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A ameaça do cancro ao futuro de África

09-03-2018 - Danny A. Milner

CHICAGO –Um dos desafios de saúde pública mais prementes em África, hoje, é também um dos menos noticiados: o cancro, uma das principais causas de morte no mundo. Todos os anos, cerca de 650 mil africanos são diagnosticados com cancro e mais de meio milhão morre derivado à doença. Nos próximos cinco anos, poderá haver mais de um milhão de mortes por cancro anualmente em África, um crescimento da mortalidade que tornaria o cancro num dos principais assassinos do continente

Por toda a África Subsariana têm sido feitos progressos gigantescos no combate às doenças infecciosas mortais. Nas décadas recentes, a cooperação internacional e local   reduziu as mortes devido à malária, em África, até 60%   , deixou a poliomielite à beira da erradicação e prolongou a vida de milhões de africanos infetados com o VIH/SIDA.

Infelizmente, não foram feitas melhorias semelhantes na luta contra doenças não transmissíveis (DNT), incluindo o cancro. Hoje, o cancro mata mais pessoas nos países em vias de desenvolvimento do que aSIDA, a malária e a tuberculose juntas. Mas, com África a receber apenas   5% do financiamento global   para a prevenção e o controlo do cancro, o avanço da doença ultrapassa os esforços para a conter. Tal como o mundo se uniu para ajudar a África a vencer os surtos de doenças infecciosas, também é necessária uma abordagem de colaboração similar para travar a crise do cancro.

Sobreviver ao cancro requer muitas coisas, mas o acesso atempado a especialistas, laboratórios e segundas opiniões estão entre as mais básicas. No entanto, em grande parte de África, a falta de medicamentos acessíveis e uma escassez de médicos e enfermeiras qualificados, quer dizer que os pacientes raramente recebem os cuidados dos quais necessitam. Em média, os países africanos têm menos de   um patologista qualificado para cada milhão de pessoas, o que significa que quando a maioria dos diagnósticos chega já é demasiado tarde para o tratamento. Segundo a oncologista da Universidade de Chicago, Olufunmilayo Olopade, um diagnóstico de cancro em África é   “ quase sempre fatal ” .

A criação de sistemas de saúde que sejam capazes de gerir doenças infecciosas, proporcionando em simultâneo um tratamento de qualidade do cancro, requer um investimento significativo em tempo, dinheiro e experiência. Felizmente, África já tem uma vantagem. Iniciativas passadas – como o   Fundo Mundial de Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária<>, o   Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da SIDA   e o   Projeto de Redes de Laboratórios para a Saúde Pública na África Orientaldo Banco Mundial –expandiram significativamente a estrutura médica do continente. Os esforços nacionais estão também a reforçar as cadeias de abastecimento farmacêutico, a melhorar a formação médica e a aumentar a qualidade das redes de diagnóstico.

Ainda assim, os africanos não podem enfrentar esta ameaça sozinhos. É por isso que a Sociedade Americana de Patologia Clínica, onde eu trabalho, está a cooperar com outros pioneiros nos cuidados de saúde a nível mundial para atacar a crise crescente de cancro da região. Nós unimo-nos à Sociedade Americana do Cancro (ACS) e à empresa farmacêutica   Novartis   para   apoiar o tratamento do cancro e as iniciativas laboratoriais   em quatro países: Etiópia, Ruanda, Tanzânia   e   Uganda. Juntos, levámos a imuno-histoquímica, uma ferramenta de diagnóstico crucial, a sete laboratórios regionais. Esperamos que este esforço precederá diagnósticos de cancro mais atempados e melhorará consideravelmente a qualidade dos tratamentos.

Para complementar estes esforços técnicos, a ACS também está a dar formação a profissionais de cuidados de saúde africanos em realização de biópsias e administração de quimioterapia. Esta iniciativa, financiada pela Novartis, é vista como um programa-piloto que poderá alargar-se a outros países da região.

Por fim, as nossas organizações estão a defender diretrizes de tratamento de cancro melhoradas nos esforços de planeamento dos cuidados de saúde nacionais; acreditamos que estes protocolos são essenciais para melhorar os resultados em matéria de saúde. Estas iniciativas estão juntas com outros projetos, tais como um programa conjunto ACS-Clinton Health Access Initiative para alargar o acesso a medicamentos para o cancro.

Quando o mundo tomou conhecimento de que doenças como oVIH/SIDA, a poliomielite e a malária estavam a devastar a África, foram estabelecidos planos de ação e apresentadas soluções. Hoje, um esforço global semelhante é necessário para garantir que todos os africanos que tenham um diagnóstico de cancro possam receber o tratamento de que precisam. Agora, como na altura, o sucesso depende de coordenação entre os governos africanos, fornecedores de serviços de saúde, fabricantes de medicamentos e organizações não governamentais.

Não há nenhum lugar no planeta Terra que seja imune ao medo de um diagnóstico de cancro; onde quer que a notícia seja dada, muitas vezes o momento é devastador para os destinatários e para as suas famílias. Mas a geografia nunca deveria ser o fator decisivo na luta dos pacientes para sobreviverem à doença. O cancro tem sido um assassino silencioso de África por demasiado tempo e a comunidade mundial de saúde já não deve ficar calada perante esta crise.

DANNY A. MILNER

Danny A. Milner Jr, é Director Médico da Sociedade Americana de Patologia Clínica.

 

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