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Os danos colaterais da guerra fria sino-americana

26-10-2018 - Minxin Pei

A crescente disputa comercial entre os Estados Unidos e a China é vista cada vez mais como a campanha de abertura de uma nova guerra fria. Mas este confronto de titãs, caso continue a crescer, custará caro a ambas as partes, ao ponto de que até mesmo o vencedor (é mais possível que seja os EUA) irá, provavelmente, achar que a sua vitória foi pírrica.

Contudo, é o resto do mundo que pagaria o preço mais elevado. Na verdade, apesar da baixa probabilidade de um choque militar direto entre os EUA e a China, uma nova guerra fria produziria, sem dúvida, danos colaterais tão amplos e severos que o próprio futuro da humanidade poderia ficar comprometido.

As tensões bilaterais já estão a contribuir para uma dissociação económica que está a repercutir-se por toda a economia mundial. Se o fim da Guerra Fria, em 1991, lançou a idade de ouro da integração económica mundial, o início da próxima guerra fria entre as duas maiores economias do mundo produzirá, indubitavelmente, divisão e fragmentação.

É fácil imaginar um mundo dividido em dois blocos comerciais, cada um deles centrado numa superpotência. O comércio dentro dos blocos poderia continuar, ou mesmo prosperar, mas haveria poucos elos, ou nenhum, entre eles.

O sistema financeiro mundial iria também desfazer-se. A administração do presidente Donald Trump mostrou como é fácil para os EUA prejudicar os seus inimigos (como o Irão), utilizando sanções para negar-lhes o acesso ao sistema internacional de pagamentos estipulado pelo dólar. Diante disso, os adversários estratégicos da América, China e Rússia - e até mesmo a sua aliada, a União Europeia - estão a tentar estabelecer sistemas alternativos de pagamento para se protegerem no futuro.

Tal fragmentação económica, juntamente com as tensões geopolíticas mais profundas que uma guerra fria implica, devastaria o contexto tecnológico do mundo. As restrições às transferências e ligações tecnológicas, muitas vezes justificadas por preocupações de segurança nacional, dariam origem a normas concorrentes e incompatíveis. A Internet iria fragmentar-se em domínios concorrentes. A inovação sofreria, resultando em custos mais elevados, adesão mais lenta e produtos inferiores.

Mas a primeira área a ser atingida por uma fragmentação profunda seria a das cadeias de abastecimento global. Para evitarem ser atingidas pelas tarifas dos EUA, as empresas que fabricam ou montam mercadorias com destino aos EUA, na China, seriam forçadas a transferir as suas instalações para outros países, provavelmente no sul e no sudeste da Ásia.

A curto prazo, essa vaga de transferências – a China está no centro das cadeias de produção mundial - seria extremamente prejudicial. As cadeias de abastecimento fragmentadas que emergem seriam muito menos eficientes, já que nenhum país pode equiparar-se à China em termos de infraestruturas, base industrial ou tamanho e qualificação da mão de obra.

No entanto, se os EUA e a China decidissem realmente travar uma guerra fria prolongada, as consequências económicas - por mais terríveis que fossem - seriam atenuadas por outra consequência: a falta de uma ação suficientemente forte para combater as alterações climáticas.

Na situação atual, a China produz mais de nove mil milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono por ano, tornando-se o maior emissor do mundo. Os EUA aparecem num segundo lugar distante, emitindo cerca de cinco mil milhões de toneladas métricas por ano. Se esses dois países, que juntos são responsáveis por 38% das emissões globais anuais de CO 2 , não conseguirem encontrar um consenso na ação climática, é quase garantido que a humanidade perderá a sua última oportunidade de evitar o aquecimento global catastrófico.

Uma guerra fria sino-americana tornaria esse desenlace muito mais provável. Os EUA insistiriam que a China reduzisse drasticamente as suas emissões, por ser o poluidor número um do mundo em termos absolutos. A China iria contra-atacar dizendo que os EUA têm mais responsabilidade pelas alterações climáticas, tanto em termos cumulativos como   per capita . Presos na concorrência geopolítica, nenhum país estaria disposto a ceder. As negociações climáticas internacionais, já extremamente desafiantes, terminariam num impasse. Mesmo que outros países acordassem medidas, o impacto seria insuficiente sem a participação dos EUA e da China.

A única esperança para a humanidade residiria na inovação tecnológica. No entanto, essa inovação - incluindo o rápido progresso nas energias renováveis ao longo da última década - dependeu crucialmente do fluxo relativamente livre de tecnologias entre fronteiras, para não mencionar a capacidade única da China de ampliar a produção e reduzir custos rapidamente.

No meio da fragmentação económica alimentada pela guerra fria - especialmente as restrições já mencionadas sobre o comércio e as transferências de tecnologia - os avanços urgentemente necessários tornar-se-iam muito mais difíceis de alcançar. Com isso, uma solução tecnológica para as alterações climáticas, já remota, transformar-se-ia efetivamente numa quimera. E a maior ameaça existencial que a humanidade enfrenta seria concretizada.

Não é demasiado tarde para os EUA e a China mudarem de rumo. O problema é que, ao decidirem se o fazem, Trump e o seu homólogo chinês, Xi Jinping, irão provavelmente concentrar-se principalmente, se não exclusivamente, nos interesses nacionais e nos cálculos políticos pessoais. Isso é ser desprovido de visão. Antes de esses dois líderes condenarem irreversivelmente os seus países a passarem as próximas décadas presos num conflito devastador e evitável, deveriam considerar cuidadosamente o que isso significaria não apenas para os EUA e para a China, mas para todo o mundo.

Minxin Pei

Minxin Pei é professor no Claremont McKenna College e autor do Capitalismo de Compadrio na China.

 

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