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Acabar com os maneirismos associados ao COVID-19

13-03-2020 - Arkebe Oqubay

O surto de COVID-19 ameaça transformar-se numa pandemia global como não se via há um século. Este novo coronavírus já alastrou a 77 países, tendo infectado mais de 93000 pessoas e matado mais de 3200; até ao momento, 86% dos casos e 93% das mortes foram registadas na China, onde o surto se iniciou. Agora que o vírus foi identificado em seis continentes, a Organização Mundial de Saúde modificou a sua avaliação de ameaça para o nível mais elevado. E Bill Gates, que tem avisado contra os perigos de uma pandemia global, afirma que o COVID-19 “começou a comportar-se bastante como o agente patogénico que só aparece uma vez num século e que nos tem preocupado”.

Rapidamente, o surto tornou-se um tema altamente politizado. Os altos funcionários da OMS, por exemplo, foram criticados tanto por aplaudirem os esforços do governo Chinês para conter o vírus como pelo seu próprio atraso em declarar uma epidemia. Além disso, apesar de apelos repetidos por mais recursos  para o combate ao vírus, a OMS só recebeu uma pequena parte do apoio prometido pela comunidade internacional, forçando-a em alternativa a depender dos seus mecanismos internos de crédito. E numa altura em que os governos deveriam tomar medidas coordenadas para conter o vírus, muitas companhias aéreas suspenderam voos para a China, mesmo depois da OMS e da Associação do Transporte Aéreo Internacional não terem aconselhado a medida.

As medidas sem precedentes e genericamente bem-sucedidas do governo chinês para conter o surto do COVID-19, nomeadamente as restrições a viagens e circulação nos focos da infecção, receberam respostas mistas. Embora os meios de comunicação convencionais do ocidente tendam a descrever o isolamento de Wuhan e de outras cidades chinesas com uma população total de cerca 60 milhões como “draconiano”, o antigo Secretário-Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon emitiu uma mensagem de apoio às ousadas e necessárias medidas.

Ao conseguirem restringir a esmagadora maioria de casos e óbitos do COVID-19 à província de Hubei, as autoridades chinesas deram mais tempo à comunidade internacional para tomar medidas preventivas. Os heróis da resposta chinesa, evidentemente, são os profissionais clínicos que arriscaram as suas vidas – e, em alguns casos, morreram – para proteger os seus concidadãos.

O COVID-19 é o quarto surto viral importante desde 2000. A epidemia da síndrome respiratória aguda grave (SARS) matou 774 pessoas; a síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS) alastrou a 27 países, com 2494 casos confirmados em laboratório e 858 mortes; e os repetidos surtos de Ébola na República Democrática do Congo resultaram até agora num total de 3444 casos e de 2264 mortes  (a mortalidade do surto de Ébola na Africa Ocidental em 2014-2015 foi muito maior).

Para além das mortes e dos efeitos psicológicos significativos, o COVID-19 também está a causar danos importantes à economia global, ao desestabilizar as cadeias de produção e de valor em quase todos os sectores. O surto está a custar ao sector do transporte global marítimo 350 milhões de dólares por semana, principalmente devido ao abrandamento na produção industrial chinesa. A procura na aviação global desceu significativamente desde o início do ano, tendo as transportadoras asiáticas sido especialmente atingidas: a Cathay Pacific, por exemplo, prevê reduzir os seus voos em 40% durante o resto do primeiro trimestre. E os

O contágio do COVID-19 alastrou aos mercados financeiros, com os mercados bolsistas globais a perderem recentemente 6 biliões de dólares de valor em seis dias – a quebra mais acentuada desde a crise financeira de 2008. O inesperado abrandamento económico global, que aparece num momento em que o crescimento é tão necessário, afectará tanto os países avançados como os países em desenvolvimento e suscitará receios de uma recessão global.

Nenhum país está imune à ameaça apresentada pelo COVID-19 e por outros vírus de progressão rápida. Com efeito, as alterações climáticas, o acréscimo da mobilidade global nos negócios e no turismo e as alterações na estrutura demográfica deverão aumentar os riscos, incertezas e custos associados a surtos futuros semelhantes. Além disso, os sistemas de saúde nacionais não estão preparados para fazer face a esta emergência global iminente.

Por conseguinte, é necessária uma nova abordagem global para fazer face a crises desta natureza. Para começar, necessita-se de uma resposta célere e uma mobilização internacional de recursos e experiência, acompanhadas de simpatia e compaixão. O povo chinês merece o apoio moral do mundo nesta hora difícil. Os eventos como o surto do COVID-19 não devem ser ocasiões para respostas politizadas: o sentimento de humanidade partilhada deve tomar precedência sobre a política, sempre que uma doença ameace tornar-se uma pandemia.

Adicionalmente, os legisladores devem usar os progressos tecnológicos (como a inteligência artificial e a biotecnologia) para a melhoria do nosso futuro comum. Assim como é crítica a introdução de sistemas aperfeiçoados de alerta precoce, também o é que a investigação renove o seu empenho em opções profilácticas como vacinas. Em vez de deixarem a pesquisa e a inovação a uma indústria farmacêutica global que visa o lucro, os governos deveriam construir sistemas nacionais de saúde que fortaleçam a sua posição e que contenham os surtos. Finalmente, a capacidade da OMS deveria ser reforçada e a sua capacidade internacional de emergência deveria ser alargada, para que os vírus possam ser totalmente contidos no local onde aparecem.

O COVID-19 é um sinal evidente de que as epidemias podem rapidamente eliminar os progressos económicos. Além disso, a dificuldade de medir o pleno impacto destes surtos torna a economia global mais vulnerável. Por conseguinte, os governos e as organizações internacionais precisam de implementar medidas de recuperação que tenham o menor impacto económico negativo, e apoiar os cidadãos mais desfavorecidos e as pequenas empresas, que serão os mais afectados por qualquer surto. Acima de tudo, os líderes mundiais têm de abster-se de maneirismos políticos e de unir-se para derrotarem esta mortífera ameaça global.

ARKEBE OQUBAY

Arkebe Oqubay, ministro sénior e consultor especial do primeiro-ministro da Etiópia, é um membro distinto do Instituto de Desenvolvimento Ultramarino. Suas publicações recentes incluem  Made in Africa, How Nations Learn e The Oxford Handbook of Industrial Hubs and Economic Development.

 

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