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Quinta-feira 13 de Dezembro de 2018  
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O ano da oportunidade de África

09-03-2018 - Caroline Kende-Robb

GENEBRA – Ainda estamos perto do início de 2018, e já pressentimos que a tensão e a desordem serão as características definidoras do ano. Das políticas contra a imigração dos Estados Unidos aos focos de crise geopolíticos no Médio Oriente e na Ásia Oriental, parecem estar na ordem do dia as perturbações, os tumultos e a incerteza.

Mas um indicador, pelo menos, oferece motivos para um optimismo cauteloso: o crescimento económico. O Fundo Monetário Internacional estima que o crescimento global atinja os 3,7% este ano, depois de 3,6% em 2017. Como Christine Lagarde, a directora geral do Fundo, referiu num discurso em Dezembro, “O sol espreita por trás das nuvens, e está a ajudar a maior parte das economias a gerarem o crescimento mais forte desde a crise financeira.”

Foi adequado que Lagarde tenha feito essa observação em Adis Abeba, porque é em África que os raios da prosperidade brilham com mais intensidade. Com efeito, prevejo que 2018 seja um ano determinante para muitas – embora não todas – economias Africanas, devido aos ganhos em oito áreas essenciais.

Para começar, África está pronta para uma recuperação modesta, embora fragmentada, do crescimento. Depois de três anos de fraco desempenho económico, espera-se que o crescimento global acelere este ano para 3,5%, depois de 2,9% em 2017. Os ganhos previstos para este ano serão registados num ambiente de melhoria das condições globais, de um aumento da produção petrolífera, e da melhoria das situações de seca no leste e no sul.

Na verdade, este crescimento não será uniforme. Embora perto de um terço das economias africanas vá crescer perto de 5%, são previsíveis abrandamentos em pelo menos uma dúzia. Os importantes aumentos da dívida pública, que atingiu 50% do PIB em quase metade dos países subsaarianos, são especialmente preocupantes. Mas, em geral, a África está posicionada para um ano positivo.

Em segundo lugar, o panorama político de África está a liberalizar-se. Alguns dos presidentes africanos há mais tempo no cargo – incluindo Robert Mugabe do Zimbabué, José Eduardo dos Santos de Angola, e Yahya Jammeh da Gâmbia – abandonaram o cargo em 2017. Na África do Sul, a demissão de Jacob Zuma permitiu que Cyril Ramaphosa se tornasse presidente. Em Janeiro, quando a antiga estrela do futebol George Weah assumiu o cargo de presidente, os Liberianos testemunharam a primeira transferência pacífica de poder do seu país desde 1944.

Contudo, todas estas evoluções sofrerão um teste, já que os eleitores de 18 países vão às urnas neste ano. A agravar o historial de divergências em África estará a fragilidade política continuada numa série de estados, onde se incluem a República Centro-Africana, o Burundi, a Nigéria, o Sudão do Sul e a Somália.

Uma terceira fonte de optimismo vem do sector agrícola de África, onde o potencial dos pequenos agricultores, na sua maioria mulheres, está finalmente a ser desenvolvido. Prevê-se que a produção agrícola de África atinja o bilião de dólares até 2030. Esta maturação não poderia ter chegado num momento mais oportuno, já que perto de dois terços dos africanos dependem da agricultura para sobreviverem. Grandes porções de terreno por cultivar, uma força de trabalho jovem, e a emergência de “agroempreendedores” (empreendedores agrícolas) com um pendor tecnológico estão a aumentar a produção e a transformar economias inteiras.

Em quarto lugar, os africanos estão a beneficiar com o avanço da tecnologia. Incluindo mais de 995 milhões de assinantes de serviços móveis, a crescente conectividade de África está a ser usada para impulsionar a inovação. Sectores essenciais como a agricultura, a saúde, a educação, a banca e os seguros já estão a ser transformados, melhorando grandemente o panorama empresarial da região.

Em quinto lugar, os líderes africanos estão a tomar medidas sérias para a redução dos fluxos financeiros ilícitos decorrentes de práticas de corrupção, que privam os países africanos de perto de 50 mil milhões de dólares todos os anos, e que provêm na sua maioria do sector petrolífero e do gás. Embora os legisladores dos EUA tentem revogar excertos da lei de reforma financeira Dodd-Frank de 2010 (que contém uma provisão que obriga as empresas petrolíferas, de gás, e mineiras, a divulgar os pagamentos feitos a governos) a tendência global é no sentido de uma maior transparência e responsabilização.

Por exemplo, os Panama Papers e os Paradise Papers descortinaram o lamacento sistema de paraísos fiscais e de empresas fictícias que albergam milhares de milhões de dólares provenientes de alguns dos países mais pobres do mundo, incluindo muitos em África. E com o G20 e a OCDE a colaborarem para impedir a evasão fiscal, a África poderá vir a beneficiar dos esforços globais para acabar com a contabilidade criativa.

Em sexto lugar, o sector energético de África está preparado para prosperar. Embora 621 milhões de africanos ainda não disponham de acesso fiável a electricidade, inovações como as energias renováveis, as mini-redes, e os contadores inteligentes estão a levar energia a mais pessoas que nunca. Na África do Sul, a energia renovável disparou: o preço da energia eólica compete hoje com o do carvão. A Etiópia, o Quénia, Marrocos e o Ruanda também estão a captar investimentos importantes nas energias renováveis.

Uma sétima área que demonstra sinais de evolução é a educação. Não é novidade que a oferta educativa de África continua a ser deplorável; mais de 30 milhões de crianças na África subsaariana não frequentam a escola, e os que a frequentam não aprendem tanto quanto poderiam. Mas estas deficiências foram reconhecidas por muitos líderes e públicos africanos; para alguns países, como o Gana, a educação tornou-se até uma questão decisiva para os eleitores.

Como sublinha a Comissão para a Educação, alguns países estão a reforçar o investimento na educação. Isto representa uma oportunidade para adequar os resultados do ensino às futuras necessidades de emprego. Mas com mais de mil milhões de jovens a viver em África em 2050, é urgentemente necessário um maior investimento na educação.

Finalmente, está a ser prestada maior atenção ao desenvolvimento de uma identidade pan-africana, e as modas, os filmes e a comida africana expandem-se para novos mercados. À medida que se intensificam estas ligações culturais, o poder de influência da África continuará a crescer e a estender-se para muito além do continente.

Em muitos cantos do mundo, 2018 está a preparar-se para ser mais um ano decepcionante, com a desigualdade e a pobreza a continuarem a fomentar a raiva e o populismo. África não será inteiramente imune a esses desenvolvimentos. Não obstante, os habitantes do continente têm pelo menos oito boas razões – muito mais do que as pessoas noutros lugares – para estarem optimistas.

CAROLINE KENDE-ROBB

Caroline Kende-Robb, ex-conselheira-chefe da Comissão Internacional de Financiamento da Oportunidade de Educação Global, é uma colega sénior do Centro Africano de Transformação Económica.

 

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