| Choramos por ti, Venezuela
25-08-2017 - Juan Manuel Santos
BOGOTÁ – Até recentemente, a Venezuela – a terra natal de Simón Bolívar, o Libertador – era um país livre e consideravelmente abastado, que se gabava de ter as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e um povo maravilhoso. Atraiu milhões de migrantes colombianos, que tentavam escapar da violência da guerra contra os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Esses papéis estão actualmente a ser invertidos: ao mesmo tempo que termina a guerra de 50 anos da Colômbia contra as FARC, a Venezuela está a desmoronar-se economicamente, socialmente e politicamente.
A Colômbia é o país que mais tem a perder com a crise que aflige a república nossa vizinha e irmã. De facto, os nossos países estão unidos por todas as ligações possíveis: históricas, culturais, económicas, e geográficas, com mais de 2 000 quilómetros de fronteira partilhada.
Na Colômbia temos sempre esperança que a Venezuela prospere. É por isso que nós, juntamente com muitos outros estados e líderes mundiais, incluindo o Vaticano e o próprio Papa Francisco, estamos a fazer todos os possíveis para encorajar tanto o governo da Venezuela, liderado pelo presidente Nicolás Maduro, como a oposição, a alcançarem uma solução honrosa para a crise.
Essa crise assenta nas ideias do falecido Hugo Chávez, que se tornou presidente da Venezuela em 1999. Quando foi eleito, Chávez gozava de apoios importantes, nomeadamente da maioria do sector empresarial e comercial, e de pouca oposição. Mas eu tinha as minhas dúvidas quanto à sua chamada “Revolução Bolivariana”, e manifestei-as. Na verdade, sendo jornalista na altura, tornei-me um dos mais duros críticos colombianos de Chávez.
Quando fui eleito presidente da Colômbia em 2010, contudo, mudei a minha abordagem. Tomar as rédeas de uma nação, muito como ter o primeiro filho, intensifica o nosso sentido de responsabilidade. A melhoria das relações com os nossos vizinhos era do maior interesse para a minha nação (nessa altura, também não tínhamos relações diplomáticas ou comerciais com o Equador). De outro modo, nunca conseguiríamos atingir o grande sonho do povo colombiano: a paz com as FARC, o maior e mais antigo exército de guerrilheiros da América Latina.
O restabelecimento de relações com a Venezuela não implicava que eu e Chávez tivéssemos de concordar com as perspectivas de cada um; isso teria sido impossível. Bastava-nos respeitar as nossas diferenças, ao mesmo tempo que fazíamos o melhor para o nosso povo. E graças a um sentimento partilhado de história e de propósito, para não falar de algum humor, conseguimos fazer isso mesmo, tendo o nosso relacionamento pessoal migrado gradualmente de antagónico para cordial.
Quando o presidente dos EUA, Ronald Reagan, se reuniu pela primeira vez com o líder soviético Mikhail Gorbachev para discutir a redução dos seus arsenais nucleares, foi franco. Não iria tornar-se comunista, e não esperava que Gorbachev adoptasse o capitalismo. Não obstante, Reagan concluiu que deveriam trabalhar em conjunto para um propósito mais elevado: proteger o mundo de um desastre nuclear. E foi precisamente o que fizeram.
Quando me reuni pela primeira vez com Chávez, sugeri uma abordagem semelhante. Não me iria transformar num revolucionário Bolivariano, e ele também não se tornaria um democrata liberal. Mas também nós tínhamos um propósito mais alto: trabalhar para a paz na Colômbia, conseguindo assim benefícios para toda a região. E foi precisamente o que fizemos.
Ajudou muito que Chávez tivesse um excelente sentido de humor. Brincávamos constantemente sobre as nossas diferenças. Disse-lhe que a sua Revolução Bolivariana acabaria por falhar, e por dar mau nome a Bolívar. Ele disse-me que Santander, o outro grande herói da independência latino-americana, era um oligarca neoliberal, e que eu era igual a ele.
Mas, tal como Reagan e Gorbachev, decidimos não criticar os modelos preferidos por cada um (no nosso caso, o socialismo do século XXI contra a Terceira Via), e, em vez disso, deixar a história pronunciar o seu veredicto. Com este entendimento comum, permanecemos cordiais até à morte de Chávez em 2013.
Agora, a história pronunciou-se, e o veredicto é conclusivo. Nos últimos anos, a Colômbia cresceu bem acima da média latino-americana, e a inflação está abaixo dos 4%. Além disso, a Colômbia tornou-se um destino cada vez mais atraente para o investimento, ao ter feito grandes esforços na redução da pobreza, na criação de emprego, no desenvolvimento de infra-estruturas, e na reforma educativa.
Entretanto, a economia da Venezuela contraiu perto de 40%, sob o peso de um enorme endividamento e da maior taxa de inflação no mundo. Perto de 82% dos venezuelanos são hoje carenciados. Existe uma falta crónica de divisas estrangeiras, de medicamentos, e de alimentos. A má nutrição é generalizada. A taxa de mortalidade materna nos hospitais alegadamente quintuplicou em 2016, ao passo que a taxa de mortalidade infantil centuplicou. A tentação de migrar para procurar uma vida melhor está a aumentar.
Maduro, o sucessor cuidadosamente escolhido de Chávez, culpou a Colômbia pelo desastre económico da Venezuela. Quando mencionei que avisara Chávez há sete anos que o seu programa económico acabaria por falhar, Maduro sentiu-se ofendido. E, porém, esse falhanço não podia ser mais óbvio.
Pior do que este falhanço económico, contudo, é a crise política da Venezuela. Em poucos anos, a própria democracia do país foi destruída. A corrupção consumiu o regime, e os venezuelanos foram despojados dos seus direitos humanos básicos.
Até à morte de Chávez, as estruturas democráticas mantiveram-se. À primeira vista, o mesmo podia ser dito de Maduro que, pelo menos durante algum tempo, reconheceu relutantemente a maioria legislativa da oposição depois das eleições de 2015. Mas depois disso foram desferidos golpes consecutivos sobre as instituições democráticas da Venezuela, num processo que culminou no mês passado, com a decisão de formar uma assembleia constituinte ilegítima para reescrever a constituição e consolidar o regime de Maduro.
A Colômbia apelou a negociações para definir uma solução justa e mutuamente aceitável para os graves conflitos entre o governo e a oposição na Venezuela. Essa solução deverá respeitar a democracia na Venezuela e restabelecer a paz.
A recente degradação da democracia na Venezuela desencadeou críticas cada vez mais duras. Maduro apelida-me de traidor, porque a Colômbia se opõe às crescentes violações dos direitos humanos e democráticos no seu país. Talvez ele pensasse que, ao ajudar-nos no processo de paz com as FARC, tivesse assegurado um aliado cego, disposto a fazer vista grossa e a auxiliar os seus métodos despóticos.
Mas a Realpolitik das relações internacionais não vai tão longe. Permanecerei sempre grato às contribuições de Chávez e Maduro para a paz no meu país. Mas nunca poderei concordar com a repressão da liberdade e a violação dos direitos dos cidadãos onde quer que seja. Pelo contrário, na presença de uma ditadura, tenho a obrigação de levantar ainda mais alto a minha voz.
E não estou sozinho. Os países da América Latina e noutras paragens, que estejam comprometidos com a defesa da paz e da liberdade, devem continuar a exigir, com firmeza crescente, o restabelecimento rápido e pacífico da democracia na grande nação da Venezuela. Não podemos permitir que uma nova ditadura se perpetue no meio da América Latina, continente que só recentemente alcançou a tão esperada paz.
Entretanto, choramos por ti, Venezuela.
Juan Manuel Santos
Juan Manuel Santos é o Presidente da Republica da Colômbia e vencedor do Prémio Nobel da Paz de 2016.
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