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O futuro choque da China

15-02-2019 - Arvind Subramanian, Josh Felman

Em Setembro de 2018, defendemos que a política económica e externa da China desafiavam as “leis” da economia e da geopolítica, e avisámos que a situação não poderia perdurar. Desde então, a nossa avaliação foi corroborada, e as nossas preocupações intensificaram-se.

Até recentemente, a China conseguiu enveredar por um peculiar rumo ao desenvolvimento, devido ao abrangente controlo estatal sobre a economia (e sobre a sociedade, de forma mais geral). Mas esses dias terminaram. As dívidas internas do país ascendem a valores insustentáveis, e os níveis de investimento interno passaram o ponto dos rendimentos decrescentes e estão a guinar para território negativo.

Além disso, a estratégia de fomento às exportações da China, que promove “campeões nacionais” da indústria, e que expropria a tecnologia estrangeira, passou o limiar daquilo que os países ocidentais, e especialmente os Estados Unidos, estão dispostos a tolerar. A Iniciativa Um Cinturão, Uma Estrada (UCUE) do presidente chinês Xi Jinping demonstra todos os sintomas da sobrepujança imperial. Não só os créditos associados à UCUE excedem em muito a capacidade de endividamento dos governos participantes, mas os termos dos seus empréstimos são cada vez mais dispendiosos – na verdade, usurários – como observou recentemente Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard.

Em Setembro passado, vimos como inevitável alguma descontinuidade no desempenho económico da China. Mesmo que o país não se encontrasse a caminho de uma crise plena, acreditávamos que passaria certamente por alguma combinação de crescimento em rápida desaceleração e de rápida depreciação da taxa de câmbio.

Desde então, esse prognóstico tornou-se cada vez mais provável. Com a diminuição do crescimento económico e das exportações globais, a economia da China está preparada para abrandar ainda mais, relativamente ao crescimento de 6,4% registado no quarto trimestre de 2018. A média a dois dígitos conseguida desde a década de 1980 até tempos recentes nunca pareceu tão distante.

Como resposta ao actual abrandamento global, o governo chinês decidiu suavizar as restrições ao crédito privado e público. Mas isto só irá agravar os problemas de endividamento e de sobre-investimento do país. Ou, como diz um famoso provérbio chinês, é como “beber veneno para matar a sede”.

Mesmo sem estes macro-desenvolvimentos, a resistência da China às conclusões consolidadas da economia do desenvolvimento não poderia durar para sempre. Os economistas Douglass North, Daron Acemoglu, e James A. Robinson demonstraram que o desenvolvimento económico no longo prazo tende a depender de instituições estatais sólidas e de sistemas políticos abertos, porque estes são necessários para promover a concorrência, a confiança dos investidores, o dinamismo e a inovação.

No gráfico acima, a linha ascendente representa a relação positiva entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento político. Sendo a excepção notável a uma relação de outra forma robusta, a China tem desde há muito colocado um entrave a esta teoria. Com o seu sistema político fechado, não deveria ser tão rica como realmente é.

Nas décadas de 1990 e de 2000, o Ocidente apostou que a China deixaria de ser uma excepção, e que rumaria à normalidade, adoptando instituições políticas mais abertas e democráticas (como se indica pela seta tracejada em azul). Em termos práticos, essa aposta traduziu-se em políticas ocidentais que facilitaram a ascensão da China, e nas decisões tomadas pelas empresas dos EUA e relativas à transferência da sua capacidade industrial para a China.

Mas, sob a liderança de Xi, em vez disso a China tornou-se menos aberta (como se mostra pela seta vermelha). E como demonstra Nicholas Lardy do Peterson Institute for International Economics num novo livro, a sua economia também se voltou a deslocar de um modelo de crescimento baseado no sector privado para o capitalismo de estado.

Por outras palavras, as alterações sistémicas políticas e económicas acentuam o carácter excepcional da China, aumentando dessa forma a probabilidade de que o seu retorno à normalidade seja concretizado por uma acentuada deterioração do desempenho económico (a seta preta tracejada que aponta para baixo). Não há qualquer forma de saber exactamente quando ocorrerá essa correcção. Mas quanto mais a China desafia as regras do desenvolvimento económico, mais provável se torna.

Infelizmente, qualquer descontinuidade no desempenho económico da China terá um efeito sísmico sobre o resto do mundo, já que levaria a um enfraquecimento significativo do renminbi. Com efeito, a própria China poderá engendrar uma depreciação da sua moeda, para promover as suas exportações e amortecer a queda inevitável da procura interna, especialmente a sua componente de investimento.

Um tal cenário teria um impacto sobre as divisas mundiais comparável ao de um   tsunami . OS restantes países asiáticos mais importantes responderiam com as suas próprias desvalorizações para manterem a sua competitividade, e a Europa e os Estados Unidos sofreriam uma deflação acentuada, provocada pelo fortalecimento relativo das suas moedas.

Para um termo de comparação histórico, consideremos que na década de 1930 o dólar dos EUA e a libra britânica desvalorizaram cerca de 40% durante quatro anos, enquanto as divisas francesa e alemã permaneceram de modo geral estáveis (comparativamente ao padrão-ouro). Tal como os EUA e a Grã-Bretanha em 1929, logo antes da Grande Depressão, as principais economias asiáticas que seriam afectadas por um choque cambial provocado pela divisa chinesa são responsáveis por cerca de 30% do comércio mundial.

Para piorar a situação, o comércio é hoje muito mais importante para a economia global do que era há 90 anos. Em 2017, as exportações de mercadorias foram responsáveis por 20 a 25% do PIB global, comparativamente com apenas 8% em 1929. Isso significa que uma desvalorização das divisas asiáticas teria um impacto global significativamente maior ao da desvalorização do dólar/libra da década de 1930. Portanto, o choque na China poderia eclipsar as desvalorizações cambiais sucessivas da década de 1930 – um dos períodos económicos mais sombrios da história documentada.

De uma forma ou outra, o desafio continuado da China relativamente às “leis” da macroeconomia, da geopolítica e do desenvolvimento económico apressará o seu inevitável regresso à normalidade. Quando isso acontecer, é melhor que o mundo esteja preparado.

ARVIND SUBRAMANIAN

Arvind Subramanian, ex-assessor económico chefe do governo da Índia, é membro sénior do Instituto Peterson de Economia Internacional e professor visitante da Kennedy School of Government de Harvard. Ele é o autor de Eclipse: Living in the Shadow of China’s Economic Dominance.

JOSH FELMAN

Josh Felman é diretor da JH Consulting.

 

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