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A economia anti serviços de Trump

21-12-2018 - Anne O. Krueger

No século XIX, mais de 70% dos trabalhadores americanos eram agricultores. Em 2017, esse número estava abaixo dos 2%. Em 1970, cerca de 32% do emprego privado ocorria em indústrias produtoras de bens. Em 2018, esse número era de 13,5%. Os setores dinâmicos da economia americana estão nos serviços, embora o presidente dos EUA, Donald Trump, com a sua fixação nas antigas indústrias transformadoras, não pareça ter entendido isso.

Tal como as empresas transformadoras compunham as indústrias de crescimento mais rápido numa época anterior, assim as empresas de serviços também o fazem hoje. Muitas pessoas - inclusive o Trump, possivelmente - pensam que os serviços consistem em empregadas domésticas, pessoal da manutenção e empregados de restauração. Mas os serviços incluem transportes, TI, finanças, serviços profissionais e empresariais, educação, entretenimento e muito mais. Nos Estados Unidos, o maior número de funcionários de serviços está nos setores de transporte e serviços, educação e cuidados de saúde, e serviços empresariais. E isso nem inclui os trabalhadores independentes.

Em 2017, havia   12,4 milhões de trabalhadores em todo o setor transformador dos EUA, em contraste com os   20,6 milhões   só nos serviços empresariais e profissionais. A maioria dos observadores categoriza as atividades mais modernas e dinâmicas da economia - e muitos dos seus empregos com altos salários - entre as últimas atividades. No geral, os empregos geradores de serviços constituíam 70% do total de postos de trabalho do setor privado.

As razões para a mudança de bens para serviços são as mesmas que as razões anteriores para a mudança da agricultura para a indústria: à medida que as pessoas enriqueciam, elas gastavam uma fatia maior dos seus rendimentos em bens não agrícolas e uma fatia menor na alimentação. Simultaneamente, a produtividade agrícola estava a aumentar ainda mais rapidamente do que a procura, e o capital e o trabalho deslocaram-se para os então modernos setores produtores de bens.

A mesma tendência continua, embora agora seja gasta uma fatia maior dos rendimentos nos serviços. À medida que os rendimentos e a produtividade   per capita   crescem, as pessoas dedicam mais do seu orçamento para o consumo ao turismo e viagens, entretenimento, educação, cuidados de saúde e muito mais. As empresas gastam mais em serviços financeiros e empresariais.

Os EUA têm a sorte de liderar o mundo em muitos serviços. As exportações de serviços da América, em 2017,   foram de 798 mil milhões de dólares, enquanto as importações foram de 542 mil milhões de dólares. As exportações de serviços têm crescido rapidamente, até 275% desde 2000, ultrapassando o aumento de 192% nas exportações de bens.

Dada esta tendência, um grande desafio para todas as economias avançadas é apoiar os trabalhadores de produção de bens, cujos empregos desapareçam, e facilitar a sua transição para postos de trabalho em serviços. À medida que a mudança tecnológica acelera o declínio no emprego industrial, a resposta política apropriada é fornecer apoio aos trabalhadores vulneráveis e facilitar a expansão das indústrias emergentes, nas quais a procura - e o emprego - aumentarão mais rapidamente.

Após a Segunda Guerra Mundial, as economias bem-sucedidas foram aquelas em que os governantes apoiaram a verdadeira economia, investindo em infraestruturas, educação e formação, e cuidados de saúde, e fortalecendo a capacidade de os mercados privados escolherem entre os potenciais setores. As derrotadas foram aquelas em que os governantes lutaram contra o mercado e apoiaram setores em declínio.

A administração Trump, não é surpresa, está a seguir o caminho dos perdedores. Trump lamentou a   “balança comercial” , que mede o comércio de bens, sem reconhecer os serviços, e criticou o encerramento de fábricas mesmo quando a produção estagnou ou caiu. As tarifas do seu governo sobre as importações de aço certamente custarão mais empregos nas indústrias produtoras de aço do que os que serão   “salvos”,   ao bloquear recursos numa indústria velha.

O défice da balança das transações correntes reflete o excesso de gastos em relação à produção. Mas é o excesso de produtos   e   serviços que importa. As viagens de estrangeiros para a Disney World, a elevada procura de estrangeiros para frequentarem universidades dos EUA e as despesas de estrangeiros para os serviços da Google, Amazon e outras empresas de serviços refletem a liderança dos EUA nas novas indústrias. A imposição de tarifas de importação para sustentar as velhas indústrias produtoras de bens ignora a dinâmica do crescimento e não faz nada para ajudar os setores emergentes. De facto, o protecionismo enfraquece-os. Claramente, lutar contra as forças da mudança não é o caminho a seguir.

O défice da balança das transações correntes ocorre em parte porque os estrangeiros querem investir mais nos EUA do que os americanos querem investir no exterior. É um sintoma da vitalidade americana. Pode também refletir, em parte, o facto de os americanos estarem a gastar além dos seus recursos. Se assim for, a resposta política apropriada é utilizar a política monetária e fiscal, não para tentar proteger as velhas indústrias, o que não reduzirá o défice externo seja como for.

O jornalista do   Washington Post , Bob Woodward, relata em   Fear ,o seu livro sobre a administração Trump, que Gary Cohn, o então consultor económico principal de Trump, tentou persuadir o presidente a focar-se nos serviços ao perguntar se achava que os trabalhadores prefeririam ficar o dia todo num fábrica ou sentados atrás de uma secretária num escritório com ar condicionado. A mesma questão pode ser colocada de outra maneira: Será que os americanos prefeririam um crescimento mais lento e preços mais altos para os produtos da   “velha indústria”   ou um crescimento mais rápido, queda nos preços das mercadorias e rendimentos adicionais para gastarem em turismo, viagens, saúde, TI, entretenimento e outros serviços que prometem tanto para o futuro?

Woodward relata que Trump, que parece incapaz de ter uma nova ideia, ficou preso nas suas antigas crenças. O país pagará um preço alto, caso as obsessões do presidente prevaleçam durante muito tempo.

ANNE O. KRUEGER

Anne O. Krueger, ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-vice-diretora do Fundo Monetário Internacional, é Professora Sénior de Investigação de Economia Internacional na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e membro sénior do Centro Internacional Desenvolvimento, Universidade de Stanford.

 

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