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A China está a perder a nova guerra fria

14-09-2018 - Minxin Pei

Quando a União Soviética implodiu em 1991, tornou-se uma obsessão para o Partido Comunista da China (PCC) compreender as razões desse facto. Os grupos de reflexão governamentais a quem essa tarefa foi atribuída colocaram a maior parte da culpa sobre Mikhail Gorbachev, o líder reformista que pura e simplesmente não fora suficientemente implacável para manter a integridade da União Soviética. Mas os líderes chineses também sublinharam outros factores importantes, que actualmente não parecem estar todos a ser considerados pelos líderes da China.

Na verdade, o PCC levou sem dúvida a sério a primeira lição crucial: o bom desempenho económico é essencial à legitimidade política. E a aposta firme do PCC no estímulo do crescimento do PIB durante as últimas décadas produziu um “milagre económico”, com o rendimento nominal   per capita   a disparar dos 333 dólares em 1991 para os 7329 dólares do ano passado. Esta é a justificação mais importante para que o PCC tenha conservado o poder.

Mas descurar uma economia débil dificilmente foi o único erro cometido pelos líderes soviéticos. Também foram arrastados para uma corrida ao armamento dispendiosa e impossível de vencer com os Estados Unidos, e foram vítimas de sobrepujança imperial, esbanjando dinheiro e recursos em regimes com pouco valor estratégico e longos historiais de má administração crónica. Agora que a China entra numa nova “guerra fria” com os EUA, o PCC parece correr o risco de repetir os mesmos erros catastróficos.

À primeira vista, pode não parecer que a China esteja realmente envolvida numa corrida aos armamentos com os EUA. Afinal, o orçamento oficial da China para a defesa este ano – cerca de 175 mil milhões de dólares – é apenas perto de um quarto do orçamento de 700 mil milhões de dólares, aprovado pelo Congresso dos EUA. Mas estima-se que os gastos militares actuais da China sejam muito maiores que o orçamento oficial. Segundo oStockholm International Peace Research Institute, a China gastou perto de 228 mil milhões de dólares nas suas forças armadas no ano passado, aproximadamente 150% do valor oficial de 151 mil milhões de dólares.

Em todo o caso, a questão não é a quantidade de dinheiro que a China gasta em armas   per se , mas antes o aumento consistente da despesa militar, que indica que o país está preparado para se envolver numa prolongada guerra de atrito com os EUA. Contudo, a economia da China não está apetrechada para gerar recursos suficientes que apoiem o nível de despesa necessário a uma vitória nesta frente.

Se a China tivesse um modelo de crescimento sustentável, e uma economia altamente eficiente apoiada nesse modelo, poderia ser capaz de custear uma moderada corrida aos armamentos com os EUA. Mas não cumpre nenhuma estas condições.

A nível macro, o crescimento da China continuará provavelmente a desacelerar, devido ao rápido envelhecimento da população, aos níveis elevados da dívida, aos desfasamentos das maturidades de crédito e à guerra comercial progressiva iniciada pelos EUA. Tudo isto esgotará os recursos limitados do PCC. Por exemplo, à medida que aumenta o rácio de dependência dos idosos, também aumentam os custos com cuidados de saúde e com as pensões.

Além disso, embora a economia chinesa possa ser muito mais eficiente do que era a economia soviética, não é nem de perto tão eficiente como a dos EUA. A principal razão para isto é a influência duradoura das empresas estatais (EE) da China, que consomem metade do crédito bancário total do país, mas apenas contribuem com 20% do valor acrescentado e do emprego.

O problema para o PCC é que as EE desempenham um papel vital na sustentação do poder do partido único, já que são usadas simultaneamente para recompensar os apoiantes leais e para facilitar a intervenção governamental em nome das metas macroeconómicas oficiais. Portanto, o desmantelamento destas empresas insufladas e ineficientes corresponderia a um suicídio político. Mas a sua protecção pode apenas atrasar o inevitável, porque quanto mais tempo lhes for permitido sugar recursos escassos da economia, mais inacessível se tornará uma corrida ao armamento com os EUA – e maior se tornará o desafio à autoridade do PCC.

A segunda lição que os líderes da China não conseguiram compreender adequadamente é a necessidade de evitar os excessos imperialistas. Há cerca de uma década, detentor de uma abundância de moeda forte originada pelos enormes excedentes comerciais, o governo chinês começou a assumir dispendiosos compromissos ultramarinos e a subsidiar “aliados” pobres.

A prova A é a muito apregoada Iniciativa Uma Cintura, Uma Estrada (UCUE), um programa de 1 bilião de dólares, focado na construção de infra-estruturas financiadas por crédito em países em desenvolvimento. Apesar dos sinais iniciais de problemas – que, juntamente com a experiência da União Soviética, deveriam dar que pensar ao PCC – a China parece determinada em avançar com a UCUE, que os líderes do país definiram como um pilar da sua nova “grande estratégia”.

Um exemplo ainda mais flagrante de sobrepujança imperial é a ajuda generosa da China a países – do Camboja à Venezuela e à Rússia – que pouco oferecem em troca. Segundo a AidData do   College of William and Mary , entre 2000 e 2014, Camboja, Camarões, Côte d’Ivoire, Cuba, Etiópia e Zimbabué receberam conjuntamente da China 24,4 mil milhões de dólares em subsídios ou empréstimos altamente subsidiados. Durante o mesmo período, Angola, Laos, Paquistão, Rússia, Turquemenistão, e Venezuela receberam 98,2 mil milhões de dólares.

Agora, a China comprometeu-se a ceder 62 mil milhões de dólares em empréstimos para o “corredor económico China-Paquistão”. Esse programa ajudará o Paquistão a enfrentar a sua iminente crise na balança de pagamentos; mas também esgotará os cofres governamentais chineses numa altura em que o proteccionismo comercial ameaça o seu reabastecimento.

Tal como a União Soviética, a China está a pagar uma fortuna por um conjunto reduzido de amigos, ganhando apenas benefícios limitados ao mesmo tempo que fica cada vez mais entrincheirada numa insustentável corrida aos armamentos. A Guerra Fria Sino-Americana ainda mal começou, e a China já está posicionada para perder.

Minxin Pei é professor no Claremont McKenna College e autor do China’s Crony Capitalism.

 

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