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A Terra-Estufa é evitável?

02-11-2018 - Johan Rockström, Jřrgen Randers, Per Espen Stoknes

Há quase 50 anos, o relatório “Os Limites do Crescimento” do Clube de Roma avisava que se o ritmo do crescimento económico continuasse, sem se considerarem os efeitos sobre o ambiente, o mundo poderia enfrentar o colapso ecológico e económico no século XXI. Porém, isso foi essencialmente o que aconteceu. Como demonstra uma investigação recente do Clube de Roma – e o último relatório do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (IPCC) reafirma – o mundo pode estar a caminhar para a catástrofe.

Muitos interpretaram erradamente “Os Limites do Crescimento” como um ataque à expansão económica desenfreada. Na verdade, o relatório defendia que se fosse escolhido o caminho do crescimento ilimitado, isso obrigaria a políticas complementares (nomeadamente, a nível do financiamento) para preservar os sistemas finitos de apoio à vida do planeta.

Este argumento foi ignorado. Em vez disso, o mundo continuou a perseguir o crescimento desenfreado, sem pensar nas consequências ambientais. Isto permitiu-nos fazer enormes progressos na redução da pobreza, no aumento da longevidade, e no aumento da riqueza. Mas teve um custo elevado sobre o tecido da sociedade e a resiliência do planeta.

Como tem sido categoricamente demonstrado pelos cientistas, durante a última década entrámos numa nova era geológica, o Antropoceno, em que a actividade humana – em especial, a actividade económica – tem sido o principal factor influenciador do clima e do ambiente da Terra. No Antropoceno, o sistema de apoio de vida do nosso planeta está a mudar mais rapidamente que nunca.

As alterações climáticas constituem actualmente um perigo real e imediato. Se o nosso planeta ficar apenas 2°C mais quente do que as temperaturas pré-industriais, poderemos ser irreversivelmente colocados no caminho para a “Terra-Estufa” – um cenário em que as temperaturas ficarão muitos graus acima dos valores actuais, o nível dos oceanos será consideravelmente maior, e os eventos atmosféricos extremos serão mais comuns – e mais devastadores – que nunca.

Isto não precisa de acontecer. No seu 50º aniversário, o Clube de Roma actualizou o modelo de computador “Mundo 3” do relatório “os Limites do Crescimento”. Usando dados económicos e sociais das últimas cinco décadas, a simulação denominada Terra 3 fornece novas projecções sobre os impactos futuros da actividade humana.

Baseámos a nossa análise nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, definidos em 2015 pelos líderes mundiais. Os 17 ODS incluem objectivos sociais, como acabar com a pobreza e melhorar a saúde, e metas ambientais críticas, como travar as extinções de espécies, proteger os nossos oceanos, e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Para definir se o mundo consegue cumprir estes objectivos até o prazo de 2030, considerámos quatro cenários, que vão da manutenção do  status quo  até à transformação económica total.

A nossa análise demonstra que o cenário de manutenção do status quo   não traria uma evolução significativa no sentido do cumprimento dos ODS ou da melhoria da sustentabilidade ambiental até 2030. De forma talvez pouco surpreendente, o cenário caracterizado por um crescimento económico mais rápido também implicaria uma séria ameaça à sustentabilidade ambiental.

Mas até um terceiro cenário, que inclua políticas mais fortes para protecção do ambiente, colocaria a estabilidade do planeta em risco. Em qualquer destes cenários, o bem-estar humano poderia melhorar no curto prazo, mas seria severamente prejudicado no longo prazo, à medida que ultrapassássemos os limites e os pontos de inversão planetários.

Só existe um cenário que consegue garantir melhorias para o bem-estar humano de uma forma ambientalmente sustentável: o caminho da “mudança transformacional”, representado por um deslocamento no sentido de políticas e medidas não convencionais. Na nossa análise, identificámos cinco áreas onde essa alteração é especialmente importante.

  • De acordo com o recente relatório do IPCC, é necessário um crescimento exponencial da energia renovável para permitir que o mundo diminua para metade as emissões totais em cada década a partir de 2020.
  • A protecção sustentável de alimentos deve ser incrementada de forma substancial. Alimentar quase dez mil milhões de pessoas em 2050 obrigará a uma reforma radical dos sistemas alimentares existentes, com um aumento anual de 1% na intensificação sustentável.
  • Os países em desenvolvimento precisam de novos modelos de desenvolvimento, seguindo exemplos como a China, a Costa Rica, a Etiópia, e a Coreia do Sul, com uma grande ênfase na sustentabilidade.
  • O mundo deve reduzir drasticamente a desigualdade, e assegurar que os 10% mais ricos não capturam mais de 40% do rendimento total.
  • Finalmente, devemos estabilizar a população global, fazendo grandes investimentos na educação universal, na igualdade entre homens e mulheres, nos cuidados de saúde e no planeamento familiar.

Não temos a pretensão de ter redigido uma lista definitiva das reformas transformativas de que o mundo necessita. A nossa principal mensagem é que a única maneira de equilibrar o crescimento e a sustentabilidade será através de transformações estruturais e sociais a uma escala global.

A boa notícia é que acreditamos que o cenário transformacional aqui apresentado seja possível Já existem sinais de que as forças do mercado conseguem incentivar uma nova revolução energética – uma que seria ao mesmo tempo tecnicamente viável e economicamente atraente. As tecnologias que permitem a agricultura sustentável já existem, e perto de 29% de todas as explorações agrícolas já usam alguma forma de técnicas agrícolas sustentáveis. E, globalmente, atingimos “o pico das crianças”, e o número de crianças deixou de crescer.

Mas ainda permanecem barreiras políticas importantes relativamente às energias renováveis e, mais ainda, à redução da desigualdade. Para piorar a situação, nos três anos desde que os líderes mundiais definiram os ODS, verificou-se uma reacção crescente contra o multilateralismo. E precisamente no momento em que a cooperação global é mais necessária, muitos países estão a adoptar o nacionalismo, o isolacionismo, e o proteccionismo comercial.

A maioria dos analistas racionais defenderia que seria um bom investimento manter o planeta suficientemente saudável para apoiar uma economia florescente no longo prazo. Mas, como vemos hoje, essa abordagem de longo prazo nem sempre se presta ao êxito político. Para protegermos o nosso planeta – e, por sua vez, a nossa civilização – as vozes como as do Clube de Roma são mais importantes que nunca.

JOHAN ROCKSTRÖM

Johan Rockström é professor e ex-diretor do Centro de Resiliência de Estocolmo da Universidade de Estocolmo.

JØRGEN RANDERS

Jørgen Randers é professor emérito da BI Norwegian Business School.

PER ESPEN STOKNES

Per Espen Stoknes é professor associado da BI Norwegian Business School.

 

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