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Terça-feira 24 de Abril de 2018  
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QUANDO VENCEREMOS?

23-03-2018 - Joseph E. Stiglitz

NOVA IORQUE – Em 1967, eclodiram motins em cidades por todos os Estados Unidos, desde Newark, em Nova Jérsia, até Detroit e Mineápolis no Midwest – dois anos depois do bairro de Watts, em Los Angeles, ter explodido com violência. Como resposta, o presidente Lyndon B. Johnson nomeou uma comissão, chefiada pelo governador do Illinois Otto Kerner, para investigar as causas e propor medidas para a sua resolução. Há cinquenta anos, a Comissão Consultiva Nacional sobre as Desordens Civis (mais conhecida como a Comissão Kerner) publicou o seu relatório, proporcionando um relato cru das condições na América que levaram às desordens.

A Comissão Kerner descreveu um país em que os afro-americanos enfrentavam uma discriminação sistemática, sofriam com educação e habitação inadequada, e não conseguiam aceder a oportunidades económicas. Para eles, o sonho americano não existia. A raiz do problema residia “na atitude e comportamento raciais dos americanos brancos relativamente aos americanos negros. O preconceito racial moldou a nossa história de forma decisiva; ameaça agora afectar o nosso futuro.”

Participei num grupo convocado pela Fundação Eisenhower para avaliar os progressos alcançados no meio século seguinte. Infelizmente, a frase mais famosa do relatório da Comissão Kerner – “A nossa nação progride no sentido de duas sociedades, uma negra e outra branca – separadas e desiguais” – permanece verdadeira.

O livro recém-publicado e baseado nos nossos esforços, Curar a nossa sociedade dividida: Investir na América cinquenta anos depois do Relatório Kerner, editado por Fred Harris e Alan Curtis, promete uma leitura sombria. Como escrevi no meu capítulo, “Algumas áreas problemáticas identificadas no Relatório Kerner melhoraram (participação de americanos negros na política e no governo – simbolizada pela eleição de um presidente negro), algumas ficaram na mesma (desigualdades no ensino e no emprego), e algumas pioraram (desigualdades na riqueza e no rendimento).” Outros capítulos debatem um dos aspectos mais perturbadores da desigualdade racial na América: a desigualdade na garantia do acesso à justiça, reforçada por um sistema de encarceramento em massa que visa principalmente os afro-americanos.

Não há dúvida de que o movimento pelos direitos civis de há meio século marcou a diferença. Foram ilegalizadas várias formas declaradas de discriminação. As normas sociais mudaram. Mas a extirpação do racismo entranhado e institucional revelou-se difícil. Pior, o presidente Donald Trump explorou este racismo e ateou as chamas da intolerância.

A mensagem principal do novo relatório reflecte a grande visão do líder dos direitos civis, Martin Luther King, Jr.: a realização da justiça económica para os afro-americanos não pode estar separada da realização de oportunidades económicas para todos os americanos. King chamou à sua marcha de Agosto de 1963 sobre Washington, a que aderi e onde fez o seu sonante e inesquecível discurso “Tenho um Sonho (I Have a Dream)”, uma marcha   por empregos e pela liberdade . Porém, o fosso económico nos EUA cresceu ainda mais, provocando efeitos devastadores sobre as pessoas sem educação superior, um grupo onde quase três quartos são afro-americanos.

Além disso, a discriminação é galopante, mesmo que frequentemente oculta. O sector financeiro da América seleccionou os afro-americanos para a exploração, especialmente nos anos anteriores à crise financeira, vendendo-lhes produtos voláteis com taxas elevadas que poderiam explodir, e que explodiram. Milhares de pessoas perderam as suas casas e, feitas as contas, a já considerável disparidade na riqueza aumentou ainda mais. Um banco proeminente, o Wells Fargo, pagou multas avultadas por cobrar taxas de juro mais elevadas aos seus devedores afro-americanos e latinos; mas ninguém foi verdadeiramente responsabilizado por muitos outros abusos. Quase meio século após a promulgação das leis anti-discriminação, o racismo, a cobiça, e o poder dos mercados ainda colaboram em desfavor dos afro-americanos.

Existem, porém, vários motivos para esperança. Primeiro, a nossa compreensão da discriminação melhorou bastante. Nesse tempo, o economista laureado com o Nobel, Gary Becker, poderia defender que num mercado competitivo a discriminação seria impossível; o mercado faria subir o salário de qualquer pessoa sub-remunerada. Hoje, compreendemos que o mercado está pejado de imperfeições, nomeadamente imperfeições de informação e de concorrência, que proporcionam amplas oportunidades para a discriminação e a exploração.

Além disso, hoje reconhecemos que os EUA paga um preço elevado pela desigualdade, e um preço especialmente elevado pela sua desigualdade racial. Uma sociedade marcada por divisões deste tipo não se tornará um farol para o mundo, e a sua economia não prosperará. A verdadeira força dos EUA não reside no seu poderio militar mas sim na sua influência cultural, que sofreu sérios desgastes não apenas devidos a Trump, mas também à persistente discriminação racial. Todos perderão se isto não for resolvido.

O sinal mais promissor é a onda de activismo, especialmente junto dos jovens, que compreendem que já é tempo que os EUA cumpram o seu ideal, nobremente expresso na sua Declaração de Independência, de que todos os homens são criados iguais. Um século e meio após a abolição da escravatura, o legado desse sistema ainda permanece. Demorou um século a promulgar leis que garantissem a igualdade de direitos; mas hoje, os tribunais e políticos controlados pelos Republicanos renegam frequentemente esse compromisso.

Como concluí no meu capítulo, “É possível um mundo alternativo. Mas 50 anos de luta mostraram-nos como é difícil alcançar essa visão alternativa.” Para progredirmos mais, precisaremos de ser determinados, e de sustentar-nos na fé expressa pelas palavras imortais do cântico espiritual que se tornou o hino do movimento pelos direitos civis: “Venceremos*”.

JOSEPH E. STIGLITZ

 

Joseph E. Stiglitz, vencedor do Prémio Nobel de Ciências Económicas em 2001 e a medalha Clark John Bates em 1979, é professor universitário na Universidade de Columbia, co-presidente do Grupo de Alto Nível de Especialistas sobre a Medição do Desempenho Económico-social e progresso na OCDE, e economista-chefe do Instituto Roosevelt. Um ex-vice-presidente sénior e economista-chefe do Banco Mundial e presidente do Conselho de Assessores Económicos do presidente dos EUA Bill Clinton, em 2000, fundou a Initiative for Policy Dialogue, um grupo de reflexão sobre o desenvolvimento internacional com sede na Universidade de Columbia. Seu livro mais recente é “Reescrevendo as regras da economia americana”.

 

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