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Carta de Buenos Aires: O macrismo queria 'voltar ao mundo', agora 'o mundo' governa a Argentina

12-10-2018 - Juan Guahán

Finalmente, os argentinos estão entendendo que aquele “voltar ao mundo” prometido por Mauricio Macri significava que as leis do mercado iriam impor suas condições. Agora sabem: quem governa é o FMI, uma das cabeças do “mercado”.

Em sua campanha presidencial, Macri anunciou a “boa nova”: com seu governo, a Argentina “de volta ao mundo” seria uma realidade que inundaria o país com investimentos em dólares, a economia teria índices maravilhosos, a inflação nunca mais seria um problema, a pobreza seria “zero”, tudo isso graças à “felicidade” que essa abertura “ao mundo” traria.

Já se passaram 34 meses dos 48 previstos para o seu mandato – segundo o estabelecido constitucionalmente – e a realidade é muito diferente daquela promessa: a inflação sobre sem parar e já alcança os 130% no acumulado do ano, a dívida externa cresceu em mais de 60%, a pobreza também supera recordes negativos e a taxa de juros ronda os 75%, sabotando qualquer possibilidade de crédito produtivo.

O mais significativo, contudo, não se pode dizer em números: os argentinos estão comprovando que o “mundo” de Macri é o mercado e suas malignas regras. “Voltar ao mundo” significou se submeter incondicionalmente às medidas impostas pelos organismos de fora. Agora é o FMI que decide por todos os argentinos, chegando ao ponto de o país renunciar à soberania de sua própria moeda.

Tanto é assim que a agência financeira Bloomberg afirmou que “quanto mais medidas tome Macri para tranquilizar os investidores menor será sua possibilidade de se manter no poder, e os investidores estarão mais nervosos pelas perspectivas a longo prazo”.

Hoje, a Argentina é um país sem rumo, como um barco à deriva, em meio a uma crise mundial na que muitos encontram semelhanças com a de 1929. Os argentinos – carentes de um projeto próprio – foram forçados por seu governo a ingressar nessa viagem insólita, cujo final tende a ser trágico.

Naturalmente, os assalariados e demais setores populares são e serão os primeiros afetados por essa situação. Algo que já se pode comprovar com as perdas na renda dos trabalhadores e aposentados. Hoje, como poucas vezes ocorre, está totalmente vigente o ditado de que “os salários sobem pela escada e os preços pelo elevador”.

O colapso do mercado interno, os insuportáveis aumentos das tarifas dos serviços básicos (água, luz, gás), a educação a ponto de implodir e a saúde em terapia intensiva são sinais de uma sociedade onde os mais pobres, já tendo perdido todas as suas reservas e possibilidades, se preparam para passar um verão triste e doloroso.

Indigentes portenhos são um indício

Não é preciso se aprofundar em detalhes, todos sabemos a riqueza e os privilégios que a cidade de Buenos Aires acumula em comparação com o resto do país, e não só por ser a capital federal. Entretanto, alguns dados da Direção de Estatística e Censos mostram uma situação que nos permite imaginar o que ocorre no resto do país: a Cidade de Buenos Aires tem 41 mil indigentes a mais que no trimestre anterior e 59 mil a mais que no ano passado.

Outro dato que surge desse informe oficial é o aumento da desigualdade: os 10% mais ricos possuem agora uma maior participação (que era de 29,8 e passou a 30,6% do total da torta). Aos 10% mais pobres, que antes ficavam com 1,6, e agora lhes resta ainda menos, 1,3% do mesmo total. Os números – proporcionados pelo próprio governo macrista – são claros o suficiente para que não sejam necessários maiores comentários.

Renúncias no triunvirato que comandava a CGT

Quando o triunvirato assumiu a condução da Central Geral dos Trabalhadores (CGT), todos sabiam que ele era o resultado de um fator da realidade: nenhum setor tinha a suficiente força para impor o seu candidato próprio para substituir Hugo Moyano, líder dos caminhoneiros.

Diante da fragilidade de suas posições a respeito das medidas governamentais, foram crescendo também as diferenças internas, que enfraqueceram ainda mais essa unidade. O golpe final foi dado com a renúncia de uma das patas do tripé, Juan Carlos Schmid, herdeiro do moyanismo, que aconteceu nos últimos dias.

É possível que, daqui para frente, a CGT comece a se esvaziar de sindicatos combativos, e outro núcleo ocupe o lugar central das lutas dos trabalhadores contra as medidas do FMI. De qualquer forma, a gravidade da situação social augura a perspectiva que mantenha alguma forma de unidade de ação, para frear os avanços do macrismo.

Juan Guahán é analista político e dirigente social argentino, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli

 

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