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Segunda-feira 19 de Novembro de 2018  
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A ordem económica neoliberal está se rompendo?

17-08-2018 - Mark Aguirre

É difícil prever o futuro, mas certamente presenciaremos, em breve, as batalhas decisivas que abrirão os espaços para os que acreditam que outro mundo é possível. O que inclui a possibilidade de uma ordem mundial democrática sem impérios.

O conflito anunciado entre a China e os Estados Unidos começa a ganhar forma. Se trata das duas mais poderosas economias mundiais. Mas não se trata somente um choque entre dois gigantes. Até agora, os dois países vinham se entendendo de forma um tanto obrigatória, já que a economia mundial nunca antes havia estado tão inter-relacionada e globalizada. Mas esta não é época de boas notícias. O “salve-se quem puder” já foi anunciado.

Foi Washington, sob administração da direita radical, que tocou a corneta. A base social do Presidente Trump é a antiga classe média, os trabalhadores brancos empobrecidos, que exigem uma mudança. Trump já impôs novas tarifas a produtos importantes, chegando a cobrar um total de 34 biliões de dólares dos produtos chineses – para, entre outras coisas, satisfazer esse eleitorado. No fundo, esse montante é pequeno para uma economia como a dos Estados Unidos, que exporta até 1,55 trilião de dólares em bens. Mas não a questão não é apenas estabelecer uma sanção econômica a um suposto mal comportamento. Os Estados Unidos acusam a China de concorrência desleal. É algo mais profundo. A direita nacionalista, pasma diante do declínio dos Estados Unidos, quer destruir a ascensão da China, que todo o mundo sabe que se sustenta em sua pujança econômica.

A direita radical sempre quis isolar a China, pois vê nela uma ameaça ao poderio dos Estados Unidos, um rival que pode lhe roubar a hegemonia. Em 1997, Richard Bernstein e Ross H. Munro publicaram um livro chamado The Coming Conflict with China (“O Conflito Vindouro com a China”, em tradução livre), que combatia a ideia de que China pudesse ser uma parceira. Fracassaram naquele então. Agora, com a direita radical no poder, o país voltou a defender essa ideia. As sanções são um aviso a Pequim de que a política de America First chegou para mudar o jogo: “somos nós que impomos as regras”. Algo que o orgulho nacionalista chinês, fortalecido por três décadas seguidas de sucesso e uma forte liderança, não pode aceitar – e duvido que os Estados Unidos estejam em condições de se impor sem uma grave crise de resultados incertos.

A China contra-ataca na mesma moeda, aumentando proporcionalmente as tarifas aos produtos importados estadunidenses, dando início a um conflito que ninguém sabe quando e como terminará. Trump ameaça impor novas tarifas, desta vez por um valor de 200 bilhões de dólares, superior ao de todas as importações chinesas nos Estados Unidos, e ainda assegura que tem preparada artilharia tarifária para castigar os produtos chineses até os 450 biliões. Washington acredita que as sanções dificultarão os avanços tecnológicos da China, cujo plano é diminuir paulatinamente até acabar, já na próxima década, com sua brecha tecnológica com relação ao Ocidente (falamos de aviões comerciais, robótica, 5G, telefones celulares, microchips para computadores, etc).

O conflito é como atinge a ordem econômica mundial da globalização como um sismo, ainda sem intensidade definida. Um modelo que já estava em crise com o Brexit, as novas tarifas comerciais a produtos europeus nos Estados Unidos e estadunidenses na Europa, além das sanções contra Rússia, Irão e Venezuela – casualmente, três grandes produtores de petróleo.

A China aceitou a ordem neoliberal quando os Estados Unidos lhe ofereceram a ideia de se tornar a fábrica do mundo. Deng Xiaoping, então mandatário da China, viu ali uma oportunidade para modernizar o país, enquanto os capitalistas dos Estados Unidos buscavam uma maneira de aumentar os lucros reduzindo dramaticamente salários e outros custos, sobretudo as externalidades ecológicas. O anúncio simbólico foi feito em 1979, durante a visita de Xiaoping aos Estados Unidos, quando foi fotografado como um cowboy em um rodeio e visitou uma das fábricas da Ford no Estados da Geórgia. Parecia uma operação na que ambos sairiam vencedores, pois as empresas estadunidenses se beneficiariam, e também os consumidores, que aumentariam sua capacidade de gasto ao poder comprar os mesmos bens que compravam antes, mas agora mais barato, e tudo Made in China. Enquanto isso, a China modernizaria suas empresas, que “aprenderiam a nadar no capitalismo”, e milhões de camponeses sairiam da pobreza ao se transformarem em operários assalariados.

As negociações foram longas e não somente comerciais. Os Estados Unidos tentaram vincular o acordo económico aos direitos humanos, e a China ao reconhecimento de que Taiwan era parte do seu país. Foram negociações políticas difíceis, concluídas somente em 1994, quando a China liberou a alguns dissidentes, aceitou o dólar como meio de pagamento internacional e se comprometeu a investir seus superávits comerciais nos Estados Unidos, comprando dívida pública. Era um cadeado que protegia o dólar internacionalmente. Os Estados Unidos, por sua parte, deixaram de vender armas sofisticadas a Taiwan e elevou a China ao status de Nação Económica Mais Favorecida, antes de a China ser aceita na Organização Mundial do Comércio, o que abriu as aduanas aos seus produtos. Por sua vez, os estadunidenses baixaram o tom agressivo do seu discurso a respeito dos dissidentes, especialmente no caso do Tibet. Era um acordo estratégico, que definiu o sistema internacional globalizado desde aquele então, cujas consequências são visíveis até hoje.

A ordem económica internacional neoliberal se caracteriza pela desindustrialização dos Estados Unidos e da Europa e a industrialização do Leste e do sul da Ásia; enquanto os norte-americanos, com a financeirização da economia, permite que Wall Street substitua a General Motors como o xerife do sistema. África e América Latina eram terra virgem para que a China buscasse a energia e as matérias-primas que suas fábricas necessitavam. O funcionou mais ou menos bem até a crise de 2008, quando se ficaram evidentes os estragos sociais que as condições de vida das classes operárias dos países do Ocidente haviam sofrido, afetando assim um elemento central da ordem capitalista. Agora, todas as regiões econômicas devem redefinir seu modelo econômico, abrindo possibilidades para uma mudança de rumo anti neoliberal.

Nos Estados Unidos, a empresas têxteis do sul do país começaram a se mudar para a China assim que o acordo foi assinado. Logo, outros setores cada vez mais sofisticados do cinturão da industrial do Meio Oeste foram fazendo o mesmo. A classe operária branca, a famosa classe média do american way of life, começou a perder empregos e renda, enquanto os banqueiros e capitalistas se beneficiavam, ao se apropriar da enorme riqueza que estavam gerando. A oligarquia do 1%, a classe social com maior riqueza acumulada na história humana, não parava de esfregar as mãos com o lucro que esperava. Os operários desempregados, furiosos com o que viam, acabaram votando contra o establishment, elegendo Trump como presidente.

Na China, as fábricas estatais maoístas foram desmanteladas, abrindo o caminho ao investimento capitalista. Os operários aceitaram a mudança porque o Estado distribuiu (não equitativamente, os mais beneficiados foram os hierarcas do partido comunista e seus familiares) a riqueza pública acumulada sob o período do maoísmo. Esses operários passaram a ser proprietários de suas moradias e tiveram acesso a privilégios que os migrantes internos – camponeses que tiveram seus vilarejos desmantelados e fugiram para as grandes cidades, para trabalhar na construção – não tinham. A desigualdade social começava de novo. A febre da industrialização tornou o solo agrícola na periferia das cidades costeiras em polígonos industriais abrindo a elas o capital privado estrangeiro, orientando sua produção à exportação. Os desastres ecológicos se dispararam. Os velhos camponeses empobrecidos transformados em operários saíram relativamente da pobreza. O consumo massivo de uma classe média urbana que nascia foi o que legitimou o novo modelo defendido pelo Partido Comunista. O orgulho nacionalista foi reforçado. Os que para os Estados Unidos foram anos de decadência, na China pareciam tempos de uma pujança desconhecida em sua história moderna.

A promessa social de Trump é a de reverter o sucateamento nacional criado por este modelo. Para isso, ele ainda conta com o apoio de 90% do eleitorado republicano – considerando o voto popular, não a necessariamente a os militantes do partido. Esse eleitor branco estadunidense atribui a culpa pela sua situação atual a países como a China, o México e a Alemanha, e não no modelo que seu próprio país impulsou nos últimos 20 anos. Trump pensa que, invocar o slogan do America First é o que basta para que tudo volte a ser como antes. Ele prometeu essa ênfase na guerra comercial em sua campanha, e necessita do apoio de sua base social para as eleições legislativas de novembro. Na verdade, Trump está dando golpes cegos, como se a ordem mundial fosse uma piñata e os Estados Unidos tivessem acesso exclusivo garantido ao prêmio quando ela se quebre e os supostos doces caiam no chão. Claro, é uma fantasia. A China empoderada e não vai aceitar o poder dos Estados Unidos num mundo que colapsa. Nesta guerra, não haverá vencedores, porque não é possível que um se sobreponha ao outro, segundo as premissas atuais. No caso de que as fábricas regressem aos Estados Unidos, não serão os desempregados brancos que assumiram esses empregos. Eles serão rejeitados, em nome dos robôs de dos computadores. O capitalismo se move em função dos benefícios, não por considerações sociais. Na China, sem mercados, as fábricas fecharão, gerando instabilidade social e política. A profundidade do impacto dependerá da capacidade do país em aprofundar um modelo econômico orientado à demanda interna. É difícil pensar que a Europa possa absorver o que China deixará de vender aos Estados Unidos – até porque a mesma política de guerra tributária poderia ser aplicada, posteriormente, às fábricas alemãs.

Não se saber ao certo o que acontecerá daqui para frente. A China pode se ver tentada a dar as costas ao dólar como moeda de câmbio internacional – a coluna vertebral da ordem econômica atual –, acelerando o processo de decadência dos Estados Unidos. Se ainda não o fez é porque acredita que essa medida, agora, seria disparar contra o seu próprio pé, mas certamente está preparando esse passo. O cadeado que os Estados Unidos impuseram para proteger sua moeda como referência no comércio internacional atua como um freio poderoso. A reservas chinesas são imensas, as maiores do mundo, e são em dólares.

A verdade é que estamos entrando em um território desconhecido, por isso a paralisia escandalosa dos líderes europeus. É difícil prever o futuro, mas certamente presenciaremos, em breve, as batalhas decisivas que abrirão os espaços para os que acreditam que outro mundo é possível. O que inclui a possibilidade de uma ordem mundial democrática sem impérios.

Fonte: El Viejo Topo

 

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