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Segunda-feira 15 de Julho de 2019  
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A arriscada atracção do jornalismo pela tecnologia

22-03-2019 - Alexandra Borchardt

A tecnologia deveria resolver alguns dos maiores problemas do mundo. Liguem-se todas as pessoas à Internet, supunha-se, e a democracia avançaria. Recolham-se dados suficientes, e todas as nossas perguntas seriam respondidas. Ponha-se tudo on-line, e os algoritmos fariam o resto. O mundo governar-se-ia praticamente sozinho.

Em vez disso, sabemos hoje que a tecnologia digital pode ser usada para comprometer a democracia; que suscita mais perguntas do que as que responde; e que um mundo que se governa sozinho parece-se mais com um cenário de pesadelo Orwelliano do que com um objectivo nobre. Mas embora a tecnologia não seja a solução, também não é o problema: o problema é o modo obstinado como nos focamos nela.

Consideremos a experiência da indústria da comunicação, onde a revolução digital lançou o caos sobre os modelos de negócio predominantes durante a última década. Os redactores e editores responderam colocando toda a sua fé na tecnologia: monitorizando todo o tipo de métricas, adoptando o jornalismo dos dados, contratando equipas de vídeo e inaugurando estúdios para   podcasts .

Mais recentemente, as entidades da comunicação social transferiram a sua atenção para soluções de inteligência artificial que monitorizam as preferências do público, produzem automaticamente conteúdos e traduções pretendidos, alertam os jornalistas para notícias de última hora, e muito mais. No último relatório anual do Reuters Institute for the Study of Journalism sobre tendências da comunicação social, 78% dos inquiridos num inquérito não representativo a líderes de meios de comunicação internacionais disseram que planeavam investir mais em IA este ano.

Mas a última fronteira na demanda pela salvação do jornalismo, muitos acreditam, é a   blockchain   – a tecnologia de registo distribuída em que se apoiam as criptomoedas como a Bitcoin. Isso ainda está por demonstrar: a primeira tentativa de aproveitamento da   blockchain   para libertar os jornalistas dos modelos de negócio centrados na publicidade, pela Civil Media Company, teve um início acidentado.

Não há nada de errado com a utilização da tecnologia para resolver problemas, incluindo os que são criados pela tecnologia, ou para conferir uma vantagem competitiva a uma empresa. É isso que o   The Washington Post , por exemplo, tem feito nos seis anos desde que o CEO da Amazon, Jeff Bezos, o adquiriu (num momento em que estava a ser sangrado de dinheiro e a perder empregos).

Mas nem mesmo a tecnologia mais avançada salvará a indústria da comunicação, ou qualquer outra pessoa, se não houver consideração pelas pessoas que a utilizam. E isso não significa apenas os públicos. Depois de anos a perseguir as últimas tendências tecnológicas, a indústria da comunicação é crescentemente confrontada com o esgotamento da gestão e dos profissionais existentes, e com uma reserva cada vez menor de novos talentos.

Segundo o relatório do Reuters Institute, cerca de 60% dos líderes da comunicação social estão preocupados com o esgotamento no seio das suas equipas, e 75% preocupam-se hoje com a retenção e captação de pessoal. Um outro relatório, Going Digital. A Roadmap for Organizational Transformation, desenvolvido por Lucy Keung, demonstra que são as chefias intermédias, em especial, que têm abandonado o sector.

Isto não deveria constituir surpresa. Os jornalistas sempre enfrentaram pressões para gerir a produção continuada de situações noticiosas atempadas, exigentes, e em constante mutação. Mas, no passado, poderiam ao menos contar com as organizações noticiosas que os empregavam para terem estabilidade e consistência. Hoje, têm também de navegar por uma mudança organizacional incessante e centrada na tecnologia – muitas vezes mal explicada e precipitadamente introduzida. O nível de incerteza pode afastar até o pessoal mais dedicado.

É verdade que a mudança é inevitável; a era digital exige adaptação constante. Mas proceder aos ajustes necessários sem destruir o moral requer a implementação de uma abordagem orientada para as pessoas. Este processo não é simples. Para as soluções tecnológicas, os gestores podem participar em reluzentes conferências digitais, ouvir alguns conselhos de equipas de vendas, assinar um contrato, e despejar as novas ferramentas nas suas redacções. Com as pessoas, terão de escutar cuidadosamente, adquirir uma compreensão profunda do problema, e seguidamente desenvolver a sua própria estratégia.

Um bom sítio para começar é pela liderança. Em qualquer sector, as principais responsabilidades dos líderes das organizações incluem garantir que os seus funcionários se sentem seguros e reconhecidos. Isto significa prestar atenção às necessidades dos empregados e promover uma cultura organizacional que lhes confira um sentido de pertença e de finalidade.

Terá de aplicar-se uma abordagem semelhante aos públicos. Nem mesmo as métricas mais exactas podem fornecer as orientações necessárias, se ninguém compreender o que querem realmente dizer, porque foram escolhidas, ou mesmo qual seria o seu impacto psicológico (sobre os públicos ou o pessoal). Embora os dados possam proporcionar perspectivas úteis sobre as preferências do público, ouvir as pessoas pode levar a impressões e conclusões muito diferentes.

Por exemplo, os dados podem mostrar que mais conteúdos significam mais visualizações de páginas; mas se o público quiser menos distracções e mais informações de maior qualidade, inundar o mercado com conteúdos produzidos por robôs não o satisfará. Do mesmo modo, os utilizadores podem clicar numa maior porção de artigos se forem usados algoritmos para personalizar a sua experiência; mas se os utilizadores se aborrecerem pelos mesmos tópicos e perspectivas, a personalização não ajudará.

As soluções baseadas na tecnologia são um meio, e não um fim. É por isso que o   The New York Times , por exemplo, está a aproveitar o seu êxito digital para investir mais no jornalismo. No ano passado, a empresa contratou 120 novos redactores, levando o número total de jornalistas aí empregados ao máximo histórico de 1600.

Para organizações sem a influência – e as receitas digitais – do   Times , também poderá ser necessária uma abordagem orientada para as pessoas para assegurar o investimento. Com os limites do modelo de negócio baseado na publicidade a tornarem-se cada vez mais aparentes, muitos líderes da comunicação social – perto de um terço, segundo o inquérito do Reuters Institute – acreditam que no futuro as fundações e as organizações não lucrativas desempenharão um papel central no apoio à comunicação social.

Mas convencer as fundações e os filantropos a abrirem os seus corações e carteiras exigirá envolvimento e ligação humana, e não algoritmos nemsoftware   dotado de IA. Os potenciais financiadores têm de ser convencidos de que o jornalismo é uma causa tão nobre quanto, digamos, a investigação oncológica.

A tecnologia por si só não consegue encorajar a democracia, ajudar a responder a questões importantes, e a promover a liderança eficaz através do reforço da responsabilização. Mas, até um determinado ponto, o jornalismo responsável e de alta qualidade consegue fazê-lo. Contudo, para que cumpram esse objectivo, as organizações noticiosas não deverão deixar-se levar por cada nova tendência tecnológica. Se tratarem a tecnologia como mais do que uma ferramenta para implementar estratégias centradas nas pessoas, as pessoas de que necessitam – profissionais e públicos – continuarão a votar com os pés.

ALEXANDRA BORCHARDT

Alexandra Borchardt é Directora de Programas de Liderança do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo.

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