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Um populismo melhor

08-03-2019 - Raghuram G. Rajan

O sucesso económico das democracias liberais no pós-guerra não foi apenas consequência do florescimento dos mercados. Os Estados Unidos e os países europeus também incorporaram os mercados numa estrutura que permitiu às pessoas tirar o seu máximo proveito. Essa estrutura está a desmoronar-se, energizando os líderes populistas da esquerda e da direita. Embora façam as perguntas certas, eles raramente têm as respostas corretas. Talvez, em vez disso, devessem facilitar às pessoas a criação das suas próprias soluções.

Porque é que a estrutura do pós-guerra está a desmoronar-se? Na era imediata pós-guerra, um sistema formidável de educação secundária nos EUA preparou os estudantes para trabalharem ou estudarem nas melhores universidades do mundo. Os alunos entraram no mercado de trabalho com as competências necessárias para conseguirem bons empregos. O rápido crescimento económico e um nível de regulamentação relativamente leve incentivaram muitos a iniciarem as suas próprias empresas. Políticas flexíveis de mercado de trabalho permitiram que os trabalhadores demitidos encontrassem rapidamente um emprego noutro lugar. As recessões, quando chegaram, eram superficiais e breves.

A extraordinária preparação dos americanos “pré-comercialização” através do sistema educativo, e as muitas oportunidades económicas que têm à sua disponibilidade, permitiram que os EUA funcionassem com proteções sociais relativamente limitadas contra a volatilidade do mercado. O seguro de desemprego era modesto, enquanto muitas pessoas não tinham cobertura de serviços de saúde - mesmo após a introdução de regimes de seguros apoiados pelo governo federal para idosos e pessoas muito pobres na década de 1960.

O sistema de educação da Europa continental começou a um ritmo muito distante. Em 1950, o homem médio francês completava, em média, apenas 4,75 anos de escolaridade (um nível semelhante ao de Mianmar, hoje), em comparação com os oitos anos nos EUA. Mas a Europa diminuiu a distância e também criou fortes proteções no trabalho e redes de segurança social. De certa forma, a Europa compensou a sua, inicialmente, menor preparação “pré-comercialização” com um apoio “pós-comercialização” mais forte. Ambos os sistemas funcionaram bem nas décadas do pós-guerra.

Infelizmente, o crescimento estagnou no início da década de 1970. As democracias capitalistas do Ocidente reagiram com uma maior liberalização nacional e uma integração económica mais profunda entre elas. Embora os EUA enfatizassem a primeira e a Europa continental a segunda, os dois sistemas também convergiram um pouco. Em particular, a Europa melhorou o seu apoio pré-comercialização ao desfazer parte da sua proteção pós-comercialização, que era cada vez mais inacessível numa época de crescimento lento.

No entanto, o crescimento nunca regressou aos níveis inebriantes das décadas do pós-guerra. E, mais recentemente, a revolução tecnológica automatizou muitos empregos bem remunerados, mas rotineiros, e contribuiu para a terceirização de postos de trabalho de rendimento médio na indústria. Os trabalhos bem remunerados de hoje exigem mais competências e, portanto, mais apoio pré-comercialização.

Lamentavelmente, esse apoio tornou-se muito menos igualitário nos EUA. As comunidades urbanas e suburbanas bem-sucedidas dão às crianças as capacidades de que precisam para terem sucesso, enquanto as comunidades das áreas semi-rurais em declínio e os guetos urbanos não dão. Durante décadas, os EUA tentaram melhorar as escolas em dificuldades. Mas a crescente segregação de rendimentos torna a tarefa mais difícil. À medida que os profissionais evadem-se com os seus filhos para comunidades bem-sucedidas de classe média alta, os altos custos de vida e dos imóveis mantêm os restantes longe deles. As procuras do mercado estão a criar uma meritocracia, mas uma meritocracia hereditária, onde os filhos dos bem-sucedidos são mais propensos a ter sucesso.

A desigualdade da qualidade da escolaridade é também um problema crescente na Europa mais igualitária, à medida que os imigrantes se deslocam para comunidades acessíveis de classes trabalhadoras. Uma vez que as crianças imigrantes geralmente precisam de se ajustar a um sistema escolar diferente e a um novo idioma, elas quase inevitavelmente necessitam de uma atenção desproporcional dos professores e dos funcionários da escola, à medida que vão pondo as coisas em dia. Isso também afeta negativamente a experiência dos alunos existentes e cria um ímpeto para a população com condições financeiras em ascensão deixar a comunidade.

A relativa escassez de oportunidades para os que ficaram para trás é provavelmente agravada pelo crescimento de empresas superestrelas, o que coincidiu com uma desaceleração na criação de   start-ups   e iniciativas empresariais nos EUA. Empregos em empresas superestrelas exigem competências superiores. A promessa da Amazon de criar milhares de empregos na sua programada nova sede em Queens, Nova Iorque, foi menos atrativa para a comunidade local do que os números dos títulos da imprensa sugeriram, porque muitas das melhores posições estariam fora do alcance da maioria da comunidade. Os políticos democratas progressistas mobilizaram-se contra a Amazon, que agora   abandonou os seus planos.

Os populistas de esquerda reagiram ao declínio no apoio pré-comercialização ao seu eleitorado natural, pedindo acréscimos à rede de segurança, tais como cuidados de saúde universais (nos EUA), garantias de emprego e formas de rendimento básico universal. A direita populista vê essas propostas como uma ameaça, porque elas irão corroer a sustentabilidade da rede de segurança existente para a maioria nativa.

A resposta dos populistas de direita ao declínio da comunidade é culpar os imigrantes e outras minorias, bem como o comércio. É verdade que manter os imigrantes longe pode, inicialmente, reduzir a pressão sobre as escolas e serviços nas comunidades da classe trabalhadora. A longo prazo, no entanto, privará essas áreas da juventude, energia e eventual revitalização que os imigrantes trazem. E embora a esquerda populista apoie a imigração como sendo essencial para sustentar novos programas de assistência social, ela tende a simpatizar com o direito ao protecionismo comercial.

Infelizmente, o protecionismo   “prejudicar o próximo”   tornará o mundo mais pobre. As comunidades em declínio necessitam urgentemente de formas alternativas de atrair novas atividades económicas e de tornar os seus cidadãos mais capazes de responder à globalização e às mudanças tecnológicas.

As capitais estão frequentemente muito distantes das preocupações locais, e demasiado paralisadas pelos conflitos internos, para assumirem a liderança. O que é necessário são soluções locais, implementadas com conhecimento e envolvimento da comunidade, e apoiadas pelos governos nacionais com financiamento e supervisão ligeira, quando necessário.

Se essas medidas puderem melhorar a preparação pré-comercialização para as pessoas de comunidades em dificuldades, o aumento da rede de segurança pós-comercialização tornar-se-á menos necessário e mais acessível. Não faria sentido evitar as grandes políticas centralizadas da esquerda e da direita populistas e, em vez disso, depositar mais confiança nas comunidades locais? Isso seria uma ideia verdadeiramente populista.

RAGHURAM G. RAJAN

Raghuram G. Rajan, foi Governador do Banco a India de 2013 a 2016, é professor de finanças na Booth School of Business da Universidade de Chicago e autor, mais recentemente do livro, O Terceiro Pilar: como os mercados e o Estado deixam a comunidade para trás.

 

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