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O denominador comum do populismo

16-11-2018 - Barry Eichengreen

Depois da eleição de Emmanuel Macron como presidente de França, em maio de 2017, as elites mundiais deram um suspiro de alívio. A onda populista, eles próprios se tranquilizaram, tinha atingido o topo. Os eleitores recuperaram a sua sanidade. Ajudada por um sistema eleitoral em que os dois principais candidatos se enfrentaram numa segunda volta, a “maioria silenciosa” uniu-se atrás do candidato centrista na segunda volta.

Mas agora temos a eleição presidencial no Brasil, na qual Jair Bolsonaro, que exibe as tendências autoritárias, antiopositoras das instituições oficiais e antioutros de um manual populista, venceu decisivamente na segunda volta. Um sistema eleitoral de duas voltas, em que a segunda volta opõe um populista com poucas possibilidades de ganhar contra o último candidato do partido convencional, não é, evidentemente, garantia de que o centro se manterá.

Uma lição semelhante flui das eleições na Itália, no início deste ano. As regras eleitorais do país foram reformadas para adicionar um elemento maioritário ao seu sistema de representação proporcional, com o objetivo de incentivar a formação de coligações pré-eleitorais entre os principais partidos. Em vez disso, levou ao poder uma coligação populista, da esquerda e da direita. A engenharia eleitoral, ao que parece, não é apenas ineficaz em derrotar a ameaça extremista; pode ter consequências não intencionais e contraproducentes.

Conter o populismo, por conseguinte, requer mais do que aperfeiçoar o sistema eleitoral. É necessário, em primeiro lugar, abordar as queixas básicas responsáveis pela rejeição dos eleitores aos partidos e políticos convencionais.

Infelizmente, há pouco consenso sobre a natureza dessas queixas e, portanto, não há consenso sobre como dar resposta.

Uma perspetiva, naturalmente favorecida pelos economistas, é que os descontentamentos económicos estão na raiz da revolta populista. A Itália vivenciou um crescimento estagnado da produtividade durante mais de duas décadas, enquanto o desemprego - particularmente o desemprego entre os jovens - subiu para níveis devastadores. O Brasil, tendo-se habituado apenas recentemente ao estatuto de uma economia em rápido crescimento, sofreu uma enorme recessão em 2015 e 2016, e 2018 afigura-se ser mais um ano sombrio.

Mas os EUA encaixam de forma estranha neste molde. Na altura das eleições de 2016, que levaram o presidente Donald Trump ao poder, a economia dos EUA crescia há seis anos consecutivos. Isto é um lembrete de que o populismo é muito mais do que o crescimento económico. É também sobre distribuição, algo que é igualmente um problema na Itália e no Brasil. E é sobre insegurança económica: mesmo aqueles que hoje são beneficiados têm dúvidas sobre se eles - e os seus filhos – serão beneficiados no futuro.

Ainda assim, a economia em expansão dos Estados Unidos deveria ao menos fazer refletir aqueles que defendem a interpretação estritamente económica da atual onda de populismo.

Em alternativa, a atual onda de populismo tem sido vista como uma resposta à ameaça sentida, tanto política como económica, dos chamados estrangeiros no grupo cultural dominante. Para os populistas italianos como Matteo Salvini, isso significa imigrantes, principalmente pessoas de pele escura de África que manifestam abertamente a sua posição de estrangeiro. Para Bolsonaro, significa minorias raciais, mulheres e outros grupos que desafiam a hegemonia da classe trabalhadora branca. Trump apresenta as duas tendências, alegando sem fundamentação que os terroristas do Médio Oriente estão entre os migrantes e requerentes de asilo da América Central, enquanto reforça a animosidade racial, religiosa e antifeminista da sua base.

Novamente, no entanto, o comportamento eleitoral efetivo não se enquadra ordenadamente nas linhas previstas. Bolsonaro recebeu um surpreendente nível de apoio dos eleitores negros. Trump ganhou um forte apoio das mulheres numas eleições realizadas logo após a divulgação do célebre vídeo “Access Hollywood” , no qual Trump foi ouvido a gabar-se das agressões sexuais que tinha cometido.

O que une os defensores desses políticos arrivistas deve, portanto, ser outra coisa. De facto, o ingrediente principal é a repulsa contra a corrupção do processo político. Os eleitores são atraídos por políticos que têm poucas possibilidades de ganhar - quanto mais autoritários melhor - que prometem “drenar o pântano” . É aqui que reside o apelo de Trump e de Bolsonaro, que prometem limpar a   “desordem”   nos seus países através de quaisquer meios necessários. A corrupção e a ineficácia de uma sucessão de coligações convencionais e a promessa de fazer melhor, dos novos candidatos, seja credível ou não, motivam de modo similar os apoiantes italianos do partido Liga, da direita, e do Movimento 5 Estrelas, da esquerda.

Infelizmente, os eleitores não têm como avaliar quem está realmente comprometido com a erradicação da corrupção. E, ao delegarem essa tarefa a um líder com tendências autoritárias, dão-lhe o poder de repovoar o pântano em vez de drená-lo - para simplesmente substituírem os jacarés convencionais pelos seus. Nós já vimos essa tendência nos EUA. Estamos prestes a vê-la na Itália e no Brasil.

Os eleitores aprenderão da maneira mais difícil que o autoritarismo agrava em vez de reduzir a corrupção, porque elimina os pesos e contrapesos daqueles que puxam as alavancas do poder. Quando aprenderem esta lição, darão, provavelmente, outra oportunidade aos políticos tradicionais e ao processo democrático. Infelizmente, as instituições políticas e a sociedade civil podem sofrer danos consideráveis no entretanto.

Barry Eichengreen

Barry Eichengreen é professor de Economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e ex-assessor sénior de política do Fundo Monetário Internacional. Seu último livro é The Temptation Populist: Economic Grievance and Political Reaction in the Modern Era.

 

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