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As mulheres assediadas da América Central

31-05-2019 - Lauren Hendricks

Nas Honduras, em El Salvador e na Guatemala, as mulheres que tentam escapar à pobreza dando início a pequenos negócios, geralmente descobrem que o sucesso traz mais sofrimento - e não apenas para elas, mas também para os seus filhos. Além de terem de lidar com uma cultura de machismo, a fraca proteção do Estado deixa as mulheres empreendedoras de sucesso vulneráveis a gangues e milícias armados. Tal como disse a proprietária de uma pequena empresa de cosméticos: ”Acho que é melhor que a minha empresa não progrida, porque, se crescer, serei vítima de extorsão”.

Pesquisas recentes confirmam esses medos. A Women and Girls Empowered (WAGE), uma iniciativa localizada nos Estados Unidos para reduzir as barreiras legais, económicas e políticas ao empreendedorismo feminino nos países pobres, promoveu recentemente 27 grupos de discussão nas Honduras e em El Salvador. Muitas das barreiras ao empoderamento económico das mulheres que foram identificadas - tais como, acesso limitado ao crédito, falta de educação financeira e empresarial, direitos de propriedade desiguais e falta de ligação às redes sociais e aos mercados - estão generalizadas a nível global.

Mas as mulheres na América Central enfrentam ameaças adicionais de violência por parte de gangues e atividades criminosas organizadas. As taxas de femicídio – o assassinato de uma mulher ou rapariga por motivos relacionados com o género –atingiram   níveis epidémicos. Nas Honduras, houve 5,8 femicídios por cada 100 mil mulheres, em 2016. Em El Salvador, a taxa é de uns aterrorizantes 10,2 por cada 100 mil. Os gangues também recrutam crianças à força e sujeitam as raparigas a abusos sexuais.

Para as empresárias, a ameaça de danos físicos é agravada pelas exigências de subornos ou   “impostos”   por parte dos gangues. Para evitar atrair a atenção desses grupos, as mulheres renunciam às montras ou à sinalética, gerindo silenciosamente os seus negócios dentro das suas casas e entregando os produtos diretamente aos clientes. Elas viajam para cidades distantes - muitas vezes na calada da noite - para venderem os seus produtos, o que aumenta o risco do negócio e os custos de transporte. Tudo isto limita o potencial de crescimento dos seus negócios.

Mas desistir simplesmente dos negócios também não é uma boa opção. O pequeno empreendedorismo continua a ser um dos poucos caminhos disponíveis para se sair da pobreza na América Central, especialmente para as mulheres, que enfrentam   taxas de desemprego   que são 50% mais altas que as dos homens, em parte devido a normas culturais que impedem o trabalho fora de casa. Tal como uma salvadorenha disse à WAGE:   “O meu marido não gosta que eu trabalhe. Se eu não lhe obedecer, corro o risco de ele abusar de mim” .

Quando a única opção para fugir da pobreza significa colocar um alvo em si e nas costas da sua família, o futuro parece sombrio. Não é de surpreender que muitas mulheres desesperadas da América Central tenham fugido de suas casas - muitas vezes a pé, com os filhos atrás - em busca de segurança e oportunidade nos Estados Unidos. Mas por cada mulher que vai embora, muitas mais ficam para trás, seja na sua cidade natal ou em novas cidades dentro de seu país, onde só podem esperar que o seu novo anonimato ofereça alguma segurança.

A capacidade de receber um rendimento decente e viver em segurança dentro da própria comunidade é vital não apenas para o próprio bem-estar, mas também para o desenvolvimento económico e a estabilidade política. É por isso que as iniciativas que procuram promover o crescimento económico na América Central - ou em qualquer outro lugar para esse efeito- devem abordar diretamente as necessidades das mulheres empresárias.

Embora não haja soluções simples, há medidas promissoras que podem ser tomadas. No centro de qualquer estratégia para melhorar as condições das mulheres empreendedoras na América Central deveriam estar as instituições de microfinanciamento locais.

As mulheres contam com as IMF para muito mais do que o financiamento de empresas em fase de arranque. De acordo com uma pesquisa da WAGE, elas também procuram educação financeira e ajuda para o planeamento de emergência, de forma a facilitar uma partida rápida se necessária - tudo fornecido discretamente.

As IMF devem prestar atenção às necessidades das mulheres empresárias e adaptar os respetivos serviços em conformidade. Por exemplo, devem fornecer produtos financeiros que permitam às mulheres poupar em segredo, escondidos dos olhares curiosos dos seus maridos, dos colaboradores dos seus maridos ou dos membros de gangues. Também ajudaria a existência de produtos de empréstimo que ofereçam taxas de juros mais baixas ou desenvolvam metas específicas, como poupanças para emergências de saúde, incluindo ataques físicos.

Os consumidores mundiais têm também um papel a desempenhar na melhoria das perspetivas económicas das mulheres na América Central. Só nas Honduras operam cerca de 300 empresas internacionais, em setores que vão desde os têxteis até produtos eletrónicos. Os compradores dos seus produtos, nos EUA e noutros lugares, devem potencializar as respetivas carteiras para persuadirem essas empresas a promoverem mudanças nas comunidades onde operam.

Pressionadas ou não pelos seus clientes, as empresas internacionais que operam na América Central devem utilizar a sua influência para exigir que os governos locais e nacionais erradiquem a corrupção que incentiva a impunidade e apliquem leis que protejam mulheres e crianças. Ao mesmo tempo, devem estabelecer parcerias com IMF e organizações da sociedade civil para desenvolverem e levarem a cabo iniciativas de responsabilidade social empresarial que apoiem diretamente as comunidades locais, especialmente as mulheres.

Os governos estrangeiros, começando pelos EUA, devem apoiar o progresso na região, inclusive através da prestação contínua de ajuda. Os investigadores mostraram   que, no meio de graves choques económicos, a ajuda externa pode contribuir significativamente para a prevenção de conflitos. Tendo em conta o poderoso efeito que isso teria sobre os fluxos de migrantes, os EUA deveriam estar motivados a fortalecer os seus esforços para ajudarem a reduzir a pobreza e a violência na América Central.

Na situação atual, as mulheres da região enfrentam uma escolha impossível entre escapar da pobreza e ficar em segurança; em muitos casos, não concretizam nenhuma. Elas têm a garra para construir pequenos negócios, melhorar o bem-estar das suas famílias, impulsionar o crescimento económico local e fortalecer a estabilidade regional. Mas precisam de apoio. Temos de dar-lhes esse apoio.

LAUREN HENDRICKS

Lauren Hendricks é vice-presidente executiva da Grameen Foundation, membro do WAGE Consortium.

 

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