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Capitalizar os dividendos demográficos de África

30-11-2018 - Carl Manlan

A África alberga a população mais jovem e em mais rápido crescimento do mundo. Com cerca de 20 milhões de jovens preparados para entrarem no mercado de trabalho todos os anos durante as próximas três décadas, o continente tem uma oportunidade para alterar o equilíbrio do crescimento local e global com uma finalidade: empregos. Mas está longe de ser inevitável que tal aconteça.

Para que os países africanos capitalizem este dividendo demográfico, a mão-de-obra futura deverá ser educada, formada, e dispor de oportunidades de emprego adequadas. Não será fácil reunir todas as peças necessárias.

Vivemos tempos incertos para a economia global. As tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China ameaçam a integridade das cadeias de valor globais, e a saída iminente da Grã-Bretanha da União Europeia tem potencial para causar ainda mais perturbações. A previsão de Outubro do Fundo Monetário Internacional alerta que a estagnação dos factores económicos históricos poderá fazer baixar o crescimento global neste ano e no próximo para 3,7%, uma diminuição de 0,2 pontos percentuais comparativamente a estimativas anteriores.

Mas à medida que este abrandamento for avaliado pelos mercados bolsistas mundiais, emergerão novos factores de crescimento. África está bem posicionada para se transformar num destes factores.

Segundo o Banco Mundial, seis das dez economias mundiais com crescimento mais rápido estão em África. O comércio intra-africano poderá ser a porta para o futuro crescimento local e global, com novas oportunidades transfronteiriças a serem criadas pela florescente população do continente. Mais importante ainda, a mão-de-obra africana está à beira de uma expansão radical. Hoje, 60% dos africanos têm menos de 25 anos, e 41% têm menos de 15 anos. Em 2050, a população juvenil de África deverá atingir os 840 milhões.

Mas esta reserva enorme de talentos potenciais é uma espada de dois gumes. Apesar do forte crescimento do PIB dos últimos dez anos, a maioria dos jovens em África não conseguiu capturar as oportunidades económicas. Além disso, o relatório da União Africana/OCDE Dinâmicas do desenvolvimento em África 2018 sublinha que, se a tendência de subemprego continuar, serão os jovens africanos quem mais sofrerão. A incapacidade de empregar todos os jovens de África poderá marginalizar uma geração inteira, e destiná-los a um caminho disruptivo para o qual podem não estar preparados. Para que os países assegurem o crescimento do emprego no longo prazo, é vital que sejam criadas oportunidades de qualidade na agricultura. Se isto não acontecer, e se a escassez de empregos de qualidade continuar, não acontecerá a expansão económica que está ao alcance de África.

Por outras palavras, os governos africanos têm um prazo para fazerem corresponder o crescimento do emprego ao desenvolvimento de competências. De momento, infelizmente, há poucos países que estejam a enfrentar este desafio de forma eficaz.

Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, a taxa de desemprego juvenil em África é já o dobro da taxa para os adultos. Com efeito, os jovens estão a ser deixados de lado mesmo antes de procurarem emprego. Existem demasiadas escolas primárias que sofrem com faltas terríveis de professores, por exemplo, e a discriminação de género impede que milhões de raparigas cheguem a frequentar o ensino secundário. Para ultrapassar estas insuficiências serão necessários investimentos significativos em capital político e financeiro.

Alguns líderes já estão a mover-se nesse sentido. No Fórum de Paris sobre a Paz (FPP), que teve lugar no início deste mês, líderes africanos e globais reuniram-se para discutirem a poderosa ideia de que a cooperação internacional é a chave para resolver os desafios globais e para garantir a paz duradoura.

Nos bastidores do FPP, a atenção dirigiu-se para a juventude africana. O Centro para a cooperação juvenil UA/UE, um dos 119 projectos seleccionados para participarem no Fórum, esteve presente na reunião para discutir a Agenda UA/UE para a juventude. Tendo  como objectivo o envolvimento dos jovens de África e da Europa nas decisões que lhes digam respeito, agora e no futuro, esta iniciativa pretende divulgar estratégias para aproximar a África e a Europa na resolução de desafios, como é o caso do dividendo demográfico.

Uma abordagem para capitalizar a explosão demográfica de África consiste em expandir a disponibilização de iniciativas de formação que reúnem as necessidades dos empregadores aos talentos africanos. Como antigo associado do programa de Liderança Ibrahim, posso confirmar o poder transformacional dos regimes de formação de nível superior, e o seu valor como incubadores de competências profissionais.

O sucesso de África depende da sua capacidade de aproveitar o seu dividendo demográfico, equipando os seus jovens com competências tecnológicas e inovadoras, que permitirão catalisar o crescimento económico. Isto inclui programas de formação e centrados na agricultura que absorvam competências ao longo das cadeias de valor que relacionam matérias-primas com as indústrias e os mercados de África.

Em 2030, uma em cada cinco pessoas no planeta será africana. Devido à sua dimensão, a mão-de-obra de África terá potencial para condicionar o crescimento global durante décadas. Mas para consegui-lo os africanos devem começar hoje a implementar as reformas necessárias. À medida que o nosso dividendo demográfico dá frutos, os governos, as instituições e as organizações devem ajudar a posicionar os jovens no sentido do sucesso. Se os países africanos conseguirem ultrapassar este desafio, a recompensa será o crescimento económico prolongado, tanto em África como no resto do mundo.

CARL MANLAN

Carl Manlan é um economist chefe do Operating Officer do Ecobank Foundation. É desde 2016 Aspen New Voices Fellow.

 

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