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Militares franceses publicam novo texto alertando para risco de "guerra civil"

14-05-2021 - RFI

Depois de um texto polêmico publicado no fim de abril, um grupo de militares franceses na ativa publicou, neste domingo (9) à noite, uma nova coluna na revista conservadora Valeurs Actuelles, em forma de petição. Até 1h da manhã, mais de 75 mil militares já haviam assinado o texto.

Os autores alertam que a "sobrevivência" da França está em jogo, após as "concessões" feitas ao islamismo, e se dirigem diretamente ao presidente francês, Emmanuel Macron, aos parlamentares e aos oficiais. "É hora de agir, senhoras e senhores. Não se trata, desta vez, de fórmulas prontas ou midiatização. Não se trata de prolongar seus mandatos ou de conquistar outros. Trata-se da sobrevivência de nosso país, do seu país", escrevem os militares.

Os autores explicam que entraram há pouco tempo na carreira militar e, por questões legais, não podem ser identificados. "Somos o que os jornais chamam de geração do fogo. Homens e mulheres na ativa, da Marinha, Exército e Aeronáutica, de todos os níveis hierárquicos. Nós amamos nosso país", escrevem. Eles também declaram que uma "guerra civil se prepara".

O ministro francês do Interior, Gérald Darmanin, denunciou nesta segunda-feira (10) uma "manobra grosseira" e a "falta de coragem" de "pessoas anônimas", frisou em entrevista ao canal de TV BFMTV. "Que sociedade corajosa essa que dá a palavra para pessoas no anonimato. Parece que estamos em uma rede social", disse Darmanin.

"Quando somos militares, não fazemos esse tipo de coisa escondido", acrescentou, reforçando que "se trata de uma manobra grosseira" com a proximidade das eleições regional e presidencial no país. O texto dos militares também denuncia "o caos e a violência" que atinge o país. "Vemos que o ódio e sua História vão se tornar a norma", dizem os militares. O artigo, em forma de petição, recebeu mais de 75 mil assinaturas algumas horas após a publicação.

Texto preocupa esquerda francesa

"Se uma guerra civil estourar, as forças armadas manterão a ordem em seu próprio território, porque vão nos pedir isso", diz o texto. O texto foi publicado menos de três semanas depois do primeiro artigo assinado por militares franceses, entre eles, 19 generais.

"Cadê a deontologia? Como podemos deixar entender que as Forças Armadas são movidas por esses sentimentos e pelo desejo de questionar certos princípios da República?", questionou o ex-presidente francês François Hollande.

"Isso me preocupa", reagiu o líder do Partido Socialista francês, Olivier Faure. Ele estima que a esquerda deveria "fazer uma reflexão diante de todas essas ameaças", declarou. "Há militares na ativa que querem assinar um texto de maneira anônima. São covardes. Eu não tenho medo, digo meu nome, e o que farei se for eleito: expulsar das forças armadas esses membros", disse Jean-Luc Mélenchon, candidato às eleições presidenciais do partido França Insubmissa.

O procurador de Paris, Rémy Heitz, rejeitou o pedido dos parlamentares para abrir um processo contra os autores do texto, porque não cometeram "nenhuma infração".

Militares ameaçam intervenção na França para defender a nação e ganham apoio de Marine Le Pen

A imprensa francesa questiona nesta terça-feira (27) se a líder de extrema direita Marine Le Pen, candidata à eleição presidencial de 2022, voltou a mostrar sua verdadeira face antirrepublicana ao manifestar apoio a uma carta aberta de 1.200 militares da reserva, incluindo 24 generais. No texto, publicado na semana passada pela revista ultraconservadora Valleurs Actuelles, os oficiais acenam com uma intervenção caso o presidente Emmanuel Macron não aja para "erradicar os perigos" que estariam levando o país à desintegração e ao declínio.

A iniciativa do texto partiu do ex-capitão Jean-Pierre Fabre Bernadac, de 70 anos, que abandonou o uniforme em 1987 e depois se converteu em agente de segurança de um grupo de luxo, observa o jornal liberal L'Opinion. A publicação destacou em sua manchete: "Exército e extrema direita: militares da reserva sonham com uma insurreição".

O documento foi publicado no dia em que o "Golpe dos generais" de 21 de abril de 1961, também chamado de "Golpe de Argel", completou 60 anos. Na época, um grupo de militares, liderados por quatro generais, tentou dar um golpe de Estado contra o então presidente Charles de Gaulle por ele ter decidido abrir mão da colonização da Argélia.

A carta endereçada ao presidente Macron, e que recebeu o apoio de Marine Le Pen, diz textualmente:

“Estamos prontos para apoiar políticas que levem em consideração a salvaguarda da nação. Por outro lado, se nada for feito, a frouxidão continuará a se espalhar inexoravelmente na sociedade, acabando por causar uma explosão e a intervenção de nossos companheiros ativos em uma missão perigosa para proteger nossos valores civilizacionais. Contaremos milhares de mortos que estão sob sua responsabilidade.”

Em suma, as Forças Armadas se engajariam contra a "desintegração" do país para a "erradicação dos perigos" que o ameaçam, como o "islamismo, as hordas das periferias [no caso da França, habitadas majoritariamente por imigrantes e seus descendentes], um certo antirracismo”, prossegue o texto. A carta também defende “os franceses de coletes amarelos que expressam seu desespero”.

Questionada se não via uma ameaça de guerra civil no país, em entrevista à rádio France Info, a líder populista disse que não havia nada de novo nessa constatação. "A situação no nosso país é tão grave (...) vários políticos já falaram em situação de guerra civil em certos bairros da periferia", afirmou a candidata.

Ministra das Forças Armadas defende punição aos assinantes da carta

A ministra das Forças Armadas, Florence Parly, defende sanções contra os militares que desrespeitaram o dever de reserva, incluindo os vinte generais signatários do documento. Ela se refere à iniciativa como "irresponsável" e defende também a punição dos soldados ativos que aderiram ao manifesto. "Pedi ao chefe do Estado-Maior que aplicasse as regras que estão previstas no estatuto dos militares, ou seja, as sanções", disse a ministra em entrevista à rádio France Info.

Entre os generais signatários do texto figura Christian Piquemal, já punido em 2019 por participar de uma manifestação em Calais (norte) contra a "islamização da Europa". Mas nenhum general cinco estrelas do Exército endossou a ameaça.

Em seu editorial, a rádio France Inter nota que o texto propaga o mesmo estilo de ideias defendido pelo jornalista Éric Zemmour, o principal polemista de extrema direita na TV. "A França declina sob a ameaça de perigos mortais (...) e de uma guerra racial que está por vir no contexto da teoria da grande substituição", que faz sucesso entre nacionalistas de extrema direita. A "grande substituição" é uma teoria da conspiração da extrema direita sobre o desaparecimento dos "povos europeus", "substituídos", segundo os defensores desta teoria, por populações não europeias imigrantes.

Marine Le Pen diz compartilhar a "aflição" manifestada pelos militares franceses, que devem "se levantar para salvar o país". A um ano da eleição presidencial, a candidata convida "os patriotas" a se unir a ela nesta "batalha pacífica".

Segundo o Cevipof, centro de pesquisas em ciências políticas da universidade Sciences Po Paris, mais de 40% dos militares votaram em Le Pen na presidencial de 2017. Seu programa previa aumentar as despesas militares para 3% do PIB, a contratação de 50 mil militares, a modernização de equipamentos das Forças Armadas e o restabelecimento do serviço militar obrigatório por um período mínimo de três meses.

Em seu editorial político matinal desta terça-feira, a rádio France Inter diz que Marine Le Pen defende "o separatismo institucional". "Ela pretende dirigir a República, mas enquanto simples candidata já elimina as fronteiras entre o civil e o militar, entre um eleito e um soldado", escreve o jornalista Yael Goosz. "Falta de lucidez, amadorismo, busca de votos na direita dura?", indaga o jornalista. Sem dúvida, um pouco de tudo isso.

 

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