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A forma como os países em desenvolvimento podem obter cobertura universal de saúde

28-06-2019 - Jörg Reinhardt

Praticamente todos os países do mundo comprometeram-se a alcançar a cobertura universal de saúde (UHC) até 2030, como parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Mas alguns países estão a progredir muito mais rapidamente do que outros, proporcionando acesso equitativo não só aos serviços de saúde, mas também a medicamentos e vacinas a preços acessíveis. Entre os países que lideram esse avanço está o Vietname.

Hoje, 87,7% da população do Vietname - ou 83,6 milhões de pessoas - estão   cobertas   pelo seguro de saúde. De acordo com o último Relatório de Monitorização Global sobre a UHC, publicado conjuntamente pela Organização Mundial de Saúde e pelo Banco Mundial, 97% das crianças vietnamitas agorarecebem   a vacinação básica, comparado com os 95% de crianças nos Estados Unidos. Desde 1990 que a taxa de mortalidade materna do país caiu 75%.

O Vietname conseguiu atingir essas metas impressionantes antes do previsto, apesar de ter um rendimento médio   per capita   de apenas 2342 dólares a partir de 2017. A chave para o seu sucesso não é a escala de investimento em cuidados de saúde, que equivale a uns modestos 142 dólares por pessoa e por ano (incluindo financiamento público e despesas próprias), mas sim como o governo utiliza os seus recursos, inclusive o capital intelectual do país.

A abordagem estratégica do Vietname pode ser vista no seu Esquema de Direção de Atividades de Saúde do Ministério da Saúde, que requer instalações de saúde a nível central e regional da administração do governo para ajudar a aumentar a capacidade das instituições distritais e comunitárias. Um dos principais objetivos deste esquema é deslocar a carga da prestação de serviços médicos dos hospitais de nível superior para as instalações de cuidados de saúde primários de nível inferior.

Dada uma longa história de disparidades profundas nos resultados de saúde entre áreas urbanas e rurais, os vietnamitas ainda tentam frequentemente evitar os seus centros de saúde locais em prol dos grandes hospitais nos centros urbanos. Isso cria ineficiências no sistema de saúde e aumenta os custos diretos para os pacientes e as suas famílias, sem garantir o melhor atendimento.

Assim, além de assegurar que as unidades de saúde da comunidade podem oferecer cuidados economicamente acessíveis e de qualidade, há a necessidade de mudar as perceções públicas. As famílias precisam de confiar que podem obter um diagnóstico fiável de malária, doença pulmonar obstrutiva crónica ou diabetes, localmente, bem como medicamentos e outros tratamentos necessários.

Para isso, as unidades de saúde têm de fortalecer as suas relações com as comunidades locais, fornecendo sistematicamente, acima de tudo, um nível de serviços prestados que satisfaça os pacientes. Essas relações ajudarão a promover outro imperativo que reduz os custos e melhora a saúde: os profissionais de saúde locais têm de ter capacidade de educar as respetivas comunidades, para salvaguardar a saúde e evitar doenças. O sucesso exigirá boas condições de trabalho e acesso à formação contínua e ao apoio à gestão, que são essenciais para a satisfação no trabalho.

O governo do Vietname reconhece que, para implementar eficazmente a sua estratégia de saúde, precisa de ajuda. Estabeleceu um novo Grupo de Trabalho para a Transformação de Cuidados de Saúde Primários, liderado pelo Ministério da Saúde do Vietname e inclui diversos atores dos setores público, não lucrativo e privado. Os parceiros fundadores do grupo são o Fórum Económico Mundial, a Harvard Medical School e a Novartis (da qual sou presidente do conselho).

O grupo de trabalho tem como objetivo fortalecer os projetos de demonstração de cuidados primários existentes em 30 províncias vietnamitas e aplicar os ensinamentos obtidos no desenvolvimento de soluções holísticas que possam ser replicadas e ampliadas. Também dará elevada prioridade à medição e avaliação rigorosas dos resultados, desde a qualidade dos serviços de saúde ao nível da comunidade até ao custo-eficácia dos cuidados de saúde primários.

Cada parceiro é convidado a contribuir com competências, recursos e conhecimentos para este esforço. Por exemplo, a Harvard Medical School oferece especialização de classe mundial na gestão organizacional de equipas de cuidados primários de saúde. Parceiros nacionais trazem, entre outras coisas, uma profunda compreensão do contexto local, que é essencial para desenvolver e implementar soluções sustentáveis.

Por sua vez, a Novartis ensina como implantar a tecnologia digital em larga escala, envolver as comunidades rurais na educação em saúde e expandir os programas de educação a profissionais de saúde em comunidades rurais. Na verdade, a Novartis já fez contribuições similares através de outra parceria público-privada de sucesso no Vietname, intitulada Cùng Sông Khòe (CSK).

Realizada em parceria com o governo do Vietname, a Cùng Sông Khòe tem oferecido uma série de serviços a comunidades rurais carentes do Vietname, desde 2012. Essa iniciativa ampliou tanto os cuidados para questões médicas comuns, como diabetes, hipertensão e condições respiratórias, como a educação em saúde do paciente e educação médica contínua para profissionais de saúde. Desde 2012, a CSK chegou a mais de 570 mil pessoas, principalmente adultos, em 16 províncias.

O Vietname tem desafios significativos pela frente. Terá de lidar com fatores comportamentais e ambientais subjacentes a problemas de saúde e doenças, especialmente altas taxas de tabagismo nos homens, altas taxas de consumo de álcool e poluição do ar. O país também tem uma das populações que mais envelhece de forma rápida em todo o mundo.

Além disso, ainda há reformas importantes na área da saúde que têm de ser realizadas para melhorar os resultados. Por exemplo, o governo deveria criar incentivos para os médicos serem mais seletivos no encaminhamento dos pacientes para hospitais de nível superior e enviarem mais pacientes para os centros locais de cuidados de saúde primários.

Não obstante, o progresso do Vietname em direção à cobertura universal de saúde tem sido notável, graças em parte ao facto de o governo ter adotado parcerias estratégicas entre os setores público e privado. Para os países que têm tido dificuldades para seguir em frente, poderá valer a pena adotarem esse modelo - e estratégias de outros países de sucesso na corrida pela UHC, como a Indonésia, o Ruanda e a Tailândia.

JÖRG REINHARDT

Jörg Reinhardt é Presidente do Conselho de Administração da Novartis.

 

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