| DGS comprou a ex-presidente da ANF três milhões de máscaras com certificado falso
22-05-2020 - Zap
A Quilaban, empresa do ex-presidente da Associação Nacional de Farmácias, vendeu três milhões de máscaras à DGS com certificado falso ou inválido.
Três milhões de máscaras tipo FFP2 com um certificado inválido ou falso foram compradas pela Direcção-Geral da Saúde à empresa do ex-presidente da Associação Nacional de Farmácias, João Cordeiro, noticia o jornal Público na sua edição deste domingo.
O diretor-geral da empresa, Sérgio Luciano, admite ao jornal os problemas no certificado, mas diz que o produto aparenta boa qualidade. O Ministério da Saúde garantiu entretanto por seu turno que os mais de 1.4 milhões de máscaras FFP2 entregues pela empresa esta semana ainda não foram distribuídas.
Estas máscaras, destinadas a profissionais de saúde, foram encomendadas a 7 de abril por ajuste direto, num contrato de quase nove milhões de euros que incluía ainda máscaras cirúrgicas de tipo II.
As máscaras tipo FFP2, também conhecidas como “respiradores” , são usadas na prevenção de epidemias, para absorver aerossóis nocivos, incluindo pó, fumos, gotículas de névoa, gases e vapores tóxicos.
A proposta apresentada pela Quilaban incluía um certificado CE , que garante a conformidade das máscaras com as normas europeias de segurança e saúde, emitido a 16 de março pela ICR Polska, entidade polaca de certificação.
No entanto, a própria entidade alerta no seu site que a 26 de março deixou de certificar produtos relacionados com a covid-19 e que anulou todos os certificados emitidos durante esse mês devido a inúmeras fraudes entretanto detetadas .
De acordo com o Público, quando se pesquisa o número de certificado no site da ICR Polska, o certificado pesquisado surge como não existente, inválido ou falso .
Segundo o ZAP apurou, estas fraudes estão mesmo listadas desde 31 de março no site da Federação Europeia de Segurança, que realça que a ICR Polska não é “notified body" da União Europeia para a certificação de produtos de proteção pessoal.
A nota da FES significa que nenhum país membro da UE designou a ICR Polska para certificar a conformidade de produtos desta categoria com as normas da União Europeia. A entidade polaca está no entanto mandatada para certificar produtos de outras categorias.
Inconsistências
A investigação do Público aponta ainda uma inconsistência entre a data de produção apontada no contrato, 29 de março, e a data de realização dos testes de conformidade, indicada como tendo ocorrido a 8 de abril – um dia depois do negócio com a DGS ter sido celebrado.
Além disso, no certificado que acompanha o ajuste directo feito pela DGS, a fabricante de máscaras que solicita certificação é a Gansu Changee Bio-pharmaceutical. Mas na ficha técnica que acompanha a proposta da Quilaban, o nome do fabricante é outro — uma divergência que a empresa “irá esclarecer esta segunda-feira”.
No contacto inicial do Público, João Cordeiro admitiu dificuldades da empresa com os certificados de conformidade, mas “por motivos de saúde” remeteu esclarecimentos adicionais para o director-geral da empresa.
O farmacêutico e empresário português foi um dos fundadores, em 1974, da Associação Nacional das Farmácias, da qual foi Presidente da Direção durante 32 anos , entre 1981 e 2013. Um dos projectos mais emblemáticos à qual a ANF se associou durante a sua presidência foi o Programa de Troca de Seringas para combate ao flagelo do VIH/SIDA.
Em 2012, João Cordeiro encabeçou o movimento “Farmácias de Luto”, que reuniu a assinatura de mais de 324 mil pessoas contra as alterações na política do medicamento conduzidas pelo Governo de Passos Coelho e as suas consequências na sobrevivência das farmácias.
Em Janeiro de 2013, deixou a presidência da ANF. Nas eleições autárquicas desse mesmo ano, foi o candidato apoiado pelo Partido Socialista à Câmara Municipal de Cascais , tendo sido eleito Vereador.
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