas baixas são feridos ou mortos. "Também podemos confirmar pelo menos uma outra explosão no ou perto do Hotel Baron, a uma curta distância da Abbey Gate", acrescentou.
À Reuters uma fonte falou inicialmente de pelo menos cinco militares feridos, mas mais tarde de "múltiplos" mortos. A NBC indicava serem só três feridos. Já o The Wall Street Journal diz que há quatro marines mortos. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, confirmou que há militares norte-americanos mortos.
Kirby, novamente no Twitter, fala de "um número" de militares mortos, "um número" de outros feridos e "um número" de afegãos vítimas do ataque "hediondo".
O hotel Baron tem sido usado pelos países ocidentais para ajudar à retirada de Cabul. No Twitter, o alegado proprietário do hotel disse que a explosão foi no exterior e não há vítimas ou danos no interior do espaço.
Um fotojornalista da AFP contabilizou, num hospital de Cabul, pelo menos cinco corpos e dezenas de feridos. O hospital confirmou mais tarde seis mortos. Primeiras indicações apontam para pelo menos 60 feridos.
Segundo informações dos militares dos Estados Unidos, a explosão no aeroporto foi um ataque suicida, horas depois de as forças aliadas terem emitido um alerta da iminência de um atentado terrorista, que estaria a ser preparado pelo Estado Islâmico - Província de Khorasan (o ramo local do Estado Islâmico). Este grupo ainda não reclamou a autoria dos ataques.
Um porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, condenou os ataques, indicando que as explosões ocorreram em zonas sob o controlo norte-americano, de acordo com a agência Reuters.
O Reino Unido já confirmou que não há militares britânicos ou funcionários do seu governo entre as vítimas. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também já indicou que irá continuar as operações de retirada, apesar do "ataque bárbaro".
Entretanto, contactado pela rádio TSF, o Ministério da Defesa garante que os quatro militares portugueses destacados no Afeganistão encontram-se bem.
Este ataque verificou-se poucos minutos depois de terem sido disparados tiros contra um avião militar italiano, que descolava do aeroporto de Cabul.
A explosão ocorreu junto de um dos portões de entrada do aeroporto, onde costumam estar milhares de pessoas à espera que os seus documentos sejam analisados para poderem deixar o Afeganistão.
As forças aliadas continuam a apelar às pessoas para abandonarem as imediações do aeroporto por se manter o alerta de ataque terrorista iminente.
Apesar do ataque, a Casa Branca não estará a planear alterar o plano para a retirada até 31 de agosto.
Reações
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, condenou os "ataques cobardes e desumanos" junto ao aeroporto de Cabul, pedindo esforços internacionais para evitar o ressurgimento do terrorismo no Afeganistão.
"Condeno veementemente os ataques cobardes e desumanos ao aeroporto de Cabul", escreveu Ursula von der Leyen no Twitter. Vincando ser "essencial fazer tudo o que estiver ao alcance para garantir a segurança das pessoas no aeroporto", a líder do executivo comunitário defendeu que "a comunidade internacional deve trabalhar em estreita colaboração para evitar um ressurgimento do terrorismo no Afeganistão e não só".
O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Jens Stoltenberg, também condenou "veementemente" aquele que classificou como "horrível ataque terrorista", defendendo uma rápida e segura retirada de civis.
"Condeno veementemente o horrível ataque terrorista fora do aeroporto de Cabul", escreveu Stoltenberg igualmente no Twitter. Após tal explosão, a prioridade da NATO "continua a ser retirar o maior número possível de pessoas para um local seguro o mais rapidamente possível", vincou o responsável. "Os meus pensamentos estão com todos os afetados e os seus entes queridos", disse ainda Stoltenberg.
Tiros contra avião militar italiano
Minutos antes da explosão, um avião militar italiano C130, em serviço no Afeganistão, foi alvo de tiros de uma metralhadora quando descolava na pista do aeroporto de Cabul, esta quinta-feira, avança a agência noticiosa italiana Sky TG24.
Os tiros foram disparados pelas tropas afegãs para dispersar a multidão no aeroporto, porém acabou por atingir o avião italiano, que descolava com cerca de 100 cidadãos afegãos. O avião C130 não ficou danificado pelos disparos.
A correspondente do Sky TG24, Simona Vasta, que estava a bordo do avião, disse que foram momentos de "pânico a bordo" durante as manobras de descolagem.
Estes são os últimos dias para o transporte aéreo de cidadãos afegãos antes do prazo estabelecido a 31 de agosto.
Aliados pedem para evacuar aeroporto de Cabul
Os três países emitiram avisos simultâneos, muito específicos e quase idênticos na quarta-feira à noite.
As pessoas que se encontram no aeroporto sobretudo "nas entradas leste e norte devem sair imediatamente", disse o Departamento de Estado norte-americano, citando "ameaças à segurança".
A diplomacia australiana alertou para uma "ameaça muito elevada de ataque terrorista", enquanto Londres emitiu um aviso semelhante.
"Se estiver na área do aeroporto, deixe-o para um lugar seguro e aguarde instruções adicionais. Se for capaz de sair do Afeganistão em segurança por outros meios, faça-o imediatamente", indicou o Governo britânico.
Há "informações muito, muito credíveis de um ataque iminente", diz ministro britânico
O ministro britânico com a tutela das Forças Armadas, James Heappey, disse hoje à BBC que há "informações muito, muito credíveis de um ataque iminente" no aeroporto.
Heappey admitiu que as pessoas estão desesperadas para partir", acrescentando que a informação sobre esta ameaça é "mesmo muito credível" e uma real possibilidade.
Estes avisos surgiram depois de o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, ter dito que os rebeldes talibãs se tinham comprometido a deixar partir cidadãos dos Estados Unidos e afegãos em risco e ainda no país após 31 de agosto.
"Os talibãs comprometeram-se publicamente e em privado a proporcionar e permitir a passagem segura de americanos, outros estrangeiros e afegãos em situação de risco no futuro, após 31 de agosto", afirmou o responsável, sem especificar como será organizada qualquer saída, uma vez que as forças norte-americanas deverão deixar o país até ao final do mês, prazo confirmado na terça-feira pelo Presidente dos EUA, Joe Biden.
Também a Alemanha disse, na quarta-feira, ter recebido garantias dos talibãs de que os afegãos podiam deixar o país em voos comerciais, após a retirada final das tropas norte-americanas naquela data.
O chefe adjunto do gabinete político dos talibãs no Qatar, Sher Abbas Stanekzai, "garantiu que os afegãos com documentos válidos continuarão a poder viajar em voos comerciais após 31 de agosto", escreveu, na rede social Twitter, Markus Potzel, um diplomata alemão que está a negociar com fundamentalistas islâmicos afegãos, no final de uma reunião no emirado.
A Bélgica anunciou que a retirada de cidadãos e afegãos, sob proteção belga, terminou na quarta-feira à noite.
França sem condições de retirar pessoas de aeroporto de Cabul a partir de sexta-feira à noite
O primeiro-ministro francês afirmou esta quinta-feira que o país não estará mais em condições de retirar pessoas do aeroporto de Cabul depois de sexta-feira à noite.
Castex disse à rádio francesa RTL: "A partir de amanhã à noite, não estaremos em condições de retirar pessoas do aeroporto de Cabul".
Mais de 2000 afegãos e centenas de franceses foram retirados por França desde o início da operação, na semana passada.
Os Países Baixos também juntaram-se hoje aos países europeus que suspenderam ou anunciaram a suspensão do seu envolvimento na operação de resgate de estrangeiros e afegãos em curso no aeroporto de Cabul.
"Os Países Baixos foram hoje informados pelos EUA que têm de partir"
Numa carta ao parlamento, os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa informaram que o governo vai suspender hoje os voos, a pedido dos Estados Unidos.
"Os Países Baixos foram hoje informados pelos EUA que têm de partir e provavelmente irão organizar os últimos voos ainda hoje", disseram os ministros na carta, segundo a agência de notícias AFP.
Na terça-feira, numa cimeira virtual com outros líderes do G7, Biden excluiu o alargamento da presença militar norte-americana em Cabul além de 31 de agosto, citando um "sério e crescente risco de ataque" do grupo extremista Estado Islâmico (EI) ao aeroporto.
Dinamarca avisa que já não é seguro voar para Cabul
O ministro da Defesa da Dinamarca avisou mesmo que já não é seguro voar de e para Cabul.
Em declarações à cadeia de televisão TV2, na quarta-feira, Trine Bramsen disse que havia cerca de 90 pessoas -- além dos últimos soldados e diplomatas enviados para ajudar a retirar cidadãos -- no último voo que deixou a capital do Afeganistão.
A Polónia fez saber que já concluiu a sua operação no Afeganistão, depois de retirar cerca de 1300 pessoas de Cabul, noticias a AFP.
"Mais de 1300 pessoas foram transportadas para a Polónia", disse esta quinta-feira o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Marcin Przydacz, a jornalistas em Varsóvia, acrescentando que as operações de retirada estavam a ser interrompidas "por razões de segurança".
Os talibãs conquistaram Cabul em 15 de agosto, concluindo uma ofensiva iniciada em maio, quando começou a retirada das forças militares norte-americanas e da NATO.
As forças internacionais estavam no país desde 2001, no âmbito da ofensiva liderada pelos Estados Unidos contra o regime extremista (1996-2001), que acolhia no território o líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, principal responsável pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.
A tomada da capital pôs fim a uma presença militar estrangeira de 20 anos no Afeganistão, dos Estados Unidos e aliados na NATO, incluindo Portugal.
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