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Estará a América a tornar-se fascista?

24-01-2020 - Daron Acemoglu

O nacionalismo branco está em ascensão nos Estados Unidos. De acordo com a Liga Antidifamação, houve 6768 incidentes de extremismo e antissemitismo (principalmente da direita) nos EUA, em 2018 e 2019. Esse número é significativamente maior do que nos anos anteriores, levando muita gente a concluir que o presidente Donald Trump é o culpado pelo aumento do extremismo nacional.

Desde o lançamento da sua campanha presidencial, em 2015, Trump encorajou abertamente e secretamente os seus apoiantes a praticarem violência. Depois de um supremacista branco, James Alex Fields Jr., atropelar com o seu carro manifestantes que protestavam contra outra manifestação em Charlottesville, Virgínia, matando um e ferindo dezenas, Trump disse abominavelmente que “havia pessoas muito boas nos dois lados”. E não evitou a retórica racista quando descreveu países africanos e até membros do Congresso não brancos.

As palavras de Trump têm consequências. Além do assassino de Charlottesville, vários outros nacionalistas brancos de alto gabarito que cometeram atos de violência ou terrorismo interno disseram que foram inspirados pelo presidente. Estão incluídos Cesar Sayoc Jr., que enviou bombas caseiras a democratas proeminentes, incluindo o ex-presidente Barack Obama e a adversária de Trump em 2016, Hillary Clinton; Robert Bowers, que matou 11 pessoas numa sinagoga em Pittsburgh; e Patrick Crusius, que abateu a tiro 22 pessoase em El Paso. Uma nova investigação levada a cabo pelos economistas Karsten Müller, da Universidade de Princeton, e Carlo Schwarz, da Universidade de Warwick, estabelece um vínculo causal direto entre os tweets antimuçulmanos de Trump e os crimes de ódio antimuçulmanos.

Devido à propensão de Trump de fomentar a violência e distorcer a verdade, muita gente chegou à conclusão de que ele é um fascista. E o pior é que Trump procura deslegitimar instituições democráticas e procedimentos burocráticos imparciais, não apenas para isolar os seus negócios duvidosos e os da sua família, mas como uma estratégia para aumentar o seu poder e a sua autoridade pessoais. Os fascistas italianos e os nazis usaram de forma rotineira estratégias semelhantes a partir da década de 1920.

Mas seria um erro exagerar estas semelhanças. Para começar, o fascismo entre guerras não pode ser entendido sem o desaire do comunismo, que muitos alemães e italianos da classe média consideravam uma ameaça existencial. Atualmente, essa ameaça não existe. A eleição de Obama como primeiro presidente negro dos EUA reforçou o medo dos extremistas de que a população branca dos EUA está a ser “substituída”. Mas essas teorias da conspiração não podem ser comparadas à ameaça mundial real lançada pelo comunismo após a revolução bolchevique da Rússia, em 1917.

Em segundo lugar, na era pós-Primeira Guerra Mundial, os jovens traumatizados, desiludidos e endurecidos pelas batalhas representavam uma parcela significativa da população de muitos países. Embora muitos veteranos do Iraque e Afeganistão tenham sofrido traumas semelhantes (e alguns sejam fortes defensores de Trump), eles não dominam os números nem a influência política que os seus colegas entre guerras tiveram.

Em terceiro lugar, apesar da sua retórica e das tentativas de conseguir ajuda de outros países para a sua campanha de reeleição, Trump ainda não tentou consolidar o seu poder através de meios não eleitorais. Isso pode mudar se perder para o adversário democrata, em novembro. Mas mesmo assim, estaria muito longe do enfraquecimento sistemático dos processos democráticos levado a cabo pelos fascistas de outrora.

Por fim, embora o apoio incondicional do Partido Republicano a Trump seja assustadoramente semelhante ao comportamento dos políticos de centro-direita que apoiaram Benito Mussolini e Adolf Hitler, não há nada exclusivamente fascista em relação a políticos sem princípios que se comportam de maneira desonrosa.

Isto é importante, porque realmente importa se alguém chama Trump de fascista, em vez de aplicar outro rótulo. Indubitavelmente, um segundo mandato de Trump representaria uma crise existencial para as instituições americanas. As forças que dificultaram a sua agenda – mais gravemente, os cidadãos mobilizados – tornar-se-iam menos poderosas à medida que o seu regime se tornasse mais normalizado. As convenções políticas ficariam debilitadas ainda mais radicalmente do que no primeiro mandato de Trump. O esforço contínuo do governo para abolir a competência imparcial da burocracia continuaria inabalável. O sistema político, incluindo o judicial, poderia tornar-se irreparavelmente polarizado.

Mas a polarização partidária e a dizimação de qualquer meio termo para o compromisso são armas fundamentais na guerra pessoal de Trump contra as instituições que pretendem mantê-lo sob controlo. Aqueles que classificam a ele e aos seus apoiantes de fascistas estão apenas a aprofundar a divisão e a deslegitimar as queixas (muitas vezes válidas) de milhões de americanos, a maioria dos quais nada tem a ver com o nacionalismo ou extremismo branco.

As estratégias mais promissoras para resistir e derrotar Trump não se assemelham nada às que foram necessárias para combater os movimentos fascistas do século XX. A partir do momento em que Mussolini e Hitler assumiram o poder, simplesmente não havia como impedi-los trabalhando dentro do sistema Por outro lado, a maneira mais eficaz de combater Trump é através das urnas, como ficou demonstrado nas eleições intercalares para o Congresso de 2018, quando os democratas derrotaram os republicanos para recuperarem a Câmara dos Representantes.

O melhor caminho a seguir, então, é com uma estratégia que atuará em duas frentes. Primeira, os democratas (e todas as outras partes interessadas) precisam de encontrar uma forma melhor de comunicar com os milhões de eleitores que votaram em Trump porque se sentiram – e, em muitos casos, foram mesmo – deixados para trás a nível económico e ignorados a nível político. Qualquer movimento que vire as costas a esses americanos não só reduz as suas hipóteses de conquistar o poder político, mas também aprofunda a polarização que permitiu a Trump ter quase carte blanche para agir. Sim, a maioria dos apoiantes de Trump não mudará facilmente para o candidato democrata em 2020. No entanto, é fundamental que os candidatos democratas reconheçam as preocupações desses eleitores e comecem a construir pontes em direção a eles.

Segunda, os democratas têm de vencer de forma decisiva. Caso contrário, Trump e os seus apoiantes alegarão que as eleições lhes foram roubadas. Uma esmagadora vitória democrata é necessária para sinalizar ao país que a maioria dos americanos se opõe à agenda destrutiva de Trump, ao desrespeito pelas instituições políticas dos EUA e à retórica polarizante.

Não é tarde para fazer face às queixas dos americanos e reconstruir as instituições do país. Mas isso não será possível num ambiente politicamente polarizado e as acusações de fascismo apenas tornarão esse ambiente menos hospitaleiro para os adversários de Trump.

DARON ACEMOGLU

Daron Acemoglu, Professor de Economia do MIT, é co-autor (com James A. Robinson) de Por que as Nações Falham: As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza  e do Corredor Estreito: Estados, Sociedades e o Destino da Liberdade

 

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