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O New York Times e Donald Trump

30-11-2018 - Leneide Duarte-Plon

A melhor maneira de dominar e manter o controle das massas é indicar a elas um bode expiatório. Donald Trump compreendeu muito bem a lição e desde o início de seu mandato escolheu os seu jornais e TVs que o criticam. Ele os acusa de disseminar «fake news».

Nos Estados Unidos, onde a imprensa tem uma tradição de independência e os grandes jornais atuam efetivamente como quarto poder, Donald Trump encontrou o bode expiatório ideal para apontar à massa que ele manipula. São sobretudo os jornais Washington Post e New York Times e as redes CBS, NBC e CNN.

Num excelente documentário exibido pelo canal franco-alemão Arte, « Mission Vérité : Le New York Times e Donald Trump », da cineasta Liz Garbus, acompanhamos durante um ano a redação do jornal na cobertura dos principais acontecimentos envolvendo Trump, a começar pela suposta interferência dos russos na sua eleição, ainda investigada pela Justiça americana, que ninguém pode acusar de dependência do Executivo.

O NYT foi totalmente surpreendido pela vitória do candidato republicano, que sempre menosprezou. A vitória de Hillary Clinton era dada como certa. Seu diretor, Dean Baquet, comenta: «Nosso novo presidente não tem nenhum problema em faltar com a verdade». Maneira elegante de chamar Trump de mentiroso.

Por suas reportagens de investigação rigorosas e sua ética implacável, o New York Times foi chamado por Trump de «partido de oposição». Uma forma de designar um inimigo a seus seguidores. Os evangélicos, que votaram em peso em Trump, não levam em conta suas frases grotescas e misóginas e passaram a detestar a imprensa que o presidente aponta como inimiga do povo. A poderosa corporação das armas NRA (National Rifle Association), outra aliada de Trump, prometeu «explodir» o New York Times.

Uma das cenas mais impressionantes do documentário é quando o presidente eleito se dirige a milhares de apoiadores em um estádio e designa o lado em que os jornalistas escreviam sentados diante de seus computadores: «A imprensa é inimiga do povo».

Instigando a massa, o presidente consegue o seu intento: os jornalistas começam a ser xingados e acabam todos se levantando e partindo como se temessem que os gritos se transformassem em agressão física. Desta forma, ele indica um alvo para a raiva e a frustração dos americanos que mais sofreram com os efeitos da mundialização. E divide o país.

«Os Estados Unidos nunca estiveram tão divididos. Existe um incitamento ao ódio. O New York Times trabalha por um jornalismo que respeita a busca da verdade para ser respeitado. Este é um período muito difícil para ser jornalista, mas também muito estimulante», analisa Dean Baquet.

O documentário segue as reuniões de pauta da cobertura de três dos principais acontecimentos pós-Trump : a investigação judicial do envolvimento da Rússia em sua vitória, com as audiências do diretor do FBI, James Comey, demitido por Trump em maio de 2017; o afrontamento de supremacistas brancos com defensores dos direitos humanos em Charlottesville, quando Trump, aconselhado por Steve Bannon, colocou no mesmo plano os dois lados e não condenou a violência dos neonazistas; e, por fim, as repercussões da campanha MeeToo. O próprio jornal foi atingido pela campanha. E afastou por alguns meses um jornalista de investigação acusado de estupro, que aparece no documentário cobrindo a presidência. Por recomendação do jornal, ele se submeteu a uma psicoterapia.

«A única coisa que interessa Donald Trump é Donald Trump. Ele vai levar o país à beira do abismo», diz um negro que se apresenta como eleitor tradicional do Partido Republicado, mas profundamente crítico do presidente.

Bolsonaro, fiel seguidor

Logo depois da eleição, o documentário segue algumas reuniões com Steve Bannon, quando ele ainda era um próximo conselheiro de Trump. Bannon dá uma entrevista exclusiva defendendo o «populismo nacionalista», que este ano levou à ascensão de Jair Bolsonaro, que ele ajudou a eleger.

«Nosso movimento é conservador, nacionalista e populista», definiu Bannon, autor de um livro chamado «Insurreição», no qual define o movimento que pretende espalhar pela Europa e América Latina. «O que quero é fazer uma revolução».

Bolsonaro já declarou que vai seguir fielmente alguns pontos da política externa de Trump: o Brasil vai se retirar do Acordo de Paris sobre o clima, de 2015, vai transferir a embaixada de Tel Aviv a Jerusalém e seguir os passos da potência hegemónica na recusa do mundo globalizado e do multilateralismo.

Como Trump, Jair Bolsonaro parece querer governar por tweets e whatsapp, hostilizando muitas vezes a imprensa que, no entanto, não hesitou em se jogar nos seus braços bem antes da eleição.

Falta-nos um New York Times ou um Washington Post.

A mesma Folha de São Paulo, que fez uma reportagem sobre financiamento ilegal do sistema de mensagens por Whatsapp, proibiu que o candidato de extrema-direita fosse designado como de extrema-direita. Coisas da sabujice da imprensa brasileira, que em vez de funcionar como contra-poder atua como partido político.

Como partido de oposição, quando o PT estava no poder.

Como partido do governo, totalmente submissa, quando o poder defende interesses do capitalismo mais selvagem e sem limites.

Os jornais brasileiros esqueceram que o novo poder foi conquistado por métodos denunciados como ilegais.

Antes mesmo de tomar posse, o futuro governo aparece a cada dia como uma ameaça ao que subsiste da frágil democracia.

Fonte: Carta Maior

 

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