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Segunda-feira 15 de Outubro de 2018  
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Cuidados de saúde primários para todos

26-01-2018 - Asaf Bitton, Madeline Pesec

BOSTON - Dois anos após a morte do seu marido, Valeria, uma avó de 67 anos de San José, Costa Rica, vive sozinha. No ano passado, foram-lhe diagnosticadas hipertensão arterial e diabetes, doenças que, embora não constituam uma ameaça imediata à vida, necessitam de cuidados para serem geridas. No entanto, graças à qualidade dos cuidados de saúde primários da Costa Rica, Valéria tem conseguido manter a sua independência e a sua saúde, mesmo na ausência de família.

A Costa Rica, um país com um rendimento médio, empenhado nos cuidados de saúde universais para o seu povo, produz melhores resultados em termos de saúde, gastando menos do que a maioria dos outros países do mundo. Na verdade, a Costa Rica ocupa o terceiro lugar dos países do continente americano no que diz respeito ao nível mais elevado de esperança de vida  - posicionando-se apenas atrás do Canadá e das Bermudas, e muito à frente dos EUA. O segredo do seu sucesso é revelado no nosso relatório mais recente, "Desenvolver um sistema próspero de cuidados de saúde primários: a história da Costa Rica".

Após lhe ter sido diagnosticado o problema da diabetes, Valeria foi automaticamente inserida no programa de cuidados de doenças crónicas no centro de saúde que lhe foi atribuído, situado a 10 minutos a pé da sua casa. Valeria é observada de três em três meses pela equipa de cuidados de saúde para verificar a tensão arterial e certificar-se de que a diabetes está controlada. Além disso, uma vez por ano, um profissional de saúde da comunidade visita a sua casa para garantir a sua segurança, administrar vacinas e partilhar informações sobre a manutenção de um estilo de vida saudável.

Considerando que a comunidade global de saúde trabalha no sentido de implementar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, incluindo o ODS 3 — que visa alcançar   o bem-estar de todos até 2030 — a Costa Rica oferece um modelo que vale a pena considerar seguir. Em todo o mundo aumentam as doenças crónicas e as populações estão a envelhecer, facto que torna o acesso universal aos cuidados de saúde economicamente acessível uma prioridade máxima. Infelizmente, muitos doentes irão ter resultados a nível de saúde muito piores do que os de Valeria, simplesmente porque não conseguem ter acesso à prestação de cuidados de saúde primários de qualidade.

Os sistemas de cuidados de saúde primários bem organizados — que colocam a tónica nos cuidados de promoção, de prevenção e de doenças crónicas, em que os médicos de clínica geral actuam como o primeiro ponto de contacto — aumentam a qualidade e reduzem a fragmentação do serviço. Os estudos mostram que as áreas que têm um maior número de médicos de cuidados de saúde primários apresentam uma taxa de mortalidade mais reduzida e melhores resultados a nível de saúde do que as áreas em que o número de médicos deste tipo é mais reduzido. Os cuidados de saúde primários são também uma via fundamental para alcançar a cobertura universal dos cuidados de saúde, uma meta declarada da comunidade internacional.

Ao longo dos últimos 20 anos, o Departamento de Segurança Social da Costa Rica instituiu um sistema de cuidados de saúde primários que hoje chega a quase todas as pessoas do país. Os prestadores de cuidados de saúde primários são os primeiros a quem a população da Costa Rica recorre quando tem problemas de saúde, uma vez que estes profissionais oferecem serviços de prevenção e de cuidados para doenças agudas e crónicas. Um sistema semelhante foi utilizado com sucesso noutros países, como a Nova Zelândia, permitindo que os doentes e as suas famílias criem relações de longo prazo com os prestadores de cuidados.

A abordagem da Costa Rica começou com reformas na década de 1990, quando o país se empenhou em levar a cabo algumas alterações simples, destinadas a actualizar os seus serviços de saúde. Algumas destas medidas poderiam ser seguidas por outros países.

Em primeiro lugar, os responsáveis de San José fundiram várias entidades de saúde numa só, conferindo ao novo organismo autoridade sobre as decisões relativas a financiamento e a prestação de serviços de todo o tipo, desde vacinação até cirurgias complexas. Embora uma abordagem consolidada possa não resultar em todos os países, muitos deles poderiam beneficiar de uma abordagem burocrática mais integrada.

Em segundo lugar, a Costa Rica dividiu o país em áreas de cobertura 104, atribuindo a cada cidadão uma equipa de cuidados de saúde primários. Esta solução ajudou os prestadores a conhecerem as tendências em matéria de saúde de forma mais precisa e permitiu uma gestão da saúde pró-activa e economicamente eficaz.

Em terceiro lugar, as autoridades constituíram multidisciplinares no domínio da prestação de cuidados de saúde primários, capazes de proporcionar serviços de cuidados de saúde preventivos, como vacinação e educação, em conjunto com o apoio médico para doenças agudas e crónicas. Esta abordagem holística baseia-se na experiência combinada de médicos, enfermeiros, profissionais de saúde comunitários, farmacêuticos e funcionários responsáveis pelo registo de dados.

Por fim, o Ministério da Saúde criou um sistema para avaliar estatisticamente a qualidade da assistência prestada. Os dados são actualmente utilizados para monitorização contínua, a fim de melhorar a prestação de cuidados de saúde em tempo real.

Estas quatro melhorias tiveram um efeito significativo no sistema. O acesso a   cuidados de saúde primários aumentou e 25% da população no início da década de 1990 para 93% em 2006.   Hoje, mais de 94% da população conta com uma equipa específica de cuidados de saúde primários. A qualidade também aumentou e, graças aos benefícios em termos de eficiência, os custos são apenas uma fracção do montante pago por outros países.

Ao prosseguirem o objectivo da cobertura universal de saúde, os países irão necessitar de formas com eficácia comprovada de prestação de cuidados de qualidade mais elevada e economicamente mais eficazes às pessoas mais necessitadas. A Costa Rica oferece uma abordagem bem-sucedida. Ao colocar os cuidados de saúde primários no centro do sistema, o país melhorou as taxas de cobertura e os resultados, prestando, simultaneamente, um tratamento mais personalizado.

Para os doentes como Valeria, esta medida traduziu-se num sistema acessível, fácil de usar e que presta cuidados numa base contínua. As reformas levadas a cabo na Costa Rica melhoraram consideravelmente a qualidade de vida de Valeria, e sem dúvida que há muitos outros doentes como ela em todo o mundo que poderiam beneficiar de uma abordagem similar.

ASAF BITTON

Asaf Bitton é director de cuidados de saúde primários da Ariadne Labs, um centro conjunto do Brigham and Women's Hospital e da Harvard T. H. Chan School of Public Health.

 

 

 

 

MADELINE PESEC

Madeline Pesec é uma investigadora primária de cuidados de saúde na Ariadne Labs.

 

 

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