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O grande salto da China para a epidemia

28-02-2020 - Aryeh Neier

Antes de o mundo ter conhecimento do novo coronavírus que provocou um pânico mundial, um oftalmologista de Wuhan, Li Wenliang, notou algo estranho nalguns pacientes. Eles pareciam ter contraído um vírus desconhecido que se assemelhava à síndrome respiratória aguda grave (SARS), que colocou a China em apuros há quase uma geração. Passados alguns dias, depois de Li ter enviado uma mensagem de alerta a vários médicos num chat em grupo, o médico de 34 anos foi  notificado pela polícia, que o forçou a assinar uma carta a confessar que “fez comentários falsos” que tinham “ perturbado a ordem social”. Agora Li está morto, vítima do próprio vírus – actualmente chamado de COVID-19 – sobre o qual soou o alarme.

A morte de Li – juntamente com outras revelações dos esforços da China para silenciar os delatores do COVID-19 – provocou uma indignação mundial e com razão. Se o governo estivesse mais preocupado com a protecção da saúde pública do que com a ocultação de informações pouco lisonjeiras, poderia ter sido capaz de impedir a propagação do vírus. Até agora, o COVID-19 infectou mais de 74 mil pessoas, só na China, com mais de dois mil mortos.

E, no entanto, não é a primeira vez que a negação da liberdade de expressão está ligada a uma emergência mortal de saúde pública na China. Quando a epidemia de SARS começou em 2002, as autoridades chinesas também tentaram encobri-la.

Felizmente, Hu Shuli – a fundadora e editora-chefe da Caijing, uma revista semanal de negócios – expôs as maquinações dos responsáveis com relativa rapidez. Depois de saber que os pacientes em Pequim tinham febres misteriosas, ela enviou jornalistas para os hospitais para entrevistar os médicos. As divulgações da Caijing ajudaram a forçar os líderes da China a reconhecer a SARS publicamente – o primeiro passo para controlar o vírus. No entanto, quando a SARS foi contida, o vírus já se tinha alastrado a mais de oito mil pessoas em todo o mundo e matado quase 800.

Mas a repressão da liberdade de expressão na China tem uma genealogia ainda mais perturbadora em matéria de saúde pública. Também desempenhou um papel importante ao permitir a devastação causada pelo Grande Salto em Frente de Mao Zedong – a maior calamidade que a China enfrentou desde que o Partido Comunista assumiu o poder em 1949.

Em 1958, Mao decidiu que, para alcançar uma rápida industrialização, os aldeões deveriam ser integrados à força em comunidades, onde executariam tarefas industriais que noutros lugares teriam dependido de máquinas e fábricas. Por exemplo, milhões de aldeões receberam a tarefa de produzir aço em pequenos fornos de quintal, geralmente derretendo implementos agrícolas.

Ao desviar a mão de obra para uma indústria de pequena escala altamente ineficiente, o Grande Salto em Frente destruiu a produção agrícola, resultando numa severa escassez de alimentos, que persistiu mesmo após o término da iniciativa em 1960. Segundo o jornalista chinês, Yang Jisheng, – cujo relato credível sobre a fome resultante, com base em duas décadas de investigação, foi publicado em Hong Kong em 2008 – pelo menos 36 milhões de chineses morreram à fome entre 1958 e 1962.

Tal como o COVID-19,  houve informações vitais sobre as consequências calamitosas do Grande Salto em Frente que foram omitidas desde o início. No início, as autoridades do governo central desconheciam amplamente o desastre ocorrido na zona rural, devido à relutância das autoridades locais em transmitir informações que pudessem ser consideradas críticas a Mao.

Mas mesmo quando os principais líderes da China souberam da fome, eles mantiveram o assunto em silêncio, em vez de pedirem ajuda externa. Proteger a reputação de Mao era a principal prioridade e, dado o extremo isolamento internacional da China na época, o mundo exterior não descobriria a menos que os chineses lhe dissessem.

A opressão da verdade sobre o Grande Salto em Frente persiste até hoje, com os responsáveis do partido a preferirem minimizar a tragédia, retratando-a como resultado de más condições climatéricas. O livro de Yang ainda não pode ser publicado na China continental.

A ligação entre fome e liberdade de expressão não se limita à China. Tal como o filósofo indiano e prémio Nobel de economia, Amartya Sen, observou há cerca de vinte anos, “nunca houve fome na história do mundo numa democracia funcional”. Os líderes que dependem do apoio dos eleitores que têm liberdade de criticar políticas públicas geralmente não são propensos a defender políticas que causem a fome dos eleitores.

Não foi este o caso de, digamos, Zimbabwe, onde cerca de metade da população – cerca de 7,7 milhões de pessoas – actualmente enfrenta uma insegurança alimentar, de acordo com o Programa Alimentar Mundial. Níveis sem precedentes de subnutrição atingem oito dos 59 distritos do Zimbabwe.

Há muito que Zimbabwe é conhecido como “o celeiro de África”, graças ao seu clima relativamente ameno. Mas as alterações climáticas estão a cobrar o seu preço. Para piorar as coisas, décadas de má gestão económica de Robert Mugabe – que prescindiu da responsabilidade democrática durante o seu governo de 37 anos, o qual terminou quando os militares o obrigaram a renunciar em 2017 – produziram uma inflação descontrolada, desemprego elevado, escassez de combustível e falhas de energia prolongadas. Tudo isso piorou significativamente a situação dos Zimbabuanos.

A liberdade de expressão é muito mais do que a dissidência política directa ou a tolerância de ideias, actos ou imagens que consideremos ofensivos. Tal como Sen escreveu em 1990, “um conjunto de liberdades – criticar, publicar, votar – está causalmente ligado a outros tipos de liberdade”, tais como “a liberdade de fugir da fome e da mortalidade por fome”. A essa lista, deveríamos adicionar “a liberdade de evitar a morte pelo vírus COVID-19”.

ARYEH NEIER

Aryeh Neier, President Emeritus of the Open Society Foundations and a founder of Human Rights Watch, is author of The International Human Rights Movement: A History.

 

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