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A promessa e as armadilhas da Inteligência Artificial (IA)

14-09-2018 - Jacques Bughin, Nicolas Van Zeebroeck

Como qualquer tendência transformadora, o surgimento da inteligência artificial (IA) tanto representa grandes oportunidades como desafios significativos. Porém, os riscos mais graves podem não ser os mais discutidos.

De acordo com a nova investigação do Instituto Global McKinsey (IGM), a IA tem o potencial de aumentar significativamente a produtividade económica geral. Mesmo contabilizando os custos de transição e os efeitos da concorrência, poderia acrescentar cerca de 13 biliões de dólares americanos ao total dos resultados até 2030 e impulsionar o PIB global em cerca de 1,2% ao ano. Isto é comparável a – ou até mesmo maior do que – o impacto económico de tecnologias anteriores de uso geral, tais como a máquina a vapor durante os anos de 1800, a manufactura industrial nos anos de 1900 e a tecnologia da informação durante os anos 2000.

Talvez a preocupação mais discutida sobre a IA seja a perspectiva de que as máquinas inteligentes irão substituir mais empregos do que os que irão criar. No entanto, a investigação do IGM descobriu que a adopção da IA pode não ter um efeito significativo sobre o emprego líquido a longo prazo. O investimento extra no sector poderia contribuir em 5% para o emprego até 2030 e a riqueza adicional criada poderia elevar a procura de mão-de-obra, aumentando o emprego em mais 12%.

Contudo, enquanto o quadro geral é positivo, as notícias não são todas boas. Por um lado, é possível que leve tempo para que os benefícios da IA – particularmente no que se refere a produtividade – sejam sentidos. De facto, a investigação do IGM sugere que a contribuição da IA para o crescimento pode ser três ou mais vezes maior até 2030 do que nos próximos cinco anos.

Isto está de acordo com o chamado paradoxo informático Solow: os ganhos de produtividade não acompanham os avanços tecnológicos – um fenómeno notável durante a revolução digital. Isto ocorre em parte porque, inicialmente, as economias enfrentam altos custos de implementação e de transição, os quais as estimativas de impacto económico da IA tendem a ignorar. A simulação do IGM sugere que estes custos atingirão 80% dos ganhos potenciais brutos em cinco anos, no entanto, vão diminuir para um terço desses ganhos até 2030.

A característica potencial mais problemática da revolução da IA é que os seus benefícios provavelmente não serão partilhados de maneira equitativa. As "clivagens da IA" resultantes reforçarão as clivagens digitais que já alimentam a desigualdade económica e enfraquecem a concorrência. Estas clivagens poderiam surgir em três áreas.

A primeira clivagem surgiria ao nível empresarial. As empresas inovadoras e de ponta que adoptam totalmente as tecnologias da IA poderiam duplicar o seu fluxo de caixa entre hoje e 2030 - um resultado que provavelmente implicaria a contratação de muito mais trabalhadores. Estas empresas ultrapassariam aquelas que não estão dispostas ou são incapazes de implementar tecnologias de IA na mesma proporção. Na verdade, as empresas que não adoptam de todo a IA poderiam experimentar um declínio de 20% no seu fluxo de caixa à medida que perderiam quota de mercado, colocando-os sob pressão para dispensarem trabalhadores.

A segunda clivagem diz respeito às competências. A proliferação de tecnologias de IA irá reduzir a procura de mão-de-obra de tarefas repetitivas que podem ser mais facilmente automatizadas ou subcontratadas a plataformas, em relação a tarefas socialmente ou cognitivamente direccionadas. Os modelos do IGM indicam que os perfis de trabalho caracterizados por tarefas repetitivas e por pouco conhecimento digital poderiam diminuir em cerca de 40% do emprego total até perto de 30% até 2030. Entretanto, a parte dos trabalhos que implicam actividades não-repetitivas ou que exigem competências digitais de alto nível é susceptível de aumentar de cerca de 40% a mais de 50%.

Esta mudança poderia contribuir para um aumento nos diferenciais salariais, com cerca de 13% da massa salarial total potencialmente direccionada para trabalhos não repetitivos que requerem competências digitais de alto nível, à medida que aumentam os rendimentos naqueles campos. Os trabalhadores das categorias repetitivas e de baixas competências digitais podem experimentar uma estagnação salarial ou mesmo uma redução, contribuindo para um declínio da sua participação na massa salarial de 33% para 20%.

A terceira clivagem da IA - entre países - já é aparente e parece destinada a ampliar-se ainda mais. Esses países, principalmente no mundo desenvolvido, que se estabeleceram a eles próprios como líderes da IA poderiam capturar um adicional de 20-25% em benefícios económicos comparado com hoje, enquanto as economias emergentes poderiam acumular apenas 5-15% extra.

As economias avançadas têm uma clara vantagem na adopção da IA porque estão mais adiantadas na implementação de tecnologias digitais anteriores. Têm também incentivos poderosos para adoptarem a IA: o crescimento de baixa produtividade, o envelhecimento da população e os custos laborais relativamente altos.

Em contraste, muitas economias em desenvolvimento têm infra-estruturas digitais insuficientes, pouca inovação e capacidade de investimento e pouca base de competências. Acrescentemos a isso os efeitos atenuantes da motivação dos salários baixos e o espaço amplo para a recuperação de produtividade e é improvável que estas economias mantenham o ritmo dos seus homólogos avançados na adopção da IA.

O surgimento ou a expansão destas clivagens na IA não é inevitável. Em particular, as economias em desenvolvimento podem optar por adoptar uma abordagem inovadora que inclua o fortalecimento das suas bases digitais e o incentivo activo à adopção da IA. Ademais, para garantir que as suas necessidades de trabalho em mudança sejam atendidas, as empresas podem desempenhar um papel mais activo no apoio à actualização educacional e à aprendizagem contínua para pessoas com menos competências.

Além disso, estas clivagens não são necessariamente uma evolução negativa. A re-alocação de recursos para empresas com maior desempenho torna as economias mais saudáveis, proporcionando-lhes potencialmente novas vantagens competitivas   vis-à-vis   a outros países.

Porém, os riscos colocados por estas clivagens não devem ser subestimados. A visão e a perseverança são essenciais para fazer a revolução da IA funcionar porque ela trará dor a curto prazo antes dos ganhos a longo prazo. Se essa dor ocorrer num contexto de frustração com a distribuição desigual dos benefícios da IA, pode desencadear uma reacção contra as tecnologias que, caso contrário, poderia produzir um ciclo virtuoso de maior produtividade, de crescimento de rendimentos e procura de expansão do emprego.

Jacques Bughin é diretor do McKinsey Global Institute e sócio sénior da McKinsey & Company.

Nicolas van Zeebroeck é Professor de Inovação, Estratégia de TI e Negócios Digitais na Solvay Brussels School, Universidade Livre de Bruxelas.

 

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