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Ajudar as mulheres a quebrar o “código das exportações”

15-03-2019 - Arancha González

Quando me encontrei pela primeira vez em 2014 com Chiedza Makonnen, uma estilista de Accra, as suas vendas para além do Gana eram mínimas. Mas hoje, a marca de Makonnen, Afrodesiac Worldwide, aparece nas passadeiras vermelhas de Hollywood e nos palcos do Essence Festival em Nova Orleães. Como Makonnen quebrou o “código das exportações”, a sua empresa aumentou a produção, triplicou o seu pessoal, e expandiu grandemente o seu perfil nos   media .

Quebrar o código das exportações significa ultrapassar a noção de que as empresas detidas e geridas por mulheres não podem ser globais, porque o cumprimento das normas exigidas ao comércio internacional é demasiado desafiante e dispendioso. É amplamente assumido (embora não seja directamente declarado) que as empresas detidas por mulheres enfrentam maiores riscos, e por conseguinte são menos atraentes para os investidores. Mas tal como as mulheres de há 50 anos atrás queimaram os seus sutiãs para destruir um símbolo de opressão, as mulheres de hoje devem destruir as barreiras que as impedem de praticarem livremente o comércio na economia global.

É verdade que, neste Dia Internacional da Mulher, as mulheres de muitos países estão em melhor situação e têm mais oportunidades do que tiveram as suas mães e avós, graças a melhorias significativas no acesso à educação e à saúde. Mas persistem lacunas importantes, e, dado o ritmo lento e desigual do progresso, não há espaço para a complacência.

Segundo o Fórum Económico Mundial, a eliminação do fosso global entre géneros em 106 países demorará 108 anos se continuarmos ao ritmo actual de alterações; na África subsaariana, onde o problema é mais grave, demorará pelo menos 135 anos. E o maior fosso de todos é o económico: estima-se que a sua eliminação demore 202 anos.

A desigualdade de género é um problema verdadeiramente global e que persiste até nos países com maior paridade de género. Mesmo assim, há algumas luzes brilhantes que podem guiar outros. Na Noruega, por exemplo, são hoje ocupados por mulheres os três cargos governamentais mais destacados (primeira-ministra, ministra das finanças, ministra dos negócios estrangeiros) pela primeira vez na história do país. No Ruanda, as posições ministeriais estão perfeitamente equilibradas entre os géneros, e 61% dos parlamentares são mulheres. E em Barbados, uma mulher é agora primeira-ministra pela primeira vez.

Infelizmente, a actividade comercial e empresarial parece ficar atrás da política. Apesar da pioneira legislação de 2007 na Noruega, que exige a atribuição a mulheres de 40% dos lugares em conselhos de administração, as mulheres ainda ocupam um número desproporcionalmente reduzido de posições executivas. No sector e no sector privado noruegueses, menos de um quarto dos gestores seniores são mulheres; e em 2017 apenas 15 de entre 213 empresas cotadas eram presididas por mulheres.

É verdade que o Índice de Igualdade de Género da Bloomberg para 2019, calculado a partir de empresas em 36 países, sugere que as empresas estão a esforçar-se por garantir que as mulheres chegam aos níveis executivos e à administração. Porém, a triste verdade é que as mulheres permanecem à margem da economia na maior parte dos países do mundo.

A marginalização económica das mulheres é um problema para todos. Segundo o Banco Mundial, os rendimentos ao longo da vida dos homens excedem em mais de 23 000 dólares os das mulheres, em média, implicando que 160 biliões de dólares em riqueza de capital humano – o equivalente a dois anos de PIB global – são simplesmente desaproveitados. A inclusão de mil milhões de mulheres que permanecem à margem da economia formal em todo o mundo seria como acrescentar outra China e outros Estados Unidos. Como eu e muitos outros defensores da igualdade de género temos dito repetidamente nos últimos anos, “não se pode ganhar a partida com metade da equipa no banco”.

No International Trade Center, trabalhamos para permitir que as mulheres quebrem o código das exportações e se juntem aos homens como intervenientes iguais no campo económico global. A nossa investigação em 25 países conclui que apenas uma em cada cinco empresas exportadoras é detida por mulheres, devido a uma significativa discriminação de género.

Com a Iniciativa SheTrades do ITC, esperamos ligar três milhões de empreendedoras a mercados globais. Makonnen é apenas uma das muitas mulheres que já beneficiaram com o programa. Outras há como Sonia Mugabo do Rwanda, que a   Forbes Africa incluiu na sua lista de jovens empreendedoras promissoras, e Anyango Mpinga, que é hoje uma das principais estilistas do Quénia.

O êxito na criação de moda não é a única coisa que estas três mulheres têm em comum. Antes de se inscreverem na Iniciativa SheTrades, todas se depararam com barreiras relacionadas com o género quando tentaram ampliar as suas empresas. Mas milhões de outras empreendedoras ainda têm de quebrar o código das exportações. Se as barreiras que enfrentam não forem resolvidas, nunca chegaremos à igualdade entre géneros durante a nossa vida.

Garantir a participação plena das mulheres no comércio global não é apenas uma questão moral. Também é um imperativo económico, porque os sectores exportadores dinâmicos melhoram a competitividade e criam empregos mais bem remunerados. E mesmo não existindo soluções mágicas, a Iniciativa SheTrades e programas semelhantes demonstram que isso pode ser feito. Com a implementação das políticas certas, tanto os homens como as mulheres serão beneficiados.

O primeiro passo consiste em munir as empreendedoras com as ferramentas, competências e confiança necessárias para quebrar o código das exportações. Quando conseguirem fazer isso, não há limite para o que poderão alcançar.

ARANCHA GONZÁLEZ

Arancha González é diretora executiva do International Trade Center, agência conjunta das Nações Unidas e da Organização Mundial do Comércio.

 

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