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Terça-feira 25 de Setembro de 2018  
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A epidemia que temos de deixar de ignorar

06-07-2018 - José Luis Castro

Um aluno da escola primária é diagnosticado com tuberculose (TB) num bairro frondoso fora de Washington, DC. Uma criança com meningite tuberculosa é transportada de helicóptero para um hospital, no leste do Canadá. Um aluno do pré-escolar, em Smarves, França, revela sintomas de TB um ano depois de um colega de escola ter morrido da doença

Estas são apenas três vítimas de uma epidemia de TB que irá afligir um milhão de crianças este ano. Entre aqueles que têm a sorte de receber o tratamento convencional com antibióticos, e não têm fatores de complicação como o VIH,   99%   sobreviverão. E ainda assim,   90% das crianças   que morrem de TB foram privadas de tratamento e um quarto de milhão de crianças morrerá da doença, só neste ano. Não há subtilezas para esta história: as autoridades dos cuidados de saúde, em todo o mundo, estão a deixar as crianças com TB à sua sorte.

Se isto parece excessivo, prestemos atenção às primeiras linhas de um   trabalho de investigação,   de 2016, realizado por peritos do Imperial College London, do Conselho de Investigação Médica e da UNICEF.   “Até há pouco tempo, a tuberculose pediátrica foi relativamente negligenciada pelas comunidades mais alargadas de TB, e de saúde infantil e materna” , escrevem os autores.   “As abordagens baseadas nos direitos humanos às crianças afetadas pela TB poderiam ser poderosas; contudo, a sensibilização e a aplicação dessas estratégias não são difundidas” . Por outras palavras, as crianças com TB foram abandonadas pelas mesmas comunidades que deveriam cuidar delas, mas pouca gente está ciente do problema.

A nível mundial, a TB mata mais pessoas do que qualquer outra doença transmissível. É uma questão grave de saúde pública, uma vez que a bactéria que a provoca espalha-se facilmente pelo ar. Mas combater a TB em crianças não é mesmo do que lutar contra ela em adultos. Em virtude de os testes da TB terem sido concebidos para adultos, eles não são fiáveis para diagnosticar crianças, as quais apresentam frequentemente sintomas diferentes.

Esta é uma razão pela qual as crianças não são tratadas. Mas uma explicação ainda mais simples é o facto de a doença não ser tão contagiosa nas crianças como o é nos adultos. Quando as crianças tossem, os seus corpos mais fracos expelem menos germes de TB do que os adultos. E quando a TB aflige crianças, a bactéria muitas vezes ataca outras partes do corpo, além dos pulmões – como o abdómen e os tecidos que circundam o cérebro.

É verdade que qualquer profissional de saúde não está a deixar, de forma consciente, as crianças com TB a sofrer e a morrer. Mas os   sistemas   de saúde estão. A nível global, os esforços para combater a TB carecem de recursos. E com mais de dez milhões de pessoas a contrair a doença todos os anos, os fundos tendem a ser direcionados para o impedimento da sua proliferação. Então, apesar de as crianças serem uma das populações de doentes mais vulneráveis, as suas necessidades são ignoradas, pelo facto de a doença ser menos contagiosa em crianças.

Devido a estas prioridades ao nível dos sistemas, um milhão de crianças está a morrer de uma doença evitável e tratável, de quatro em quatro anos. Isto é uma catástrofe em termos de direitos humanos.

Felizmente, as medidas práticas destinadas a salvar vidas para fazer face à epidemia da TB infantil já existem. Por exemplo, sabemos que cerca de metade das crianças que vive com um adulto infetado com TB, também contrairá a doença. Consequentemente, é de esperar que as crianças que vivam com um adulto infetado sejam examinadas e recebam tratamentos adequados. No entanto, um   estudo publicado em 2017 na revista  The Lancet  afirma que "ainda há uma pesquisa muito subutilizada sobre infecções em casa" em países onde a tuberculose é comum.

Além disso, os profissionais de saúde e as autoridades de saúde pública poderiam detetar muitos mais casos de TB infantil, prestando, simplesmente, mais atenção aos seus sintomas. Depois de a União Internacional contra a Tuberculose e as Doenças Pulmonares começar a   defender   esta abordagem no Uganda, o número de casos diagnosticados de TB pediátrica mais que duplicou nas zonas onde foi implementada. Mas, além deste exemplo, as crianças têm ficado geralmente de fora da investigação sobre a TB e necessitamos urgentemente de desenvolver novas ferramentas criadas especificamente para elas.

A TB infantil é um problema moral e político. Sendo assim, os governos deveriam colocar os direitos humanos no centro das suas estratégias, políticas e serviços de saúde pública relacionados com a TB. A   Convenção sobre os Direitos da Criança   –o tratado mais amplamente ratificado do mundo –pode servir de estrutura orientadora.

Deveriam iniciar este trabalho imediatamente. Em maio, as principais autoridades de saúde na Assembleia Mundial de Saúde, em Genebra, iniciaram os preparativos para a Reunião de Alto Nível sobre a Tuberculose, na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro. Pela primeira vez na história, os chefes de estado mundiais irão reunir-se para explorarem formas de acabar com a TB. O resultado irá definir a resposta internacional à TB nos próximos anos.

Espera-se que os líderes mundiais percebam que a epidemia da TB pediátrica reflete a negligência generalizada dos direitos fundamentais das crianças e poderia ser reduzida dramaticamente com intervenções políticas existentes. Já não há qualquer desculpa para ignorar esta calamidade.

José Luis Castro

José Luis Castro é Diretor Executivo da União Internacional Contra a Tuberculose e Doença Pulmonar.

 

 

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