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Segunda-feira 11 de Dezembro de 2017  
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Guam entre Militarização dos EUA e Ameaças da Coreia do Norte
Neocolonização em Pleno Século XXI

08-09-2017 - Edu Montesanti

Guam tem estado no centro do noticiário internacional nos últimos dias, devido ao acirramento das tensões entre Washington y Pyongyang. Em resposta às ameaças dos Estados Unidos, o mandatário da Coreia do Norte, Kim Jong-um, disse que estava examinando cuidadosamente a ilha guamesa, território norte-americano desde o final da Segunda Guerra Mundial. Além disso, Kim afirmou que enviaria um míssil balístico intercontinental a 40 quilômetros de Guam, jamais que atacaria a ilha.

Ao apontar que a ilha vizinha serve como armazenamento de bombas dos Estados Unidos, um porta-voz do Exército norte-coreano afirmou em 9 de agosto à agência de notícias KCNA, controlada pelo regime de Pyongyang: “Esta grave situação exige que o KPA [Forças Armadas] observe de perto Guam, o posto avançado e a cabeça de praia por invadir a Coreia do Norte, e necessariamente tomar ações práticas significativas, para neutralizar isso”.

Desde então, a sempre tendenciosa mídia ocidental, pró-Washington, passou a alardear que Pyongyang estava na iminência de atacar Guam com armas nucleares, fato negado por Kim na semana passada.

“É a presença dos Estados Unidos aqui, que nos torna alvo preferencial da Coreia do Norte no conflito com os norte-americanos”, afirma para esta reportagem a acadêmica e ativista social guamesa, Lisa Natividad, professora adjunta da faculdade de Serviço Social da Universidade de Guam, fundadora e presidenta de Guahan Coalition for Peace and Justice (Coalizão de Guam pela Paz e Justiça), e membro de Guam Decolonization Commission (Comissão pela Descolonização de Guam).

No Fogo Cruzado

“Guam não se sente segura com a presença do Exército dos Estados Unidos na ilha”, declara Lisa dias após o presidente estadunidense, Donald Trump, ter dito que não havia sido duro o suficiente ao afirmar que responderia com “fogo e fogo” ao regime de Kim Jong-um, por este ter declarado que observava com muita atenção o território vizinho de Guam. “Se ele fizer algo com Guam, acontecerá algo que ninguém jamais viu”, disse Trump em 10 de agosto, sem definir o que significava isso.

No dia 1º, o senador republicano pela Carolina do Sul havia dito em entrevista à CNN que ainda que “haja uma guerra para brecá-los [os norte-coreanos], será por lá mesmo. Se milhares morrerem, será por lá mesmo, não aqui enquanto [Trump] disse na minha cara… Eu estou dizendo que [opção militar] é inevitável, se a Coreia do Norte prosseguir”.

No mesmo dia, porém, o secretário de Estado Rex Tillerson dissera que o regime de Tio Sam não buscava uma troca de regime na Coreia do Norte. “Nem o colapso do regime, nem a rápida reunificação da Península, não buscamos desculpa para uma intervenção militar ao norte do paralelo 38”.

Procurado pela reportagem para comentar os desencontros e a agressividade da administração de Trump, John Kiriakou, ex-agente da CIA eu denunciou o sistema secreto de torturas de Bush e acabou preso por dois anos, não acredito que o treta de sabre do presidente Trump seja uma “política”. Eu acho que é uma ação descoordenada, fora do manguito, que o Trump fez sem consultar nenhum de seus conselheiros, inclusive aqueles nos Departamentos de Estado ou Defesa.

Consultada pela reportagem para analisar do ponto de vista jurídico um suposto ataque dos Estados Unidos contra a Coreia do Norte, a renomada jurista estadunidense Azadeh Shahshahani condena o tom belicista do regime de Trump, afirmando que qualquer ação militar contra os norte-coreanos violaria gravemente o direito internacional.

“O lançamento de um ataque militar contra a Coreia do Norte seria muito problemático. A Carta da ONU apenas permite o uso da força militar pelos Estados para autodefesa, ou quando há uma ação coletiva pelo Conselho de Segurança da ONU. Nenhum desses pré-requisitos é encontrado neste caso”, pondera Azadeh, fundadora e diretora jurídica do Project South, e ex-presidente de National Lawyers Guild.

Contudo, a devastação total sempre foi o limite para o Império mais terrorista da história: foi no exatamente no vizinho guamês que Harry Truman realizou os dois únicos ataques com bombas nucleares da história, sobre Hiroshima e Nagazaki em agosto de 1945.

O Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos) publicou em janeiro deste ano, no anual Doomsday Clock (Cronômetro do Dia do Juízo Final), a iminência de confronto nuclear em “2,5 minutos da meia-noite” [início de uma guerra nuclear], nível mais crítico desde janeiro de 1953, último ano da sangrenta Guerra da Coreia. O principal motivo para o alerta do Bulletin era um só, dentro das tensões crescentes nos últimos anos: chegava à Casa Branca no início do ano o imponderável magnata de ultra-direita, Donald Trump.

“O perigo existe quando um lado leva o outro a blefar”, considera para esta reportagem o especialista nuclear estadunidense Peter Kuznick, quem concorda desde o ano passado que o risco de guerra nuclear é muito alto. E desta vez, a preocupação de Kuznick acompanha à do Bulletin: “Quando há imbecis como Trump e Graham que não parecem valorizar a vida humana, agindo como palhaços machistas, a ameaça de guerra torna-se real”.

Também procurado pela reportagem, o economista canadense Michel Chossudovsky convda a humanidade a pensar, em especial a sociedade norte-americana: “Quem representa ameaça à segurança da humanidade, a Coreia do Norte? Não! Os Estados Unidos, sim”.

O pesquisador canadense relembra que, devido aos bombardeios dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia (1950-53), foi dizimada 30% da população do Sul e 20% do total da sociedade do Norte sendo que este teve, se não bastasse o genocídio, nada menos que 97% de sua paisagem devastada. O especialista nuclear estadunidense aponta no mesmo sentido de Chossudovsky: “Os coreanos não se esqueceram do genocídio dos seus povos, tanto o Norte quanto o Sul durante a Guerra da Coreia”.

Chossudovsky recorda também que os Estados Unidos fizeram da Coreia do Sul sua maior base militar na Ásia, e a cada ano desde o fim da Guerra da Coreia – provocada justamente pelos Estados Unidos -, o regime de Washington realiza exercícios militares em território sul-coreano. Atualmente, há 15 bases norte-americanas na Coreia do Sul.

“Diante disso tudo, os norte-coreanos deram-se o direito de se defender, e será que os cidadãos norte-americanos são capazes de se colocar em algum momento no lugar dos norte-coreanos?”, questiona o renomado economista, diretor do Centre for Research on Globalization, no Canadá. “Os Estados Unidos não são um modelo de sociedade a ninguém no mundo, como vocês têm visto aí mesmo, no Brasil”, completa Chossudovsky.

Existem quase 800 bases militares nos Estados Unidos hoje fora do território norte-americano: “É inaceitável. O exército de uma nação deve ser estabelecido apenas para sua defesa, e usado dentro das fronteiras de um país”, respondeu a estes números, indignada, a presidenta de Guahan Coalition for Peace and Justice.

Invasão de Guam: História Cruel

Na ilha de Guam, em cuja capital Hagåtña habitam cerca de 163 mil pessoas, o principal grupo étnico é o dos indígenas denominados chamorros. A líder social, também uma Chamorro, diz que seu povo conhece o “terrível poder de uma bomba nuclear” ao recordar que a ilha asiática foi invadida durante a Segunda Guerra Mundial pelos japoneses, o que fez do território guamês uma zona guerra ativa de 1941 a 1944. “Conhecemos muito bem as realidades da guerra”.

“Conscientes de um ataque iminente [por parte do Japão], os Estados Unidos retiraram todo seu pessoal militar e seus dependentes, deixando nosso povo indígena chamorro para trás sofrendo em uma guerra – em nome deles”, recorda Lisa. “Durante esse período, nosso povo sofreu grandes atrocidades de guerra que incluem estupros, famílias tendo que morar em barracas, fome e desidratação, e finalmente a morte”.

Lisa se emociona ao dizer que seu povo sofreu grandes atrocidades de guerra então, que segundo ela incluem estupros, famílias tendo que morar em barracas, fome e desidratação, e finalmente a morte. “Nós, chamorros, continuamos sofrendo do trauma histórico desta experiência que afetou o que somos hoje”.

Neocolonização

Território dos Estados Unidos desde 1950, Guam abriga três bases militares estadunidenses a fim de ameaçar os rivais do regime de Washington na Ásia, e sofre por causa deste neocolonialismo nos mais diversos aspectos da vida cotidiana.

Em pleno século XXI, Guam continua sendo uma colônia inclusive segundo a lista das Nações Unidas de Territórios Não Autônomos desde o início dessa lista, em 1945, fato lamentado pelo ativista residente do povoado de Inarajan habitado por não mais de 2.200 pessoas. “A colonização norte-americana de Guam criou grandes problemas para nossa ilha, e para o nosso povo”.

Em 1985, a ilha introduziu o Guam Commonwealth Act, projeto de lei enviado aos seus neocolonizadores do Congresso dos Estados Unidos, que continham a fórmula de auto-governo para Guam, alterando o status político da ilha em direção a uma comunidade dos Estados Unidos. Após algumas negociações, o projeto foi finalmente negado em 1997.

“Não foi uma escolha perfeita, mas sem dúvidas era mais vantajosa em comparação a um território não incorporado como somos hoje”. Os guameses não têm direito ao seu próprio Exército, nem de votar para o presidente dos Estados Unidos. Guam recebe um assento para delegado no Congresso no Congresso dos Estados Unidos, no entanto essa pessoa não possui direitos de voto completos. O delegado guamês pode votar no mesmo nível do Congresso, mas apenas se o voto não for um desempate: no caso de a votação promover um desempate, será considerado nulo e sem efeito

“Essa realidade é um grande escárnio contra nossa ilha, e simplesmente cria uma ilusão de inclusão no sistema democrático norte-americano”, denuncia Lisa. “Além disso, nos é oferecido apenas um sétimo do financiamento federal disponível para os Estados”.

Outro fator de descontentamento em diversos segmentos guameses é o Jones Act: estabelece que todos os bens transportados por água entre os portos dos Estados Unidos e Guam sejam transportados em navios com a bandeira dos Estados Unidos, construídos nos Estados Unidos, de propriedade de cidadãos estadunidenses, e os cidadãos e residentes permanentes dos Estados Unidos são os únicos que podem servir em suas respectivas tripulações.

“O Jones Act é altamente prejudicial para a economia de Guahan, pois não permite que as importações de linhas de transporte com base na Ásia sejam enviadas diretamente à ilha. Isso resulta em um custo muito maior de bens”, observa Lisa.

Guahan Coalition for Peace and Justice foi fundada após o anúncio da assinatura de um acordo entre os EUA e o Japão a fim de transferir oito mil marinheiros norte-americanos de Okinawa no Japão e da Coreia do Sul para Guam, em 2006.

Desde o início, a organização de Lisa concentra-se em questões de descolonização política e desmilitarização da ilha através da organização de palestras, fóruns públicos, divulgação nos meios de comunicação e apresentação dos problemas da nação guamesa diante de organizações internacionais como as Nações Unidas.

Lisa diz que enxerga avanços na mentalidade da sociedade guamesa e relação ao domínio estrangeiro. “Algumas pessoas ainda compram a retórica norte-americana de que suas forças armadas estão presentes na ilha, ‘proteja-nos’”, reconhece a ativista e docente. “No entanto, com o crescente estabelecimento do ativismo e do conhecimento comunitário mais profundo das realidades da colonização e da militarização, as pessoas estão começando a questionar exatamente o quanto é segura a presença dos militares dos Estados Unidos em Guam”.

“Pobreza, habitação precária, abuso de substâncias tóxicas, encarceramento, evasão escolar, gravidez na adolescência, suicídio, câncer e problemas de saúde mental: apenas para citar alguns casos” são parte dos problemas que, de acordo com Lisa, atingem mais em cheio os chamorros da ilha asiática.

“A ilha educa a comunidade no processo de descolonização através do trabalho da Guam Commission on Decolonization (Comissão de Guam pela Descolonização), na esperança de ter resolvido o estatuto político nos próximos anos”.

Pois tal ocupação é mais uma descarada justificativa do regime de Washington para espalhar bases militares pelo globo, em nome de seus interesses econômicos e estratégicos, escancarado agora no acirramento das tensões com os norte-coreanos.

Questionado sobre isso, Kuznick concorda e vai além: “Trump também precisa de uma ameaça externa para justificar o aumento maciço do seu regime em gastos militares, além de cortes inconciliáveis em programas domésticos e gastos sociais”.

Aniquilando Culturas: Velha Estratégia Imperialista

A cultura local foi um dos primeiros valores atacados pelo imperialismo em Guam, como sempre ocorreu na história em todo o mundo. “Estou fazendo aulas para aprender minha própria língua… Outro subproduto da colonização!”, diz Lisa, observando que poucos na ilha falam a língua nativa, denominada também de chamorro.

Questionada sobre a mídia local, a líder guamesa avalia que os meios locais estão fortemente ligados aos Estados Unidos, “relatando sob a perspectiva de doutrinar as pessoas com o intuito de levá-las a acreditar que os Estados Unidos são a maior potência mundial, e que a ocidentalização e norte-americanização são o caminho do sucesso”.

Para ela, tal postura midiática, quando não confrontada, resulta também em um aumento de patriotismo norte-americano entre seu povo e, portanto, Washington prossegue com caminho livre em direção à colonização de Guam.

“Os meios guameses também são usados para promover a agenda global dos Estados Unidos, contando apenas um lado diante dos acontecimentos geopolíticos e justificando o complexo industrial militar dos Estados Unidos”, reclama Lisa.

“Estamos felizes em atingir a mídia global, disposta a ajudar-nos a espalhar a mensagem de colonização e expansão da militarização dos Estados Unidos, a fim de nos ajudar a promover o diálogo e construir uma solidariedade global em favor de um mundo livre e pacífico “, diz Lisa Natividad ao mesmo tempo que afirma que se os Estados Unidos desejam respeitar a ilha, devem apoiar e participar do seu processo de descolonização.

Para Lisa, a escolha sobre os futuros de Guam deve ser decidida exclusivamente pelo povo guamês, e por ninguém mais. Inclusive, “para decidir o grau de militarismo que queremos estabelecer em nossa ilha”.

A docente lembra que na década passada houve uma avalanche de ativismo da juventude da ilha, “intolerantes diante do nosso status atual, comprometidos em resolver essa questão e exercer seu sagrado direito à autodeterminação”.

Perspectivas de Confronto Nuclear

Na entrevista para este autor, intitulada A História Não Contada dos Crimes de Guerra dos Estados Unidos, o especialista nuclear já havia ponderado algo da mais alta relevância no que diz respeito ao risco de confronto nuclear: “o que Kennedy e Khrushchev aprenderam com a crise dos mísseis cubanos é que, uma vez que uma crise se desenvolve, ela rapidamente foge do controle. Apesar de ambos terem tentado desesperadamente evitar uma guerra nuclear em 1962, perceberam que perderam o controle”.

Quanto às perspectivas de ataque nuclear neste momento, para Kuznick “o perigo existe quando um lado leva o outro a blefar. Portanto, crise prolongada é o cenário mais provável o que, aliás, também serve a Trump como distração dos escândalos que envolvem sua administração”.

A docente guamesa diz que seu povo é, desgraçadamente, familiar às armas nucleares. “Na Micronésia, conhecemos seu terrível poder”. Mais uma vez recorrendo à história, Lisa ressalta que as vizinhas Ilhas Marshall sofreram detonação de 67 bombas nucleares pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. “As pessoas de Marshall foram evacuadas das ilhas residenciais de Bikini, Rongelap e Enewetak, e convidadas para ser assistidas pelo serviço da humanidade para a promoção da paz mundial”, acrescenta a guamesa.

“Hoje, sabemos que as bombas nucleares não promovem a paz mundial”. Sobre o risco de seu território ser alvo deste tipo de armamento, Lisa Natividad mostra-se claramente preocupada: “Enquanto queremos acreditar que os Estados Unidos nos manterão seguros durante esses dias de ameaças nucleares, nossa experiência passada têm apontado exatamente o oposto…”.

Edu Montesanti

www.edumontesanti.skyrock.com

 

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