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Segunda-feira 18 de Fevereiro de 2019  
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Vamos ser realistas em relação ao propósito

25-01-2019 - Mariana Mazzucato

Há um ano, o presidente e CEO da BlackRock, Larry Fink, escreveu uma carta a 500 CEO a pedir-lhes que reconsiderassem a sua noção de propósito. “Para prosperarem ao longo do tempo”, escreveu, “todas as empresas têm não apenas de oferecer desempenho financeiro, mas também mostrar como é que contribuem positivamente para a sociedade”.

Fink argumentou que o foco excessivo a curto prazo das empresas estava a prejudicar a respetiva capacidade de criar mais valor a longo prazo. Alguns políticos proeminentes - incluindo a   senadora americana Elizabeth Warren   e (até o Brexit ter torpedeado a sua agenda política) a primeira-ministra britânica Theresa May – também defenderam uma forma de capitalismo mais inclusiva e menos predatória.

Mas, apesar destes apelos à ação, pouca coisa mudou. O setor financeiro continua obcecado por ele próprio e investe principalmente noutras áreas de finanças, seguros e imóveis. As empresas também são excessivamente financiadas, gastando mais em recompras de ações e dividendos do que em capital humano, máquinas, e investigação e desenvolvimento. E a obsessão pela recompra está a piorar, inclusive em   empresas como a Apple, onde a queda da inovação não está alheia ao fracasso em reinvestir. Muitas empresas falam de forma reconfortante sobre responsabilidade social corporativa, impacto e propósito social, mas muito poucas colocam estes tópicos no centro das suas atividades.

Fink afirmou que as empresas deveriam, em vez disso, concentrar-se num grupo mais amplo de partes interessadas: “acionistas, funcionários, clientes e as comunidades nas quais operam”. Mas isso exigiria estruturas de governação corporativa que maximizassem o valor das partes interessadas, não o valor dos acionistas - e nem Fink nem outros eruditos empresariais parecem dispostos a seguir este caminho “escandinavo”.

Uma verdadeira mudança significa colocar o propósito no centro do modo como o valor é definido por empresas, governos e pela teoria económica que informa os governantes. Tal como argumentei no meu   novo livro, Adam Smith e Karl Marx tornaram as condições objetivas de produção - a divisão do trabalho, máquinas e relações capital-trabalho - centrais para a sua compreensão do valor Na economia neoclássica, no entanto, o valor é meramente uma função da troca. Somente o que tem um preço é valioso e o esforço “coletivo” é omitido, porque somente as decisões individuais são importantes. Mesmo os salários são vistos como resultados das escolhas que maximizam a utilidade das pessoas entre o lazer e o trabalho.

Na visão neoclássica, os governos, na melhor das hipóteses, redistribuem o valor criado noutro lugar. Além disso, o PIB não contabiliza o valor dos serviços públicos essenciais, como saúde e educação. Contabiliza, no entanto, os seus custos (salários dos professores, por exemplo), de modo a que os funcionários públicos não possam alegar ser tão “produtivos” como o ex-CEO da Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, em 2009   sugeriu infamemente   que os seus funcionários eram.

Não é de surpreender que as autoridades públicas, há muito acusadas de “excluir” as empresas, tenham interiorizado a crença de que não deveriam fazer mais do que corrigir falhas de mercado. No entanto, as organizações públicas que colocaram um homem na lua e inventaram a Internet fizeram mais do que apenas corrigir falhas de mercado. Elas tinham ambição, um propósito e uma missão.

Para sermos realistas em relação ao propósito, precisamos de reconhecer que o valor é criado coletivamente e construir parcerias mais simbióticas entre instituições públicas e privadas, e a sociedade civil. Ao fazê-lo, teremos de abordar três questões: que valor criar, como avaliar o impacto e como partilhar as recompensas.

Paul Polman, o CEO cessante da Unilever, tentou justamente focar as empresas na criação de valor de acordo com metas substanciais, especialmente os 17   Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. É claro que nem o setor público nem o setor privado podem, por si só, cumprir todas as 169 metas específicas que sustentam os ODS. Mas os governos podem usar os objetivos para criar iniciativas que exijam investimento e inovação de muitas organizações públicas, privadas e da sociedade civil. Defendi esta estratégia num   relatório   que se tornou parte fundamental do programa Horizon da Comissão Europeia.

Da mesma forma, as empresas que avaliam os respetivos impactos sociais deveriam abandonar os objetivos difusos e concentrar-se em medidas concretas para ajudarem a resolver problemas. As instituições financeiras deixariam de avaliar os seus empréstimos com base nas categorias de empresas ou países, mas sim em termos de atividades que ajudem a cumprir missões específicas - tal como remover plástico dos oceanos ou criar cidades mais sustentáveis. Da mesma forma, os governos deveriam dar menos doações às empresas e, em vez disso, basearem-se mais em esquemas de aquisições e prémios para fomentarem inovações corporativas que visem alcançar os ODS. Por outras palavras, deveria haver menos escolha de vencedores e mais escolha de interessados.

Finalmente, as empresas têm de partilhar as recompensas, assim como os riscos de criação de valor. As empresas beneficiaram de forma gigantesca do investimento público, não apenas na educação, investigação e infraestruturas básicas, mas também nas tecnologias como as que   impulsionam os smartphones   atuais. Os governos poderiam, portanto, reter mais dos lucros ascendentes para cobrir as perdas descendentes que a tomada de risco envolve. Por exemplo, eles poderiam ter participações em fundos de capital em empresas como a Tesla, que recebeu um montante de apoio semelhante ao da empresa falida Solyndra, ou gerar lucros não monetários   estabelecendo condições nos preços de mercadorias   (tal como medicamentos) que recebem pesados investimentos públicos e na governação do conhecimento (para garantir que o sistema de patentes não sofre abusos). Da mesma forma, as condições de reinvestimento dos lucros corporativos reduziriam o açambarcamento financeiro e as recompras de ações. Para citar um exemplo famoso, quando a Bell Labs foi formada, monopólios como a AT&T foram pressionados para reinvestirem os seus lucros. Essa coragem perdeu-se.

Um capitalismo mais determinado exige mais do que apenas cartas, discursos e gestos de boa vontade. Empresas, governo e sociedade civil têm de agir juntos, corajosamente, para garantirem que o seu percurso é tão bom como o seu discurso.

MARIANA MAZZUCATO

Mariana Mazzucato é Professora da Economia da Inovação e Valor Público e Diretora do Instituto UCL para Inovação e Propósito Público (IIPP). Ela é autora do Valor de Tudo: Fazendo e Tomando na Economia Global, que foi indicado para o Prêmio do Ano do Financial Times-McKinsey Business Book.

 

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