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O problema #MeToo da comunicação social

23-11-2018 - Hannah Storm

Os cursos de jornalismo podem ser dominados pelas mulheres, mas a comunicação social global ainda é governada pelos homens, que ocupam a maioria das posições de gestão, relatam mais notícias e são mais frequentemente apresentados como especialistas. Este desequilíbrio reflecte-se nos conteúdos produzidos nas redacções, com menos palavras escritas e menos segundos de transmissão dedicados a contar histórias de mulheres. Também se reflecte na cultura do sector, que deixa as mulheres mais vulneráveis ao assédio e ao abuso sexual.

Considerando a importância do desenvolvimento de relacionamentos para a comunicação social, para não mencionar o desejo de ligação entre jornalistas que asseguram a cobertura de eventos extremos ou aflitivos em ambientes difíceis, é natural que se criem com facilidade laços íntimos entre colegas e associados. O problema surge quando estes relacionamentos azedam ou, pior, quando são não-consensuais ou baseados na coacção, como quando um colega mais sénior tenta um relacionamento sexual com alguém que lhe esteja subordinado.

É evidente que podem existir diferenças significativas entre os países quanto ao que é considerado comportamento predatório ou impróprio. Mas, globalmente, quase metade das jornalistas relatam terem sido alvo de assédio sexual relacionado com o trabalho, segundo um estudo publicado em 2014 peloInternational News Safety Institute   (INSI) e pela   International Women’s Media Foundation   (IWMF). Dois terços relataram que enfrentaram “intimidação, ameaças, ou abusos”, principalmente dos chefes, supervisores, ou colegas.

Para os transgressors, a impunidade continua a ser a norma. Quase três quintos das inquiridas no estudo do INSI/IWMF que foram alvo de assédio referiram que tinham reportado os incidentes aos seus empregadores. Porém, na maior parte dos casos, foram as mulheres vítimas de abuso que sofreram consequências adversas: reputações e perspectivas de carreira destruídas, para não falar do impacto sobre o seu bem-estar psicológico e emocional.

Portanto, enquanto os homens com histórico de comportamento predatório continuam a ocupar posições sénior na indústria noticiosa global, as jornalistas são pressionadas até ao ponto em que consideram abandonar a mesma indústria. Num inquérito recente do IWMF e do TrollBusters, um terço das inquiridas responderam que consideraram abandonar o jornalismo; as que estavam em fases iniciais das suas carreiras tinham o dobro da probabilidade em dizer que consideravam trabalhar noutros campos, devido às ameaças e ataques que receberam, pessoalmente ou   on-line .

Apesar dos obstáculos que enfrentam, mais mulheres parecem estar a conquistar posições na indústria global da comunicação social, mesmo que essa evolução seja relativamente lenta. Nas redacções digitais, que apresentam frequentemente menos desigualdades inerentes que a comunicação social tradicional, o número de mulheres em posições de liderança parece estar a crescer mais rapidamente. Entretanto, nos Estados Unidos, vários jornalistas de grande visibilidade perderam os seus empregos no ano passado após alegações de comportamento impróprio para com as suas colegas – casos integrados no mais genérico movimento #MeToo.

Mas, globalmente, as redacções continuam a não levar a sério as ameaças que as jornalistas enfrentam no seu emprego, tanto nos seus locais de trabalho como no terreno. Embora as redacções procedam a avaliações do risco e a debates sobre destacamentos de jornalistas no terreno – onde as mulheres podem ser especialmente vulneráveis a avanços indesejados de colegas, contactos ou estranhos – raramente prevêem as ameaças específicas que as mulheres enfrentam, pelo menos não de uma maneira suficientemente diferenciada.

Isto pode acontecer em parte porque, para as principais organizações noticiosas, estas avaliações são frequentemente realizadas juntamente com consultores de segurança – normalmente antigos militares, que podem não compreender inteiramente os riscos específicos que as mulheres enfrentam. Por vezes, os consultores de segurança são os próprios perpetradores do assédio sexual. Para ilustrar esta realidade, conheço várias jornalistas que foram alvo de assédio sexual por parte de consultores de segurança. Dependendo do local onde isso ocorre, esse comportamento pode ter implicações significativas sobre a segurança.

Como se isso não constituísse motivo suficiente de pressão, as correspondentes estrangeiras que são alvo de assédio no terreno são frequentemente colocadas no centro de debates sobre se as mulheres deveriam ser destacadas para cobrir determinadas matérias. Os correspondentes nunca são visados por esses debates.

Esta miopia machista reforça o desequilíbrio nocivo das perspectivas que perduram na comunicação social. Também implica custos económicos significativos. Como   refere   a Harvard Business Review, “todos pagamos um preço” quando o assédio sexual continua ou é encoberto. Ao impedir que as mulheres progridam no sector, ou ao forçá-las a mudar de emprego, o assédio diminui o seu potencial de rendimentos e priva a sociedade da melhor utilização possível dos seus talentos.

A verdade é que os jornalistas de vários géneros, etnias e antecedentes vivenciam ambientes diferentes de forma também diferente, tanto em termos dos riscos que enfrentam como das recompensas que podem esperar. Qualquer avaliação de uma matéria precisa de considerar esses matizes, levando os gestores a escolher o melhor jornalista para a função – e a proporcionar todo o apoio necessário para manter a segurança de todos os jornalistas.

Para alterar a cultura organizacional que permite o assédio e outras formas de abuso contra as mulheres – uma obrigação moral, para além de ser um imperativo jurídico e económico – os chefes de redacção devem liderar a partir do tipo. A mudança não acontecerá de um dia para o outro, nem dependerá de um único interveniente. Os líderes devem escutar as mulheres nas suas fileiras, e solicitar várias perspectivas para ajudarem a promover a mudança.

O objectivo não consiste em virar os jovens contra os mais velhos, ou as mulheres contra os homens. Consiste em corrigir a incapacidade da indústria da comunicação social em proteger os seus trabalhadores mais vulneráveis. Todos pagamos um preço quando essa incapacidade impede que as jornalistas cumpram o seu pleno potencial.

Hannah Storm

Hannah Storm é directora do International News Safety Institute.

 

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