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Más notícias para as mulheres

05-04-2019 - Hannah Storm

Nancy Pelosi é a política eleita com o cargo mais alto ocupado por uma mulher, na história dos Estados Unidos da América. Theresa May é apenas a segunda mulher a ser a primeira-ministra britânica. Amal Clooney é uma advogada de direitos humanos conhecida mundialmente. Serena Williams é, provavelmente, a melhor atleta feminina de todos os tempos.

Todas as quatro estão a ter sucesso em ambientes onde as mulheres que atingem o patamar superior são a exceção e não a regra. No entanto, alguns meios de comunicação social retrataram-nas de uma maneira que sugere que as suas realizações e habilidades são secundárias à sua aparência, idade ou associação a outras pessoas, particularmente a homens que fazem parte das suas vidas.

Veja-se o exemplo de Pelosi, a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA. No dia em que foi eleita para cumprir outra nomeação, o   The New York Times   publicou um   tweet   com uma imagem dela a acompanhar:   “Nancy Pelosi, com um vestido rosa choque, subiu o estrado de mármore no centro da câmara da Câmara para aceitar o martelo de madeira” .   O   tweet foi, mais tarde, apagado, com o   Times   a apelidá-lo de   “mal formulado” . Mas revelou muito sobre o sexismo, implícito ou evidente, que ainda existe no coração da indústria da comunicação social.

Theresa May tem sido uma das principais mulheres líderes na política, da Europa, durante a maior parte da década passada. No entanto, estando a comunicação social britânica há muito tempo fascinada pelo seu amor pela moda, dedica uma grande parte dos seus textos e fotos às suas escolhas de vestuário e predileção por sapatos, em vez de se concentrar nas suas decisões políticas. O efeito subconsciente da mensagem é diminuir o papel de May como mulher num mundo dominado por homens.

Clooney sabe exatamente como é ser julgada(o) por associação. Em agosto de 2015, a Associated Press   publicou um   tweet   que dizia: “Amal Clooney, esposa do ator, representa jornalista da Al-Jazeera acusado no Egito de ligações com extremistas” .O   tweet   foi alvo de críticas generalizadas e a AP, posteriormente, referiu-se a ela como advogada de direitos humanos. Mas o episódio ressaltou a obsessão da comunicação social pelo   “clickbait”   e a necessidade de mais meios de comunicação social pensarem melhor antes de publicarem fotos ou palavras que reforcem os estereótipos de género ultrapassados.

Williams ganhou um recorde de 23 títulos do Grand Slam, mas alguns meios de comunicação perpetuaram o sexismo e o racismo que ela enfrentou dentro do antiquado mundo do ténis, dominado por homens. Em setembro passado, iniciou-se um tumulto na comunicação social, após Williams ter perdido a final do US Open e ter acusado as autoridades da modalidade de tratá-la com mais severidade do que aos homens. O árbitro tinha-a penalizado por receber sinais do treinador que estava nas bancadas, por partir a raquete dela e por chamá-lo de   “ladrão” .

Alguma da subsequente cobertura feita pela comunicação social reduziu Williams ao tropo de   mulher negra zangada   e uma caricatura da sua explosão no jornal   Herald Sun , em Melbourne, na Austrália, provocou uma reação furiosa de críticos que a consideraram racista e ofensiva. O jornal defendeu a caricatura como sendo uma sátira e disse que os críticos estavam a ser politicamente corretos.

Billie Jean King, que ajudou a dar início aos torneios de ténis femininos, posteriormente   agradeceu a Williams   , através do Twitter,   “por ter chamado à atenção este padrão duplo” , segundo o qual as mulheres são frequentemente descritas como “histéricas” , enquanto os homens que se comportam da mesma maneira são   “sinceros”.   Ao continuar a usar esses termos, a comunicação social reforça a mensagem de que as mulheres e as raparigas não se devem empenhar para obterem posições de liderança e que ainda precisam de superar muitas barreiras para alcançarem o seu potencial no mundo dos homens.

Embora deprimente, o retrato sobre as mulheres desenhado pela comunicação social não é surpreendente, dado o desequilíbrio de género na indústria. De acordo com o Global Media Monitoring Project, que produz um   relatório quinquenal   sobre o género nas notícias, a representação das mulheres na comunicação social mudou pouco nas últimas duas décadas. As mulheres ainda raramente ocupam posições de poder nas redações e as jornalistas tendem a abordar tópicos menos sérios do que os seus colegas do sexo masculino. Além disso, as mulheres são objeto de menos reportagens e as especialistas são ultrapassadas em número, como fontes, pelos seus colegas do sexo masculino em quase todos os campos.

Mas nem tudo é desgraça e pessimismo. Nos últimos anos, alguns meios de comunicação de alto gabarito reconheceram as suas falhas e procuraram corrigir os desequilíbrios sistémicos. A Bloomberg e o   The Wall Street Journal , entre outros, estão empenhados em aumentar o número de mulheres em cargos de liderança, bem como melhorar as condições das trabalhadoras e a cobertura editorial das mulheres.

Noutro lado, o Women’s Media Center dirige a   SheSource, uma base de dados de especialistas do sexo feminino para jornalistas. Sediada na Polónia, aNewsMavens   produz um resumo semanal das notícias escolhidas por mulheres para contrabalançar a perspetiva dominada pelos homens que prevalece na comunicação social, enquanto o   The 51%   da France 24 é um programa semanal que mostra quase exclusivamente mulheres e como elas estão a reformular o mundo.

Mas por todos os meios de comunicação que trabalham para mudar a narrativa de género, há outros tantos que permanecem lamentavelmente sexistas. Ainda temos um longo caminho a percorrer até que a comunicação social faça coberturas sobre mulheres de forma equilibrada e coloque finalmente de lado velhos estereótipos.

A comunicação social tem a responsabilidade de refletir a sociedade não apenas como é, mas também como deveria ser. Isso significa mais reportagens sobre mulheres - particularmente nos setores dominados pelos homens - e retratá-las da mesma forma que retratam os homens. Caso contrário, essas mulheres bem-sucedidas não serão reconhecidas como modelos a imitar. Afinal de contas, não podemos ser aquilo que não vemos.

HANNAH STORM

Hannah Storm is outgoing Director of the International News Safety Institute and will soon be taking up the position of CEO of the Ethical Journalism Network.

 

 

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