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Qual o futuro do multilateralismo?

22-02-2019 - Ben Knight

Maior conferência global sobre segurança foi dominada pelo medo da fragmentação, em meio a nacionalismo e populismo. Trump foi eixo central.

A Conferência de Segurança de Munique deste ano foi marcada pelo medo: o que acontecerá se a “ordem liberal mundial” falhar? Embora ele não esteja aqui, o fantasma de Donald Trump assombra os estreitos corredores do hotel Bayerische Hof de Munique.

Na medida em que ele retira os Estados Unidos de acordos e tratados multilaterais conquistados a muito custo, encerra décadas de normas diplomáticas cuidadosamente calibradas com uma mensagem tarde da noite no Twitter, o decoro confortável da conferência deu lugar a uma nuvem pesada.

Isso ficou claro durante o programa principal da conferência, na sexta-feira, quando o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, se exasperava cada vez mais ao afastar versões diferentes da mesma pergunta: você ainda realmente acha que Trump acredita na Otan?

“Sempre que falo com o presidente Trump, ele diz-me que gosta da Otan! E não só que ele gosta da Otan, mas que é 100% a favor dela”, foi uma das respostas.

Em discurso no sábado, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, repreendeu o espírito trumpista – sem citá-lo nominalmente – ao declarar que todas as crises do mundo se resumiam a uma única pergunta: acreditamos no multilateralismo, por mais difícil que ele seja, ou não?

“Quem pode juntar as peças dos quebra-cabeças do mundo? Só todos nós, juntos”, concluiu ela, em meio a uma onda de excitação audível na plateia.

Esse tema foi abordado por Yang Jiechi, diretor da Comissão dos Negócios Estrangeiros da China, que passou do mandarim para o inglês para proferir a parte essencial do seu discurso:

“A história nos diz que só podemos realizar os sonhos do nosso povo de uma vida melhor se defendermos a multilateralidade e reforçarmos a cooperação global”, disse.

Entre os americanos, coube ao senador republicano Lindsey Graham, do Comitê de Relações Exteriores do Senado, defender o estilo de Trump.

“O presidente pode ser difícil”, disse ele à grande sala de conferências, tomada por muitos dos principais diplomatas do mundo. “Mas todos vocês também são às vezes.” Ele prosseguiu explicando que, quando Trump diz “America First”, tudo o que ele realmente quer dizer é “divisão de responsabilidades” entre os aliados dos EUA.

Apesar das dúvidas sobre o compromisso dos EUA com o multilateralismo, houve quem em Munique insistisse que ainda há uma rede saudável de países ocidentais que defendem os valores liberais, e isso constitui por si só uma distinção ideológica.

“O que nos une é o compromisso com a democracia, o Estado de Direito, eleições livres, tolerância religiosa, direitos iguais para mulheres e homens”, disse David McAllister, antigo governador do estado alemão da Baixa Saxônia e agora presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu. “Representamos interesses que são guiados por valores, que nos distinguem de outros Estados do mundo que são autocraticamente governados. Para nós, há uma diferença entre a força da lei e a lei do forte.”

Como Stoltenberg, McAllister insistiu que a América de Trump está mais comprometida com a ordem mundial do que parece: “Os Estados Unidos continuam a ser para nós, na Europa, a garantia de segurança”, disse ele, antes de sublinhar que Graham, tal como os cerca de 50 outros membros do Congresso dos EUA em Munique, estavam presentes para reafirmar o seu comprometimento com a Otan. Isso mostrou, como ele mesmo disse à DW, que “a política americana não consiste apenas deste presidente”.

Mas as linhas são confusas. A visão de McAllister de um mundo liberal não parece tão distante daquela expressada pelo maior trumpista da sala: o vice-presidente Mike Pence fez um discurso que poderia ter sido escrito durante a Guerra Fria. “Nas últimas semanas”, disse ele, “vimos o que acontece quando o mundo livre e as pessoas amantes da liberdade se unem em torno de uma única causa”, afirmou, referindo-se à crise venezuelana.

Isso foi retomado por alguns participantes da conferência, como o alemão Stefan Liebich, porta-voz do partido A Esquerda para a política externa, que viu a insistência na ordem mundial liberal como realmente um retorno a uma velha divisão de visões de mundo, especialmente nos discursos da ministra da Defesa alemã, Ursula von der Leyen, e e seu homólogo do Reino Unido, Gavin Williamson.

“Eles trataram do regresso de um conflito”, disse ele à   DW . “Eu acho que é verdade que há uma competição entre um sistema baseado na democracia parlamentar e na economia de mercado, e sistemas que são autoritários, mas agora é diferente. Sim, há uma luta por certa ordem, um sistema em que vivemos, mas não é tão bipolar como era antes”.

Maria Zakharova, diretora de informação do Ministério das Relações Exteriores russo, encontrou palavras ainda mais firmes. Emergindo em um casaco de peles das discussões fechadas que acontecem à margem do programa principal, Zakharova descartou toda a ideia de uma ordem mundial liberal como “uma espécie de show”, uma frase que resumiu sua veracidade.

Durante a Guerra Fria, ela continuou, isso era compreensível. “Na época, tratava-se de diferenças ideológicas, e a trama principal era a existência real de um sistema ou outro”, disse ela. “Mas agora nós não temos nenhuma diferença ideológica. Somos todos a favor de mercados livres, democracia, liberdade de expressão, todos nós apoiamos isso”. As organizações internacionais de direitos humanos alertam com frequência que a oposição política é sistematicamente suprimida na Rússia, enquanto a liberdade de expressão, associação, reunião e outros direitos humanos são rotineiramente violados.

Em sua própria contribuição ao programa principal, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, disse que a semântica revelou a hipocrisia do Ocidente: “Você sabe, ultimamente os colegas ocidentais usam cada vez menos a expressão ‘direito internacional’ … eles dizem, ‘ordem baseada em regras’ – minha leitura disto é que eles não querem direito internacional.”

Zakharova, por sua vez, tornou-se mais emocional ao reclamar do que ela chamou de inconsistências dos EUA. “Os EUA nos últimos 20 anos tiveram a oportunidade de sublinhar e provar a possibilidade de serem líderes”, disse ela. “Mas eles falharam. Tiveram tantas chances, com seu poder militar e seu poder econômico, mas fracassaram no Iraque, fracassaram no Afeganistão, fracassaram no Oriente Médio. Eles não resolveram nenhuma crise mundial, em nenhum lugar”.

Pegar as peças desse quebra-cabeça diplomático é desconcertante o suficiente. Colocá-las juntas será outra questão completamente diferente.

Fonte: Deustche Welle

 

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