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Domingo 20 de Setembro de 2020  
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CHEGOU E VENCEU. ATÉ ONDE VAI ANDRÉ VENTURA?

11-09-2020 - Graça Henriques

Extrema-direita ou apenas populista? Passado pouco mais de um ano de ser criado e de ter conseguido eleger um deputado, o Chega surge nas sondagens como terceira força política no espectro parlamentar e André Ventura em segundo lugar no…

Foi uma decisão solitária a de André Ventura quando criou o Chega. Nas autárquicas de 2017 as suas declarações contra os ciganos caíram que nem uma bomba e o partido pelo qual tinha concorrido mostrou o seu desagrado - Pedro Passos Coelho, ao contrário do CDS, não lhe retirou o apoio, mas ouviu-se o desagrado de muitas vozes sociais-democratas. "Senti que uma grande parte do partido, para não dizer a maioria, não se revia no meu modelo de pensamento em matérias de relação com as minorias, de Estado de direito, e várias outras questões estruturantes. Em 2019 iriam realizar-se dois atos eleitorais (europeias e legislativas) e entendi que era o momento de criar essa rutura - não era o PSD que tinha mudado, era o meu pensamento que já não se integrava naquilo que o PSD pensava para o país. O PSD tinha-se deslocado para a esquerda, pelo menos para um certo centro do espectro político, e eu entendia que não era aí que o centro-direita deveria estar no século XXI", conta André Ventura.

Desde aí não mais parou. As polémicas, as notícias, as críticas - o Chega é rotulado como um partido de extrema-direita, radical, populista, racista, xenófobo, homofóbico -, não pararam André Ventura que foi eleito deputado único do partido em outubro do ano passado. A defesa da prisão perpétua e da pena de morte (o partido realizou aliás um referendo interno sobre o assunto no mesmo dia das diretas, neste sábado, 5 de setembro, mas 56% disseram "não" á pena capital), defende a diminuição da entrada de árabes na Europa, mas continua a arregimentar seguidores. André Ventura rejeita ser classificado de racista ou de homofóbico e vê nesses "epítetos" uma tentativa de acantonar o partido por quem já percebeu "que não pode travar o crescimento do Chega".

Desde sempre, a etnia cigana tem sido alvo preferencial nos discursos de Ventura. "Não tenho problema nenhum com os ciganos. Mas há uma grande parte que não cumpre as regras e que entende que o Estado de direito não se lhes aplica. Eu acho que nós só vamos lá, e admito que seja discutível, com um Estado de direito forte e com uma mentalidade de choque, não no sentido de violência, mas de se perceber que existe um problema. Temos de mudar completamente a relação com as minorias, sobretudo com a minoria de etnia cigana, ou um dia vamos ter um problema maior do que aquele que temos, nomeadamente em matéria de cumprimento dos direitos das mulheres, de casamento, subsidiodependência, de respeito pela autoridade e na relação com o padrão de atuação de um Estado de direito. Fiquei chocado com a decisão de um tribunal que dizia que o casamento de menores era uma tradição e que tínhamos de aceitar. Não quer dizer que não aceito que haja especificidades de minorias, entendo é que há limites a estabelecer e esse é um deles, as miúdas serem retiradas da escola aos 12 ou 13 anos e ninguém fazer nada, ou haver uma cultura de subsidiodependência que o Estado prefere manter. Nunca disse que devia haver atuação policial específica contra comunidades ciganas nem que deviam ser expulsas do país. Acho é que temos um problema de integração e, se não o resolvemos, um dia vamos ter a fatura para pagar."

A vergonha do discurso anticigano

A acusação de subsidiodependência à etnia cigana foi a primeira, mas Ventura também já defendeu o confinamento dos ciganos para evitar a propagação da covid-19. Um discurso que o professor universitário e politólogo José Adelino Maltez entende que põe em causa a unidade nacional e ignora a história da etnia cigana, que está em Portugal há mais de 500 anos. "André Ventura até desconhece a história da organização da direita em 1974/75, até desconhece que o general Galvão de Melo tinha uma tropa de ciganos, até desconhece que os comícios contra a esquerda tinham sempre segurança de ciganos, que os ciganos se levantaram contra a esquerda comunista, porque são fanaticamente contra esse tipo de organização, que a luta do PREC teve ciganos em todas as frentes. Não respeita esse passado."

Para Maltez, enquanto não tivermos resposta para os problemas dos ciganos, não teremos resposta para outras atitudes racistas. "A nossa hipocrisia é nenhuma destas minorias chegar aos 5%. Temos uma paz santa por causa disso. Se a nossa minoria atingisse 10%/20% não sei se estaríamos preparados."

"Há um combate democrático a Ventura que ainda não foi feito. Não é bom para a democracia portuguesa - e esse é o cordão sanitário de princípios - que este tipo de discurso tivesse êxito. Não gostava nada de que este tipo de pensamento tivesse votos. Mas é preciso ser inteligente a defender essa posição. A direita democrática e a esquerda democrática deviam ter juízo e não serem comandadas por quem lhes está a agitar muito mal o fantasma. Isto não é um fantasma. O discurso anticigano não é um fantasma, é uma pouca-vergonha! Portugal não merece qualquer tipo de cedência a esta etnização da política. Ainda por cima, André Ventura é do Benfica, que é a principal organização antirracista portuguesa. Basta ver um estádio, um jogo, e o sentido de igualdade que o Benfica, e outros grandes clubes, têm feito contra o racismo no estádio. No dia em que alguém diz que é mais pátria que outro, está a atentar contra a unidade nacional. É o que faz Ventura com o discurso anticigano."

Foi aliás o seu papel de comentador desportivo na CMTV - e igualmente sobre justiça - que catapultaram Ventura para o conhecimento do grande público. Uma mediatização que ajudou Sérgio Azevedo, o ex-deputado do PSD, a sugerir Ventura para cabeça-de-lista do PSD à Câmara de Loures, onde elegeu dois vereadores. São amigos desde a juventude, nos tempos em que Sérgio Azevedo foi líder da JSD de Lisboa - "uma amizade que vai para além da política", mas que não o leva a aderir ao Chega. "O André não está a interpretar nenhuma personagem, sempre foi assim. Tem agora a possibilidade de extravasar mais o seu pensamento. Mas se há coisa que André não é é racista. Tem uma forma de comunicar que vai ao encontro do pensamento oculto da maioria das pessoas e capitaliza porque lhe dá voz", diz o antigo deputado.

André Ventura dirá o que muitos querem ouvir. É essa uma das teses do populismo: o discurso securitário, contra as elites, contra a corrupção. Palavras que geram amores e ódios. "Sendo franco, tenho noção de que quando toco nestes assuntos gero reações. Mas muitas vezes a mensagem é mal compreendida", afirma o líder do Chega, reeleito este sábado, 5 de setembro, com 99,1% dos votos dos militantes - nas eleições internas votaram 40% de um universo de cerca de 11 mil que estavam habilitados para o fazer.

Quem a compreende mal? Aqueles que, diz, o ameaçam de morte ou a legião de apoiantes que cresce de dia para dia e que, segundo as sondagens, colocam o Chega como a terceira força política em Portugal, logo atrás do PS e do PSD?

O referendo à pena de morte

Ventura recandidatou-se à liderança do partido em nome de uma clarificação que decidiu ser necessária em abril quando assumiu estar "farto" e cansado" dos que "sistematicamente boicotam" a direção do partido. Mas avançou sem rivais. O Chega é Ventura, Ventura é o Chega. Pelo menos, para as massas. "Somos um partido muito presidencialista, muito centrado", reconhece, embora sublinhe que os militantes - "ainda não chegámos aos 20 mil" - têm uma palavra a dizer.

Uma busca no Google mostra notícias diárias sobre o Chega. É sempre André Ventura que aparece a falar, é sempre ele a dar o rosto. Os três vice-presidentes dos partido - Diogo Pacheco de Amorim, Nuno Afonso e José Dias - são praticamente desconhecidos do grande público. Uma das caras mais reconhecidas do Chega era Sousa Lara, ex-secretário de Estado da Cultura de Cavaco Silva, que se demitiu de porta-voz no início do ano por não querer abdicar da subvenção estatal de 1343 euros.

O líder do partido Chega e deputado André Ventura nega existir contradição entre o que escreveu e o que

André Ventura pediu suspensão do mandato para as eleições regionais dos Açores, em outubro, e para a campanha eleitoral das presidenciais de 2021, em que é candidato. Ainda não se sabe se o Parlamento aprovará a primeira suspensão - se não for aceite irá tentar justificar as faltas - mas na campanha para Belém será substituído pelo número dois da lista, o também número dois do partido, Diogo Pacheco Amorim - é um homem maduro, visto como ideólogo do partido, que esteve anteriormente com Manuel Monteiro na criação da Nova Democracia, e com protagonismo na história da direita portuguesa.

A prova da pluralidade do Chega, diz André Ventura, está no facto de a pena de morte se transformar em objeto de referendo interno. "Sou contra a pena de morte. Mas perante o desafio de vários militantes, a direção entendeu que deveria ser feito. Mas mesmo que o sim ganhe, esclareci que, enquanto deputado único do Chega, não será apresentada por mim qualquer proposta de revisão da Constituição nesse sentido." O sim não ganhou - só 44% votaram a favor, 56% votaram contra.

Conseguirá desvincular-se de uma posição tão radical do partido a que preside? Propostas polémicas não faltam ao Chega, como a castração química de agressores sexuais. Um partido que programaticamente se assume "securitário" e da "direita identitária". E que ao mesmo tempo defende "uma política comum de defesa contra a invasão maciça dos países do sul do Mediterrâneo", a abolição das "autorizações de residência para "proteção humanitária"" e pelo estabelecimento de "uma lista de países seguros na origem". Um partido que quer reconstruir o regime e instalar a IV República.

São propostas que fazem questionar a fé cristã de alguém que tem um percurso tão católico, que diz acreditar fortemente em Deus, que se casou pela Igreja, que reza todos os dias antes de dormir e que aos 14 anos foi pelo seu próprio pé pedir ao padre de Algueirão-Mem Martins (onde nasceu há 37 anos) que o batizasse, que viveu na residência da Igreja de São Nicolau, em Lisboa, quando era estudante universitário. De alguém que quis ser padre, que estudou num seminário mas que saiu porque se apaixonou. Ventura garante que não abalam a sua fé e está convencido de que não está errado.

Onde estão os pensadores fascistas?

Donizete Rodrigues, professor de Sociologia na Universidade da Beira Interior (UBI) e investigador do fenómeno religioso na política, não considera, contudo, o Chega como um partido de extrema-direita. "Não apresenta essas características de violência contra o outro, contra as minorias raciais, contra os negros. A extrema-direita não é democrática, ganha o poder através da força. André Ventura tem essa preocupação, sabe que isso lhe vai causar problemas e que a Constituição da República o proíbe. É hábil, muito inteligente."

Para o professor, que investigou as ligações do Chega à Igreja Evangélica, estamos perante um partido de direita radical, populista, que pega em temas mais polémicos e fraturantes da sociedade. Com um discurso que apregoa o que muita gente quer ouvir. Com muitos riscos associados, é um facto: "Pode representar um recuo nos direitos civis."

Adelino Maltez vê o Chega como um "objeto político não identificado" que varia o programa conforme as sondagens - "É o partido da "sondagem-cracia". Nem aos escreventes da extrema-direita os vejo minimamente interessados no Chega, nem aos fascistas lhe interessa! Aquilo que noto - e gosto de ler o que escreve a extrema-direita portuguesa que tem gente bastante culta e bons filósofos - é que nenhum dos que mantêm a chama, por exemplo, de um António José de Brito, que era um pensador altamente fascista, está minimamente interessado no Chega. O Chega não tem praticamente um único nome que faça doutrina nesse domínio. Tem um programa tipo fabricação de salsicha. Vamos ver o que dá. Estes sound bites são bons, faça-se um programa de acordo com esse programa. Se resulta? Parece que resulta..." Mas também admite que, através do voto, o povo pode atirar o Chega para a extrema-direita.

Nas sondagens, André Ventura surge em segundo lugar nas intenções de voto para as presidenciais e o Chega como terceira força política do espectro parlamentar. Isso justifica-se "pelo descrédito da classe política. Pelo facto de os ministros e os líderes serem sempre os mesmos, inclusive dos sindicatos. À ausência de ideais e personagens novas junta-se a crise económica que favorece o populismo e à moldagem do discurso ao que os eleitores querem escutar. Veja-se Bolsonaro no Brasil e Trump nos Estados Unidos. Captam o descontentamento generalizado, montam um discurso populista, sem apresentar soluções milagrosas - no poder podem até piorar as coisas", diz Donizete Rodrigues.

O resultado deste interesse do eleitorado pelo Chega já deu frutos políticos: o líder do PSD, Rui Rio, mostrou abertura para acordos com Ventura, desde que adote um tom mais "moderado". A seguir, veio Miguel Albuquerque, presidente do PSD-Madeira, dizer que "tudo o que sejam coligações no sentido de derrotar a esquerda em Portugal é bem-vindo". Declarações que deixam Ventura a esfregar as mãos de contente e o CDS - partido que se tem aliado aos sociais-democratas para formar governo - de crista em baixo. A "amachucar" ainda mais os sociais-democratas, Pedro Borges de Lemos, da corrente não formalizada CDS XXI, anunciou a desfiliação no partido e mostrou disponibilidade para aderir ao Chega, "o único partido verdadeiramente de direita em Portugal e que combate o sistema nas suas vertentes mais tóxicas, designadamente a corrupção, os privilégios dos políticos, a grande criminalidade e a imigração ilegal".

Mas Ventura prefere manter-se sozinho, recusa "ser o CDS do século XXI". Possibilidades de entendimentos, diz, só depois das eleições.

"O cordão sanitário é a Constituição"

É preciso um cordão sanitário para que não chegue ao poder através de acordos políticos? "O cordão sanitário da democracia chama-se Constituição. É o único e o principal. A Constituição tem uma norma que proíbe organizações fascistas. E depois surgiu uma lei ordinária a definir o que são organizações fascistas. Mas o cordão sanitário não é bem esta lei, é a prática comunitária dos valores constitucionais", conta Maltez.

Os cordões sanitários, entende o politólogo, são uma questão da França que teve colaboracionismo, e da Alemanha, que teve nazismo. "Traumatismos de uma coisa que foi bem real, que foi o nazifascismo e que levou as democracias a fazer cordões sanitários. Em Itália, o MSI até chegou ao governo e depois tornaram-se democratas. Em Espanha, o juancarlismo tentou apagar as cinzas da guerra civil, o franquismo é uma coisa indefinida, mas a democracia espanhola não é antifranquista. A Constituição de Espanha foi subscrita e um dos grandes líderes foi um ministro franco, Manuel Fraga Iribarne. Ficaram num meio-termo. Desenvolveu-se um saudosismo franquista mas com terreno, com cultura, do Vox. O nosso Chega não chega aos calcanhares do pensamento político que está por detrás do Vox."

Infiltrações de neonazis

A próxima marcha antirracismo do Chega está agendada para 18 de setembro, em Évora, dia em que se realiza a Convenção Nacional do partido 19 e 20), com a eleição dos órgãos dirigentes, e onde está confirmada a presença de elementos da Frente Nacional de Marine Le Pen e da Liga Itália, por exemplo.

André Ventura recusa ser chamado de racista e recusa igualmente ligações a organizações de extrema-direita - recentemente o líder do grupo de extrema-direita Resistência Nacional confirmou à Sábado que pertence ao Chega e que foi convidado para organizar a concelhia da Covilhã. Nuno Cardoso, que já pertenceu à Nova Ordem Social (NOS), movimento nacionalista já extinto e que foi liderado por Mário Machado, admite que foi um dos 20 participantes na denominada "parada Ku Klux Klan" em frente à sede da associação SOS Racismo, em Lisboa, na noite de 8 de agosto.

Donizete Rodrigues entende que o Chega não pode ser classificado como racista, porque isso implica sempre uma ação concreta contra o outro. Na sua opinião, o discurso de Ventura entra mais na lógica da xenofobia, "embora não seja contra os imigrantes entrarem em Portugal, mas só terem direitos e não deveres".

Riccardo Marchi, professor e investigador do ISCTE-IUL, escreveu um livro sobre o Chega e foi objeto de uma ação inédita: 67 académicos assinaram uma carta, no Público, contra a obra, a acusar o académico de estar a higienizar o partido. E em que afirmam que defendem que "a produção de conhecimento académico não se coaduna com propósitos de normalização, legitimação e branqueamento de um partido racista e com desígnios antidemocráticos". No Observador foram publicados vários artigos a considerar este manifesto "censório".

"O abaixo-assinado dos 67 contra Riccardo Marchi é um dos atos mais vergonhosos da história da universidade portuguesa. Merece ficar ao lado da expulsão de professores durante a ditadura salazarista", escreveu Rui Ramos.

"[Marchi] não referiu que há evidência de ligações do Chega a grupos de extrema-direita e neonazis portugueses, como a Nova Ordem Social (NOS, liderado por Mário Machado), Escudo Identitário, Associação Portugueses Primeiro (que tem na cúpula João Martins, condenado no processo relativo ao assassinato de Alcindo Monteiro) ou que o cabeça-de-lista do Chega, no Porto, às legislativas foi condenado pelo assassinato de uma criança cigana enquanto agente de autoridade. Dias antes da (contra)manifestação do Chega, o ex-líder da NOS apelou nas redes sociais para que não fossem feitas saudações nazis (o que já acontecera num encontro do Chega no Porto)", escrevem os signatários, entre os quais se encontra Boaventura Sousa Santos, Ana Benavente, Irene Pimentel, Fernando Rosas, João Teixeira Lopes.

O DN procurou obter, por mail, uma reação de Riccardo Marchi às críticas que lhe foram dirigidas, mas não teve resposta. Na entrevista que deu ao DN, em julho, referia que "o Chega é um partido com rosto mas sem coluna vertebral".

O partido acaba por ter um efeito tóxico sobre quem mexe no tema. "Existe um estigma de quem se aproxima do Chega de Ventura, fica logo rotulado. Na verdade, há um défice democrático muito grande desde 1974, como não há alteração nos atores políticos e não há renovação, há uma sociedade muito obediente", refere Donizete Rodrigues. Sendo "um outsider dessa elite tradicional", Ventura conseguiu uma ascensão meteórica ao atrair uma massa de portugueses descontentes com o statu quo. Fala dos problemas económicos, da corrupção, do desemprego, "põe a culpa nos imigrantes, não esclarecendo que são uma força produtiva do país, que pagam Segurança Social, que têm filhos, passam a ideia errada de que são parasitas".

Casamento feliz com evangélicos

Donizete Rodrigues estuda as igrejas evangélicas, desde a IURD, em 1998. Igrejas que estão ligadas à direita radical, com um discurso antissistema, conservador, homofóbico e com tendência misógina ao defender que a mulher não deve ocupar um lugar de destaque. O investigador encontra uma convergência de ideias entre os evangélicos e o Chega, a que chama "casamento feliz" - uns querem o poder de transformar a sociedade e moldá-la segundo os seus ideais, os outros querem o poder político.

"A Constituição proíbe que um partido tenha uma ligação direta com um movimento religioso. A estratégia da Igreja Evangélica é aproximar-se dos partidos que defendem as suas ideias e o Chega defende tudo o que eles gostariam que mudasse na sociedade. Nos cultos falam abertamente de política, defendem o Chega como o partido que se identifica com a Igreja e dizem o nome de Ventura. Há reuniões de dirigentes do Chega com dirigentes evangélicos. Existem ligações do Chega com evangélicos no Brasil", afirma.

O que ganha cada um? Por um lado, o Chega ganha visibilidade internacional, diz - "a lógica de Ventura é extrapolar fronteiras, fazer ligações com Itália, Espanha, França". Por outro, ganha votos, porque nos cultos se apela diretamente aos fiéis. "Quando um ministro da Igreja Evangélica determina o voto, a chance de acontecer é quase 100%. Se um padre católico diz para votarem no PSD é de 50%. Na Igreja Evangélica, há uma fidelidade muito forte, por isso tem tanto poder."

Em Portugal ainda não aconteceu, mas já se vê no Brasil e nos Estados Unidos. "Apoiam com dinheiro e votos e depois começam a impor a agenda conservadora, vão querer cargos políticos, isenções fiscais, autorização para a construção de templos."

A investigação ainda decore no terreno, mas a Igreja Evangélica não diz quantos fiéis tem em Portugal. Muito longe do que acontece no Brasil, onde cerca de 50% da população segue o culto, em Portugal, os investigadores estimam que serão cerca de cem mil pessoas. "Podem não decidir uma eleição, mas trazem muitos votos. Não conseguem colocar ninguém como Presidente, primeiro-ministro ou presidente das câmaras de Lisboa ou do Porto, mas podem ajudar a eleger vários deputados."

"Ventura está a usar as armas que a democracia disponibiliza para chegar ao poder."

É nisso que Ventura está empenhado - passar de deputado único para um grupo parlamentar com dezenas de deputados. Quando lhe chamam racista, extremista, homofóbico, estão a querer acantoná-lo nos 8% ou 9% dos votos, diz. "Queremos chegar ao PSD e ultrapassá-lo, mas para isso precisamos de outro tipo de eleitorado mais de centro."

Para o investigador da UBI, "Ventura está a usar as armas que a democracia disponibiliza para chegar ao poder. Sabe fazer muito bem a leitura da Constituição. A lógica do populismo é vender uma sociedade melhor, combater a corrupção. Mas isso não quer dizer que vão conseguir produzi-la, às vezes destroem os países. Não estou a ver Le Pen ou a Frente Norte na Itália a fazê-lo. Ou Bolsonaro e Trump".

Sem medo de rótulos

Segundo uma investigação da Visão, o Chega tem mais de 20 mil perfis falsos nas redes sociais, para que a mensagem tenha maior alcance. O partido que nas primeiras legislativas a que concorreu alcançou 1,29% dos votos e as sondagens lançam-no para cima. Maria Vieira, convidada para mandatária para as comunidades portuguesas nas presidenciais, ilustra as motivações de muitos para aderir ao partido: "O Chega defende tudo aquilo em que eu acredito no que diz respeito à construção de uma sociedade livre, justa, próspera e verdadeiramente democrática. O Chega não é de extrema-direita. O Chega é de extrema-necessidade!", afirma a atriz que considera o convite para mandatária um reconhecimento da sua carreira internacional, popularidade e sucesso profissional junto dos emigrantes. Diz mais: que "a esquerda não estava habituada a uma verdadeira oposição de direita, capaz de fazer frente à hegemonia socialista e marxista que vem tomando conta do nosso país (com algumas curtas exceções pelo meio) desde abril de 1974".

Não receia rótulos, mesmo quando trazem consigo cargas negativas e alertas de riscos. "Assumo-me, sim, como uma mulher e como uma atriz conservadora, cristã, patriota e nacionalista. E não há nada de perigoso no nacionalismo, pois ser nacionalista é amar e respeitar o país onde nascemos, os nossos costumes, as nossas tradições e a nossa cultura e, depois, nenhuma destas características me impede de ser justa e tolerante com todos aqueles que não nasceram em Portugal e que foram recebidos no meu país, desde que todas essas pessoas saibam que têm direitos, mas que também têm deveres que devem ser escrupulosamente observados e cumpridos em nome da tolerância, do respeito e da boa convivência entre as diferentes nacionalidades, raças, culturas e religiões que partilham esta bela e boa terra onde nasci."

Fonte: DN.pt

 

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