| Lula da Silva: "A dor que sinto não é nada diante da dor de milhões" com a covid
12-03-2021 - Sandra Alves
O ex-presidente Lula da Silva lembrou as "quase 270 mil vítimas" da covid-19 no Brasil e os milhões de pobres no país, nas primeiras declarações após ver a sua condenação anulada.
"Tinha a certeza que este dia chegaria".
"A dor que eu sinto não é nada diante da dor de milhões e milhões de pessoas" que não têm comer na mesa na sequência da crise pandémica, declarou Lula da Silva, esta quarta-feira, na primeira conferência de imprensa, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, São Paulo, após a sua condenação ter sido anulada pelo Supremo Tribunal Federal.
"Se tem um brasileiro que tem razão para ter muitas e profundas mágoas sou eu, mas não tenho, porque o sofrimento que o povo brasileiro e os pobres estão passando neste país é infinitamente maior do que qualquer crime que cometeram contra mim", acrescentou o ex-presidente, em frente de um mega painel onde se liam duas mensagens: "Vacina para todos e auxílio emergencial já" e "Saúde, Emprego e Justiça para o Brasil".
"A minha dor não é nada diante da dor de quase 270 mil pessoas que morreram de covid ou das que viram um familiar morrer de covid", continuou. "Presto a minha solidariedade às vítimas do coronavírus, aos familiares e aos profissionais de saúde", com destaque para os cientistas que foram "desacreditados" pelo presidente Jair Bolsonaro em relação à gravidade da pandemia.
"A questão da vacinação é uma questão de vida ou de morte. Um presidente não é eleito para falar bobagens nas 'fake news'", criticou Lula da Silva.
"Vou tomar a minha vacina, não importa de que país. E quero fazer propaganda para o povo brasileiro. Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República [Jair Bolsonaro] ou do ministro da Saúde [Eduardo Pazuello]", disse.
"Tome vacina, porque a vacina é uma das coisas que pode livrar você da covid-19. Mas mesmo tomando a vacina, não ache que já [pode] tirar a camisa, já [pode] ir para o 'boteco' [bar] pedir uma cerveja gelada, ficar conversando. Não! Você precisa de continuar a fazer isolamento, continuar a utilizar máscara, álcool em gel. Pelo amor de Deus. Esse vírus, essa noite, matou quase duas mil pessoas", apontou, em tom exaltado.
O ex-presidente agradeceu depois a quem o apoio durante os 580 dias em que esteve detido, nomeadamente ao Papa Francisco que lhe escreveu uma carta, mas a pessoa responsável pela entrega foi impedida de o fazer pelas autoridades, revelou.
Sempre disse que não trocava a minha dignidade pela liberdade
Deixou ainda um agradecimento especial aos advogados. "Muito obrigado. O que aconteceu na segunda-feira [anulação da condenação] só foi possível pela coragem", declarou Lula da Silva.
"Sempre disse que não trocava a minha dignidade pela liberdade. Que não ia para casa preso porque a minha casa não é uma prisão. Tinha a certeza que este dia chegaria", o dia em que se chegaria à conclusão que "nunca teve crime cometido por mim". E frisou: "Já fui absolvido em todos os processos".
Fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história
"Fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de História", salientou o ex-chefe de Estado. E atribuiu às "falsas acusações" de corrupção contra si, a morte da sua mulher, Marisa Letícia Lula da Silva, em 2017. "Sei que a Mariza morreu por conta da pressão e o AVC se apressou. (...) Fui proibido de visitar o meu irmão num caixão, enquanto estava preso", lamentou.
Apontou depois ao juiz Sérgio Moro, defendendo: "Moro não tem o direito de se transformar no maior mentiroso do Brasil e ser considerado um herói".
"Tenho a certeza de que, hoje, ele [Sérgio Moro] deve estar a sofrer muito mais do que eu sofri. Eu tenho certeza de que o Dallagnol [ex-coordenador da Lava Jato de Curitiba] deve estar a sofrer muito mais do que eu sofri, porque eles sabem que cometeram um erro e eu sei que não tinha cometido nenhum erro", acrescentou o histórico líder do Partido dos Trabalhadores (PT).
Nesta longa declaração, Lula da Silva não confirmou nem desmentiu uma eventual candidatura à Presidência em 2022, lembrando que "os processos vão continuar", para reavaliação na justiça do Distrito Federal. Mas reconheceu que gosta de ouvir o seu nome a ser falado como um possível candidato: "Um político que ninguém lembra dele cai no esquecimento."
Condenação anulada
Lula da Silva, de 75 anos, presidente do Brasil entre 2003 e 2010, foi preso em 2018 e libertado em novembro de 2019, depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir anular as penas de prisão decretadas em segunda instância, como era o caso do ex-presidente.
Na segunda-feira, o juiz Edson Fachin, do STF, anulou todas as condenações de Lula da Silva pela Justiça Federal no Paraná, relacionadas com as investigações da operação anticorrupção Lava Jato.
A anulação foi decretada na sequência da decisão de Fachin, de declarar a incompetência da Justiça Federal do Paraná nos processos sobre a posse de um apartamento de luxo no Guarujá e de uma quinta em Atibaia, ambos em São Paulo, que haviam levado a duas condenações do ex-chefe de Estado brasileiro, em decisões das primeira e segunda instâncias.
Os processos serão agora remetidos para a justiça do Distrito Federal, que vai reavaliar os casos e pode receber novamente as denúncias e reiniciar os processos anulados.
Com a decisão, porém, Lula da Silva voltou a ser elegível e recuperou seus direitos políticos.
Fonte: JN:pt
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