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Covid-19: O que está por detrás da (alegada) cura de Trump?

16-10-2020 - Diogo Camilo

Presidente dos EUA recebeu três tratamentos para recuperar da Covid-19, mas só falou de um: aquele que ainda está a ser testado. Ao todo, menos de 10 pessoas receberam o REGN-COV2, desenvolvido pela empresa de um membro do seu clube de golfe privado.

Donald Trump tomou pelo menos três tratamentos para recuperar da sua infeção pela Covid-19: o remdesivir, a dexametasona e um cocktail experimental de anticorpos. Os dois primeiros provaram ser seguros e eficazes em pacientes hospitalizados com o novo coronavírus em estado grave. O terceiro não tem quaisquer resultados comprovados e está ainda em testes. Então o que leva o presidente dos EUA a vender o REGN-COV2, da empresa de biotecnologia Regeneron, como a "cura" da Covid-19?

Num vídeo partilhado no Twitter após sair do hospital militar onde esteve dias internado, Trump prometeu tornar este medicamento disponível para uso de emergência e de forma "gratuita".

"Não estava a sentir-me muito bem e num curto período de tempo deram-me Regeneron, outras coisas também mas este foi o principal, e foi incrível. Senti-me logo bem", disse Trump, destacando outro tratamento à base de anticorpos, desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly, cujos ensaios clínicos foram agora interrompidos por razões de segurança.

"Temos centenas de milhares de doses [do tratamento da Regeneron] que vão ficar já disponíveis e vamos autorizar o seu uso em casos de emergência", garantiu Trump.

As duas empresas solicitaram na semana passada à agência da alimentação e dos medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em Inglês) uma autorização para os seus tratamentos, com caráter de urgência, mas a FDA primeiro tem de verificar a sua segurança e a eventual existência de efeitos secundários graves.

De momento não existem ainda estudos sobre o REGN-COV2, ao contrário dos outros dois tratamentos recebidos por Trump: o remdesivir, antiviral da farmacêutica Gilead, autorizado para pacientes hospitalizados em estado grave e que já provou reduzir o tempo de recuperação de doentes com o novo coronavírus; e a dexametasona, um corticosteroide que foi o primeiro tratamento clinicamente testado a conseguir tratar casos graves da Covid-19.

Lenny, o CEO da Regeneron, é membro do clube de golfe de Trump

O que leva o presidente dos Estados Unidos a publicitar um tratamento para o novo coronavírus sem resultados comprovados como se estivesse em televendas? Coincidência ou não, o chefe executivo da empresa responsável pela sua criação é Leonard Schleifer, membro do clube de golfe privado de Trump em Briarcliff Manor, Nova Iorque, onde também estão incluídas personalidades como os atores Jack Nicholson e Clint Eastwood, o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, ou o ex-presidente dos EUA Bill Clinton.

Schleifer, a quem Trump chama de "Lenny", encontrou-se com o chefe de Estado norte-americano para lhe falar da Regeneron em maio, muito antes deste ser infetado pela Covid-19 e utilizar o tratamento experimental da farmacêutica.

Até ao momento, revelou a Regeneron em comunicado à National Geographic, menos de 10 pessoas receberam o tratamento da REGN-COV2, todas elas em "circunstâncias raras e excecionais". No entanto, recusaram explicar se a primeira-dama dos EUA, Melania Trump, também recebeu uma dose do tratamento.

O único estudo que está a ser desenvolvido sobre o tratamento centrou-se em apenas 275 pessoas, o que é insuficiente para autorizar uma terapia em larga escala, mesmo que para uma doença em contra-relógio como tem sido com o novo coronavírus.

A empresa de biotecnologia adiantou, no pedido à FDA, ter disponíveis doses suficientes para tratar 50 mil pacientes, com planos para chegar aos 300 mil nos próximos meses. O problema é que 50 mil casos é o número de casos que os EUA estão a registar por dia, todos os dias, além de que terapias monoclonais com anticorpos são difíceis de produzir e caras de fabricar. O custo médio de cada um destes tratamentos aprovados nos últimos 20 anos é de mais de 82 mil euros.

Além disso, levantaram-se também questões éticas de Republicanos sobre a maneira como o tratamento foi desenvolvido, uma vez que utiliza células originalmente obtidas a partir de fetos abortados.

De acordo com o New York Times, o tratamento da empresa de biotecnologia Regeneron Pharmaceuticals REGN-COV2, que mostrou efeitos promissores apenas em estudos em pequena escala, utilizou nos seus estudos uma célula HEK (Human Embryonic Kidney), a 293T, a partir de tecido de rins de um feto abortado nos anos 70. Pelo menos duas farmacêuticas a produzirem vacinas contra a Covid-19, a Moderna e a AstraZeneca, também estão a usar esta célula.

E o remdesivir, o antiviral que Trump recebeu e que foi originalmente criado para combater o Ébola - segundo alguns estudos poderá acelerar a recuperação de doentes de Covid-19 -, também foi testado em ensaios clínicos usando esta célula 293T.

Acontece que, em junho de 2019, a administração de Trump suspendeu o financiamento para a maioria das novas investigações científicas envolvendo tecido fetal derivado de abortos.

Ao jornal norte-americano, a porta-voz da Regeneron, Alexandra Bowie, indicou que as células 293T "foram utilizadas para testar a capacidade dos anticorpos em neutralizar o vírus" e que o "tecido fetal não foi usado diretamente na investigação".

Farmacêutica Eli Lilly suspende ensaio clínico de tratamento semelhante à "cura" de Trump

Quando Trump falou na "cura" da Covid-19 referindo-se à Regeneron, destacou a farmacêutica Eli Lilly, que também estava a desenvolver um tratamento semelhante. Mas os ensaios clínicos deste foram suspensos esta terça-feira por razões de segurança não detalhadas.

"Sabemos que, por precaução, o comité independente de vigilância sanitária do ensaio ACTIV-3 recomendou uma pausa nos recrutamentos", declarou um porta-voz à AFP, aludindo a um ensaio envolvendo doentes com a covid-19 hospitalizados. "Lilly apoia a decisão do comité independente de garantir com prudência a segurança dos pacientes que participam no ensaio", adiantou.

O tratamento é semelhante ao que Trump recebeu da Regeneron, com anticorpos de síntese a serem injetados de forma intravenosa, fabricados especificamente para neutralizar o coronavirus responsável pela doença, substituindo de facto o sistema imunitário.

Fonte: Sabado.pt

 

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