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Manual de Crise para Grandes Empresas de Tecnologia

04-05-2018 - Alexandra Borchardt

As previsões estavam erradas: a economia global não entrou em colapso após a crise financeira de 2008. Sustentados pelos resgates financeiros financiados pelos contribuintes, os bancos recuperaram e a actividade económica estabilizou na maioria das instituições. No entanto, se há uma vítima prolongada dessa época, é a erosão da confiança pública no sector financeiro. Dez anos após o início da crise, o público em geral tem ainda pouca fé em Wall Street.

Esta crise de confiança atormenta a indústria da tecnologia actualmente. Enquanto os executivos do Facebook e da Cambridge Analytica racionalizam o   uso e o abuso dos dados pessoais   por parte das suas empresas, a confiança nas empresas de tecnologia está à beira de um ponto crítico. As grandes empresas de tecnologia ainda estão a tempo de salvar a sua reputação, porém, as mais poderosas deverão mudar significativamente a forma como funcionam. E para tal, devem evitar os erros que quase incapacitaram o sector financeiro há uma década.

Cinco lições-chave extraídas da crise financeira devem servir de guia à actual tomada de decisões no sector da tecnologia. Em primeiro lugar, a “iliteracia” dos consumidores pode ter custos elevados. Pouco antes de rebentar a bolha imobiliária, muitos investidores aperceberam-se de que não tinham qualquer conhecimento sobre os produtos que adquiriam; alguns nem sabiam sequer que estavam a adquirir alguma coisa. O jornalismo financeiro contribuiu para este ambiente de ignorância ao concentrar-se unicamente nos proveitos potenciais e ignorando os riscos.

As pessoas aderiram à tecnologia de forma semelhante. As empresas e os governos ligaram alegremente todas as suas operações a plataformas que não conseguem controlar. Quando surge alguma dúvida, esta é geralmente sustida porque a tecnologia é demasiado conveniente para ser abandonada. Contudo, tal como acontece com os produtos financeiros de risco, a única forma de atenuar os riscos das novas tecnologias é ter informações adequadas sobre o que poderá correr mal.

A segunda lição é a dos custos ocultos. Antes da crise financeira, muitos clientes compravam produtos com taxas desconhecidas e acréscimos financeiros que se tornaram responsabilidades avultadas. Actualmente, cada vez mais investidores reconhecem que os ganhos mais elevados implicam riscos mais elevados, no entanto, no sector da tecnologia, os custos ocultos continuam a enganar consumidores inocentes. Alguns destes custos são de natureza social - tal como a pressão exercida pelos anunciantes para a compra de produtos. Outros são mais tangíveis, tal como fornecer dados pessoais em troca do acesso a um serviço.

Em terceiro lugar, o pagamento e as estruturas de incentivo desiguais são negativos para os negócios. Muito se escreveu sobre os bónus extraordinários pagos aos banqueiros de investimento durante o auge da crise financeira. No entanto, os directores executivos de Silicon Valley também não são o Robin dos Bosques. Os empresários do sector da tecnologia podem dizer aos seus investidores que querem mudar o mundo, contudo, muitos estão intoxicados pela ideia de que o mundo será melhor quando venderem o seu negócio a quem fizer uma oferta mais elevada.

A quarta lição é a de que os negócios com predominância masculina assumem mais riscos desnecessários. Quando a história da crise financeira estava a ser escrita, muitos defendiam que uma maior diversidade de género permitiria atenuar os danos. Em 2010, dois anos após o colapso do banco Lehman Brothers (Irmãos Lehman), Christine Lagarde, qe na época era a Ministra das Finanças de França, gracejou afirmando que a crise teria sido menos penosa se as “Irmãs Lehman” tivessem estado no controlo do banco. A mesma lógica pode ser aplicada actualmente ao sector da tecnologia.

Por último, tal como aprendemos há uma década, a economia global está profundamente interligada; nenhum banco era demasiado grande para falir ou para ser resgatado. Isto também se aplica às maiores empresas de tecnologia. O colapso da Amazon ou da Google - por muito invulneráveis que possam parecer - teria uma repercussão devastadora. Enquanto muitos defendem que seria insensato regulamentar as empresas de tecnologia tendo em vista a preocupação com a censura e o acesso ao conhecimento, estas empresas, tal como as suas homólogas do sector financeiro, cresceram demasiado para serem deixadas entregues aos seus próprios mecanismos.

Na década em que estalou a crise financeira, as mudanças estruturais ajudaram a estabilizar a indústria dos serviços bancários e financeiros. A regulamentação aumentou a transparência e melhorou a consciencialização do consumidor. Contudo, a velha dinâmica, as estruturas do poder e as tabelas salariais gigantescas sobreviveram na sua maioria. Consequentemente, a reputação do sector está em farrapos.

Para que a indústria da tecnologia evite um destino semelhante, os seus líderes devem aumentar a literacia dos consumidores sobre os produtos que oferecem e os perigos potenciais que contêm. Os directores executivos devem apoiar a regulamentação, aumentar a diversidade do local de trabalho e tornar as estruturas de compensação e de incentivos mais equitativas. Devem, sobretudo, evitar os erros cometidos por outras indústrias que atravessaram crises. Além disso, nenhuma indústria oferece um estudo de caso mais relevante do que aquela que quase derrubou a economia global.

Alexandra Borchardt

É Directora de Desenvolvimento Estratégico do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo.

 

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