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O próximo capítulo do Afeganistão

15-03-2019 - Dhruva Jaishankar

A história geopolítica recente do Afeganistão pode dividir-se em cinco fases. Mas encontra-se agora à beira de mais uma transição, e as características da nova fase ainda precisam de ser avaliadas.

Durante a primeira fase, de 1974 a 1979, o Paquistão começou a acolher e a treinar Islamitas para mobilização contra o governo de Mohammed Daoud Khan. Depois, entre 1979 e 1989, o Paquistão, os Estados Unidos e a Arábia Saudita financiaram, treinaram e armaram os   mujahideen   que lutaram contra as tropas soviéticas. Entre 1989 e 1996, o Afeganistão passou por uma transição, enquanto os senhores da guerra regionais ganharam poder, se aproximaram de Cabul, e depuseram o presidente Mohammad Najibullah. Entre 1996 e 2001, o governo Talibã conduziu a um período de selvajaria gratuita e – com as excepções do Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – de isolamento diplomático.

A quinta fase iniciou-se em 2001, no seguimento dos ataques do 11 de Setembro. Desde então, os EUA envolveram-se numa guerra de apoio a um governo afegão fragmentado contra os ressurgentes Talibã, apoiados pelo Paquistão. A sexta fase suscita duas perguntas: os EUA perderam a guerra no Afeganistão? E, em caso afirmativo, porquê?

A resposta à primeira pergunta é simultaneamente sim e não. Os EUA não conseguiram erradicar os Talibã do Afeganistão nem afastar completamente a possibilidade do país se tornar novamente um refúgio para terroristas. As negociações de paz em curso com os Talibã e a iminente redução da presença militar dos EUA no país reconhecem claramente esta situação. O público americano está cansado da guerra, e o presidente Donald Trump está empenhado em declarar o fim do maior conflito internacional na história dos EUA antes das eleições presidenciais de 2020.

Ao mesmo tempo, os EUA alcançaram muitos dos seus objectivos principais iniciais. Os Talibã foram expulsos de Cabul e, apesar das actuais negociações de paz, o seu regresso incontestado permanece incerto. Osama bin Laden foi abatido no vizinho Paquistão, o líder Talibã Mullah Omar morreu na clandestinidade, e o seu sucessor, Mullah Akhtar Mansour, foi abatido por um ataque de   drones   dos EUA no Paquistão, em 2016. Um semblante de estado funcional – que inclui um governo nacional e umas forças armadas – é hoje uma realidade, ainda que imperfeito. E o Paquistão continua sujeito a pressões para corrigir o que fez.

Mas, globalmente, as coisas não correram conforme o planeado para os EUA devido a quatro motivos principais. Primeiro, e de modo mais óbvio, cometeram erros políticos, provocados em grande medida por ignorância e arrogância, mesmo que só frequentemente visíveis em retrospectiva. Depois de 2001, os EUA impuseram ao Afeganistão um governo de tipo presidencial, com sistemas de controlo inadequados. Depois de 2003, os decisores políticos distraíram-se com o conflito inicialmente mais intenso no Iraque e desviaram recursos e atenção do Afeganistão. Além disso, não prestaram atenção suficiente aos anos iniciais da construção das Forças de Segurança Nacionais Afegãs (ANSF). Adicionalmente, os esforços de democratização foram principalmente descendentes, em vez de ascendentes, e as eleições eram frequentemente marcadas antes de estarem implementadas as adequadas instituições políticas.

O segundo conjunto de erros foi de natureza militar. Depois de 2008, os planeadores militares dos EUA acreditavam que uma abordagem contra-insurreição funcionaria. Mas uma “ofensiva” do tipo da que inicialmente reduziu a violência no Iraque falhou no Afeganistão por vários motivos.

Para começar, os EUA não conseguiram cooptar adversários decisivos, como tinham feito com as milícias sunitas no Iraque a seguir ao “Despertar de Anbar”. Além disso, não tinham solução para os refúgios transfronteiriços no Paquistão, de onde as forças Talibã poderiam conspirar e lançar ataques continuados, e sobrestimaram os desafios da governação no Afeganistão, que tinham raízes muito mais profundas que no Iraque, e que dificultavam muito mais o desenvolvimento e a construção do estado. Igualmente, quando o então presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou a ofensiva contra o Afeganistão, enfraqueceu o esforço ao definir um calendário para a retirada. Esse erro, até Trump foi suficientemente sábio para não o cometer.

Os EUA também não aprenderam com os erros do seu passado. Análises abrangentes da política afegã, realizadas pelos EUA, que produziam recomendações desagradáveis ou ineficazes, deram lugar a análises abrangentes que produziam resultados igualmente desagradáveis ou ineficazes. Em especial, sucessivos governos, chefes militares e diplomatas dos EUA acreditavam que a compra da colaboração táctica do Paquistão, através de ameaças, ajuda ou apoio militar, poderia ser sustentável. A indisponibilidade para abordar directamente o apoio do Paquistão ao terrorismo baseava-se na preocupação dos EUA – real ou empolada – quanto ao programa de armas nucleares do país. Em consequência, durante anos, muitos legisladores dos EUA convenceram-se que o caminho para a paz no Afeganistão assentava por pressionar a Índia a resolver a disputa de Jammur e Caxemira, aliviando de certa forma as inseguranças do Paquistão.

Finalmente, os EUA foram vítima da sua própria propaganda. Consideremos, por exemplo, a noção do Afeganistão como “cemitério de impérios”, que reflectia o esforço da Inglaterra dos fim do século XIX em explicar as suas derrotas na Primeira Guerra Anglo-Afegã e a emergência do Afeganistão como uma zona-tampão entre os impérios Britânico e Russo. Foi mais tarde propagada pelos EUA, pelo Paquistão e por outros países na década de 1980, e acompanhou o apoio aos anti-soviéticos   mujahideen   afegãos. Mas a realidade é que o Afeganistão (ou partes do mesmo) fez parte, em vários momentos, dos impérios Cuchano, Helenístico, Persa, Mongol e Sique, e esteve no centro dos impérios Gaznávida e Durrani.

Dada a sua localização na encruzilhada da Ásia, o Afeganistão continuará a interessar ao Irão, à Rússia, à China, ao Paquistão e à Índia. E enquanto grupos terroristas puderem treinar e agir internacionalmente a partir do Afeganistão e do Paquistão, os EUA e a Europa também terão interesse continuado no futuro do país. Para avaliar esse futuro, será importante reflectir sobre o passado recente, para quebrar o ciclo de lições não aprendidas que levaram o Afeganistão e os seus interlocutores a este ponto

DHRUVA JAISHANKAR

Dhruva Jaishankar é bolsista de Estudos de Política Externa na Brookings India em Nova Delhi e na Brookings Institution em Washington, DC.

 

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