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Varoufakis: “austeridade”, o ovo da serpente

15-09-2017 - Yanis Varoufakis

Como as políticas de corte de direitos, impostas pela União Europeia e FMI, estão reacendendo a chama do nazismo em países como a Grécia? Ex-ministro grego relata os detalhes em seu novo livro.

Por que os nazistas estão de volta ao Parlamento grego? Os espanhóis, os irlandeses, os portugueses e os italianos também sentiram na pele as consequências perversas da crise da zona do euro. Mas por que será que só a Grécia tem um genuíno partido nazista no Parlamento, o Aurora Dourada, enquanto suas milícias aterrorizam as ruas?

O motivo principal é que o colapso da economia grega foi muito maior do que nos outros países da zona do euro. Por ter sido o primeiro país a desmoronar, depois da depressão global de 2008, a Grécia transformou-se no laboratório da Troika. A dívida pública mais insustentável foi “tratada” por meio do maior “resgate financeiro”, acompanhado por uma austeridade extremamente severa. A experiência fracassou de maneira desastrosa; quase um terço de todos os salários e empregos foi perdido, e a dívida gerou um clima crescente de angústia que só favorece o crescimento do medo e do ódio. Assim, ao voltar a atenção para os outros Estados-membros da zona do euro falidos, depois de ter “resolvido” os problemas da Grécia, a Troika já estava apreensiva com a própria sobrevivência do país. Para fazer alguns ajustes na política de terra arrasada que ela criara na Grécia, a Troika aplicou versões muito mais brandas de austeridade na Irlanda, em Portugal, na Espanha e na Itália. Menos austeridade, recessões menos profundas, menos espaço para o nazismo criar raízes.

Outro motivo do ressurgimento do fascismo na Grécia se esconde na história de Kapnias. No caso da Grécia, o ocupante nazista procurou criar uma organização semelhante à SS composta por pessoas marginalizadas e tratadas com indiferença pela burguesia local e pela esquerda, e que viviam na miséria permanente de uma vergonha coletiva provocada pela humilhação nacional sofrida anteriormente. Durante nossas longas conversas, Kapnias parecia inebriado com o poder que seus instrutores nazistas lhe haviam conferido. Afinado com a autoridade decorrente da aliança com o lado sombrio, ele afastou-se com gosto da respeitabilidade, o que caracterizaria sua vida dali em diante.

Seu próprio apelido, Kapnias (seu nome verdadeiro era George), tinha origem na palavra grega que designa tabaco (kapnos), para indicar que ele era um homem amargo e indignado que procurava se vingar de um mundo que nunca lhe dera uma oportunidade. Isto é, até que a Gestapo lhe oferecesse uma; uma oportunidade que ele agarrou com ambas as mãos e que ele saboreava até o fim de seu dias, rodeado pelas cabras inofensivas e crédulas.

Governar sem estar no poder

Muitos apontarão, corretamente, a grande diferença que existe entre a Europa atual e a dos anos 1930: hoje, nenhum partido nazista está perto de assumir o governo na Europa. Felizmente, isso é verdade. No entanto, movimentos ultranacionalistas não precisam estar no governo para estar no poder. A Frente Nacional francesa tem influenciado profundamente as políticas dos partidos tradicionais que legitimam um discurso ostensivamente xenófobo e nacionalista.

A Aurora Dourada grega sentiu o gosto do poder pela primeira vez logo antes da eleição de maio de 2012 – quando alcançou seu primeiro êxito eleitoral. Ele veio na forma de um decreto odioso emitido pelo então ministro da Ordem Pública, Mihalis Chrysohoids, que durante muito tempo tinha sido ministro do Partido Socialista. Chrysohoidis e seu colega, o Andreas Loverdos, o então ministro da Saúde, organizaram uma campanha contra as mulheres mais vulneráveis da Grécia. Loverdos chegou até a discursar numa conferência das Nações Unidas, “comunicando” a uma plateia perplexa que os “homens de família” gregos estavam correndo perigo por causa das prostitutas africanas portadoras do HIV.

Os dois ministros ordenaram que a polícia prendesse as prostitutas do centro de Atenas (muitas das quais eram imigrantes ilegais), submetesse-as à força aos testes de HIV e publicassem suas fotos e nomes no site do Ministério para alertar seus clientes gregos.

Durante várias semanas a polícia esquadrinhou Atenas, prendendo, sem nenhum mandado, qualquer mulher que não tivesse uma aparência “respeitável”, jogando-a numa van e levando-a para uma delegacia, onde ela era imobilizada por policiais enquanto enfermeiras colhiam seu sangue. E se o teste desse positivo, eles jogavam a infeliz mulher numa cela, sem qualquer tipo de orientação jurídica, acusada de pôr em risco a saúde pública. De uma tacada só, inúmeros princípios valiosos de uma democracia liberal foram feitos em pedaços. Por que motivo? Para que dois políticos do Partido Socialista que estavam em dificuldade pudessem estimular um pânico moral – e tirar proveito eleitoral dele – baseado em discursos xenófobos que levavam água para o moinho de organizações como a Aurora Dourada.

É nesse sentido que a Aurora Dourada passou a ocupar o poder antes mesmo de entrar no Parlamento. Por que seus assassinos se preocupariam em governar se suas políticas eram implementadas pelos políticos “legítimos” que ocupavam os ministérios sob o comando da Troika de credores da Grécia? Ideólogos autênticos, os bárbaros da Aurora Dourada comemoraram a conversão de sua pauta sinistra na política pública da “Resgatolândia”.

Algumas semanas depois, em junho de 2012, duas eleições consecutivas deram origem a um novo governo grego sob a liderança do conservador Antonis Samaras. O governo não perdeu tempo em aprovar uma lei extraordinária que deixava claro que a cidadania grega e boas notas nos exames de admissão não eram suficientes para que um jovem entrasse na polícia grega ou nas academias militares. O que mais era preciso? A comprovação de ithageneia, ou seja, de uma linhagem de sangue grego da qual, naturalmente, os imigrantes naturalizados estavam excluídos. Por quê? Para atrair os eleitores da Aurora Dourada, que, como todos os fascistas, têm uma predileção por “sangue e solo”, esperando trazê-los de volta para o aprisco da corrente dominante de direita.

Assim, pela primeira vez desde as leis nazistas dos anos 1930 um país europeu introduzia uma legislação que dividia seus cidadãos (e não apenas seus residentes) entre quem tinha o “sangue” certo e quem não tinha. Deveríamos sentir um calafrio na espinha só de pensar nisso. E deveríamos nos envergonhar profundamente que isso possa acontecer no mundo de hoje.

YANIS VAROUFAKIS

 

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