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Carta de Paris: As lições de Maio de 68 na França

08-06-2018 - Leneide Duarte-Plon

Para De Gaulle, la chienlit (Mau Humor), para a esquerda, um momento glorioso de parcos resultados políticos.

Em maio de 68, ele não tinha sequer nascido mas o presidente Emmanuel Macron pensou, no final do ano passado, em organizar uma comemoração oficial da data mítica que habita o inconsciente coletivo francês.

Desistiu de promovê-la pela polémica que a memória de Maio de 68 desperta.

Cinquenta anos depois, sociólogos e cientistas políticos de esquerda voltam a se debruçar sobre a data para tentar apreender todo o significado daquela primavera em que tudo parecia possível na França, inclusive uma Revolução. Quanto à direita, ela sempre detestou Maio de 68.

Livros, documentários em diversos canais de TV, edições especiais de revistas e jornais. Toda a mídia orbitou este mês em torno desta data marcante da segunda metade do século XX, quando jovens marxistas, trotskistas e maoístas por pouco não pegavam em armas.

Foi uma época de muita agitação – barricadas, greves de estudantes, greves de operários, slogans que correram o mundo, imagens icónicas – para poucos resultados políticos.

A França não fez outra revolução, mas, desgastado pelo exercício do poder e tendo perdido um plebiscito, De Gaulle cedeu o lugar ao candidato da direita gaullista Georges Pompidou, que se elegeu, em 1969, como segundo presidente da V República vencendo o candidato do centro democrático, Alain Poher. A esquerda nem chegou á segunda volta.

Dez anos depois da data, em 1978, Régis Debray – que entrevistou Che Guevara na guerrilha boliviana – escreveu que Maio de 68 fora um psicodrama anarquista. "Maio de 68 foi o acto fundador da americanização da França e sua conversão ao neoliberalismo", pensa Debray.

Revolta libertária

O que mudou, e muito, depois de Maio de 68 foi a sociedade francesa: os costumes e as relações intergeracionais, que permitiram avanços como os do movimento feminista, entre outros.

"Era uma revolta libertária", disse este mês o sociólogo e filósofo Edgar Morin em entrevista ao "Le Monde". "Penso que foi o fracasso da esperança revolucionária que favoreceu a adaptação à sociedade que os jovens de 68 recusavam. Maio de 68 era, ao mesmo tempo, individualista e comunitário, havia o "gozo sem entraves" mas também a aspiração e o calor da comunidade".

Alexandre Lacroix, director de redação da revista "Philosophie Magazine" e professor do prestigioso Institut d’Etudes Politiques de Paris (Sciences Po) escreveu no mesmo jornal um artigo cujo título não podia ser mais claro: "Por que não tenho vontade de comemorar Maio de 68"? Ele termina dizendo que os que tinham 20 anos em 1968 e incendiaram carros e formaram barricadas no Quartier Latin parecem pensar que nunca mais houve jovens depois deles.

"Se acreditássemos neles, a juventude de hoje seria medrosa, não suficientemente politizada, consumista demais, narcisista, conectada excessivamente. Por que eles não admitem que têm 70 anos e que devem sentar no banco que os jovens cedem no metro? E que, enquanto isso, os jovens correm em busca de aventuras?", indaga Lacroix.

A esquerda olha Maio de 68 como um momento de glória, de contestação, de conquistas na área do trabalho, mudanças importantes na sociedade francesa. Como se tivessem passado um aspirador para retirar a poeira que se acumulara.

"Tomamos a palavra como tínhamos tomado a Bastilha", resumiu um dia o teólogo, filósofo e psicanalista Michel de Certeau.

O problema é que só quem tomou a palavra naquele maio de 68 parisiense foram os homens. As mulheres tinham o direito de participar de todas as passeatas, das discussões e de … calar-se.

Mas, é sabido que o avanço da luta feminista no começo dos anos 70 deve muito ao "espírito de maio de 68", segundo os que estudam o feminismo francês.

Para o outro lado do espectro político, a direita, gaullista ou extrema, Maio de 68 é uma data resumida na palavra que De Gaulle usou para qualificá-la: "la chienlit", isto é, mau humor, desordem.

Para os analistas de direita, Maio de 68 sempre teve uma conotação negativa, de anarquia e tentativa de destruição dos valores morais. Em 2007, o candidato à presidência Nicolas Sarkozy propôs, entre os dois turnos, que a França "liquidasse a herança de maio de 68" votando nele e não na socialista Ségolène Royal.

Serge Audier em seu livro "La pensée anti-68" viu derrubarem os "valores tradicionais" como uma das causas que facilitaram a "internacionalização" da sociedade francesa na direção da sociedade de consumo e da mercantilização do mundo.

Quando vemos hoje em documentários cenas das verdadeiras batalhas urbanas que foram o confronto dos polícias pelos estudantes no Quartier Latin – protegidos por barricadas e armados de paralelepípedos que desenterravam das ruas – entendemos a decisão do prefeito de Paris de alcatroar as ruas esburacadas da capital.

As ruas alcatroadas do centro de Paris também são fruto de Maio de 68 cujo legado histórico continua despertando polémica.

Fonte: Carta Maior

 

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