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O valor da China global

26-07-2019 - Jonathan Woetzel, Jeongmin Seong

Após quase 40 anos de reformas económicas, a China colheu proveitos extraordinários da sua abertura ao mundo. A integração na economia global – sendo embora um elemento de apoio à mais abrangente viragem histórica do país para os mecanismos de mercado – permitiu que milhões de cidadãos chineses escapassem à pobreza, ao mesmo tempo que transformou a China na maior economia do mundo, em termos da paridade do poder de compra. E o potencial deste envolvimento está longe de se ter esgotado, como demonstra a nossa recente investigação.

Por exemplo, embora a China controle 11% do comércio global de mercadorias, só responde por apenas 6% do comércio global de serviços. Além disso, embora os mercados bancários, de títulos e de obrigações da China estejam entre os três maiores do mundo em termos de dimensão, as entidades estrangeiras são responsáveis por menos de 6% do seu valor. E apesar da China ter 110 empresas na lista Fortune 500 Global, menos de um quinto das suas receitas é registado no estrangeiro, comparativamente a 44% para as empresas S&P 500.

Mesmo antes das tensões comerciais de hoje, o relacionamento entre a China e o mundo já estava a mudar. A exposição relativa da China ao resto do mundo – em termos de comércio, tecnologia e capital – atingiu um máximo em 2007, e tem vindo a decrescer desde então, produzindo uma diminuição global entre 2000 e 2017. Isto reflecte parcialmente a crescente ênfase da economia no consumo interno, uma tendência que se acelerou depois da crise financeira global ter reduzido drasticamente a procura internacional pelas exportações chinesas.

Durante o mesmo período, porém, a exposição do resto do mundo à China aumentou, sublinhando a crescente importância do país enquanto mercado, fornecedor e investidor de capital. Esta divergência reflectirá possivelmente a dinâmica instável que alimenta as tensões comerciais com os Estados Unidos. A mera escala do impacto da China também poderá constituir um factor. Os laços económicos mais estreitos com o mundo alimentaram o crescimento da China, à medida que o país adoptou boas práticas de intervenientes globais e forneceu produtos concorrenciais em termos de custos. Mas também houve perdas, nomeadamente na forma de empregos na indústria, tanto na China como nas economias avançadas.

Em todo o caso, a China e o mundo enfrentam questões importantes sobre a trajectória do seu envolvimento mútuo. Em jogo, segundo a nossa simulação, podem estar entre 22 e 37 biliões de dólares de valor económico – ou 15 a 26% do PIB mundial – até 2040. Salientamos que estas estimativas resultam de uma simulação baseada num conjunto específico de condições e pressupostos, e que não devem ser consideradas como previsões. Por exemplo, para estes cenários partimos de pressupostos sobre o modo como vários factores podiam afectar a produtividade total dos factores na economia. A nossa análise é sensível ao grau de liberalização que poderá ocorrer no sector chinês dos serviços, a aumentos na produtividade do capital como consequência de uma maior globalização financeira, e a melhorias na produtividade decorrentes da transferência de tecnologia. A simulação centra-se nos impactos no longo prazo. Não estamos a tentar prever o resultado dos actuais debates sobre comércio e tarifas aduaneiras. SUBSCRIBE

Englobando menos previsões que possibilidades, a nossa simulação dá uma perspectiva das implicações das escolhas para a China e para o mundo em cinco áreas principais.

1.      Crescimento como destino de importações: a China poderá retirar-se do comércio internacional, e o mundo pode não conseguir reformar o sistema comercial multilateral, fazendo com que os fluxos de comércio globais diminuam. Por outro lado, a China poderá avançar, impondo-se como um destino principal das exportações de economias emergentes e avançadas. O valor total em jogo, segundo a nossa simulação, está entre 3 e 6 biliões de dólares entre o momento actual e 2040.

2.      Liberalização de serviços: a China poderá manter as actuais restrições ao seu sector dos serviços, que criam uma diferença de produtividade relativamente às economias desenvolvidas, ou poderá levantar essas restrições, atraindo mais intervenientes estrangeiros e reforçando desse modo o crescimento e a competitividade global do sector. Aqui poderiam estar em jogo entre 3 a 5 biliões de dólares.

3.      Globalização de mercados financeiros: a China e o mundo poderão integrar os seus mercados financeiros, alargando desse modo as escolhas dos investidores e melhorando a distribuição de capitais, ou poderão manter o status quo, arriscando uma maior volatilidade e um reduzido crescimento da produtividade. Estimamos que possam estar em jogo entre 5 e 8 biliões de dólares em valor.

4.      Colaboração em bens públicos globais: os desafios globais, como as alterações climáticas, e o fornecimento de bens públicos adequados, como as infra-estruturas, dependem da colaboração entre a China e o mundo. Uma colaboração mais ou menos intensa poderia colocar em jogo entre 3 a 6 biliões de dólares, e potencialmente muito mais, já que se prevê que o impacto das alterações climáticas seja muito maior depois de 2040.

5.      Fluxos de tecnologia e de inovação: o aumento dos fluxos de tecnologia (e de conhecimento) entre a China e o resto do mundo apoiaria o desenvolvimento de soluções globalmente competitivas e de melhoria da produtividade; a diminuição desses fluxos comprometeria a produtividade global. O mundo também pode decidir pela promoção de mais ou menos fluxos de tecnologia cada vez mais sujeitos a análises de segurança. Segundo a nossa simulação, podem estar em jogo entre 8 a 12 biliões de dólares, dependendo da medida em que os fluxos de tecnologia libertem inovações e o crescimento da produtividade.

É importante notar que estas escolhas não cabem apenas à China; o mundo também tem de tomar decisões. Por exemplo, ao trabalharem em conjunto para reformar o sistema do comércio global em modos que fortaleçam a resolução de litígios e reforcem a inclusão, os países podem garantir que os benefícios decorrentes do aumento do comércio chinês (e de outros países) sejam globalmente partilhados.

Além disso, se a China se movimentar no sentido de uma maior globalização do seu sector financeiro, o resto do mundo deverá abrir-se ao investimento chinês. E, evidentemente, todos os países devem desempenhar um papel no fornecimento de bens públicos globais; em especial, no que diz respeito às alterações climáticas, devem comprometer-se a atingir marcos específicos e alinhados com as suas capacidades e contribuições para a resolução do problema. Finalmente, os países devem garantir que as suas políticas comerciais e de investimento são conducentes à transferência continuada de tecnologia e conhecimentos.

Ainda há muito a ganhar com a integração continuada da China no sistema global. A questão está em saber se os líderes mundiais farão o que é preciso para promover esse objectivo. Todos os intervenientes deveriam respirar fundo e tentar perceber onde e como promover mais integração, e como lidar com os aspectos mais complexos ou controversos desse desafio.

JEONGMIN SEONG

Jeongmin Seong é membro sênior do McKinsey Global Institute em Xangai.

JONATHAN WOETZEL

Jonathan Woetzel is a McKinsey senior partner, a director of the McKinsey Global Institute, and co-author of No Ordinary Disruption: The Four Global Forces Breaking All the Trends .

 

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